Para ela, envelhecer em uma sociedade desigual significa perder direitos, voz, centralidade e reconhecimento.
Simone de Beauvoir foi uma das primeiras pensadoras a afirmar que a velhice não é apenas um processo biológico, é uma construção social atravessada por poder, desigualdade e exclusão. Para ela, envelhecer em uma sociedade desigual significa perder direitos, voz, centralidade e reconhecimento. E quando esse envelhecimento acontece no corpo de uma mulher, ele não vem apenas com rugas e limitações físicas: vem com invisibilidade social, abandono institucional e empobrecimento estrutural.
No Brasil, a velhice feminina não é proteção. É fragilidade social.
Não é descanso. É sobrecarga.
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Não é reconhecimento. É esquecimento.
A mulher idosa deixa de ser vista como sujeito e passa a ser tratada como peso, custo, dependência, exatamente o que Beauvoir denunciava: quando a mulher deixa de ser “útil” ao sistema produtivo e reprodutivo, ela perde valor simbólico.
Avós chefes de família: a maternidade que nunca termina

Uma das faces mais duras da velhice feminina no Brasil é a figura da avó que sustenta a casa. Mulheres que já deveriam estar protegidas pelo Estado seguem como base econômica, emocional e social de famílias inteiras. Criam netos, sustentam lares, cuidam de filhos adultos em situação de desemprego, dependência química ou vulnerabilidade social.
Não é escolha.
É necessidade.
É ausência de política pública.
É falência do sistema de proteção social.
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Beauvoir já alertava que a mulher é socialmente treinada para o cuidado, mas nunca amparada por ele. Na velhice, isso se intensifica: o cuidado vira obrigação permanente, não reconhecida, não remunerada e não protegida.
Aposentadoria insuficiente: envelhecer na pobreza
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A pobreza feminina na velhice não é acidente, é consequência de uma vida inteira de desigualdade. Mulheres trabalham mais, ganham menos, têm vínculos mais precários, passam mais tempo na informalidade e interrompem carreiras por maternidade e cuidado familiar.
O resultado é direto:
aposentadorias menores,
benefícios insuficientes,
dependência financeira,
vulnerabilidade econômica.
Beauvoir afirmava que a velhice, em sociedades desiguais, não é fase de dignidade — é fase de perda de autonomia. Para mulheres pobres, essa perda não é simbólica: é material, concreta e cotidiana.
Cuidado não remunerado: trabalho invisível que sustenta o país
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Mulheres idosas continuam trabalhando, mas sem salário, sem reconhecimento e sem proteção. Cuidam de netos, de doentes, de idosos mais velhos, de casas, de famílias inteiras. Sustentam a economia do cuidado sem existir nos orçamentos públicos. Esse trabalho invisível mantém o funcionamento da sociedade, mas não aparece nas políticas públicas, nos dados econômicos nem nas prioridades do Estado.
Beauvoir denunciava exatamente isso: a mulher é explorada pelo trabalho que não é chamado de trabalho. E, na velhice, essa exploração se torna permanente.
Pobreza feminina: quando envelhecer vira risco social
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Envelhecer sendo mulher no Brasil significa maior risco de:
• pobreza
• dependência econômica
• abandono familiar
• isolamento social
• falta de acesso à saúde
• negligência institucional
• violência patrimonial
• exclusão digital
• invisibilidade política
A velhice feminina é atravessada por gênero, classe, raça e território. No Norte e na Amazônia, isso se aprofunda: menos acesso a serviços, maior precarização, maior informalidade e menor presença do Estado.
A mulher idosa amazônida enfrenta uma dupla exclusão: por ser mulher
e por viver em um território historicamente invisibilizado.
Beauvoir e a velhice como exclusão social
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Em sua obra A Velhice, Simone de Beauvoir foi direta: as sociedades modernas não sabem lidar com o envelhecimento porque ele expõe suas desigualdades. Para ela, o idoso é empurrado para fora da centralidade social, e a mulher idosa sofre isso de forma ainda mais brutal, porque já vinha de uma trajetória de subordinação.
A velhice feminina revela a falência de um sistema que usou o corpo da mulher a vida inteira, e depois a descarta.
Posicionamento editorial | Portal Mulher Amazônica
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Para o Portal Mulher Amazônica, a velhice feminina no Brasil não é um problema individual — é uma falha estrutural do Estado e da sociedade.
Não é “destino”.
Não é “fatalidade”.
Não é “questão familiar”.
É ausência de política pública, proteção social e justiça econômica.
Uma sociedade que abandona suas mulheres idosas não é moderna, é injusta.
Um Estado que depende do cuidado feminino, mas não protege quem cuida, não é democrático, é desigual.
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Um sistema que empobrece mulheres ao longo da vida e as condena à vulnerabilidade na velhice não é neutro, é excludente.
Simone de Beauvoir nos ensinou que envelhecer não deveria ser sinônimo de exclusão.
Mas no Brasil, para milhões de mulheres, envelhecer ainda significa perder direitos, renda, visibilidade e dignidade.
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Fotos: Divulgação
A velhice feminina não precisa ser abandono.
Mas enquanto o cuidado continuar sendo obrigação feminina e não responsabilidade coletiva, envelhecer sendo mulher continuará sendo um risco social — não uma fase de proteção.
Porque dignidade não pode ter prazo de validade. E nenhuma mulher deveria envelhecer invisível.
Fontes:
BEAUVOIR, Simone. A Velhice.
BEAUVOIR, Simone. O Segundo Sexo.
IBGE — Censo Demográfico 2022.
IBGE — PNAD Contínua (trabalho não remunerado e cuidado).
IPEA — Retrato das Desigualdades de Gênero e Raça.
CAMARANO, Ana Amélia. Envelhecimento da população brasileira e proteção social.
HIRATA, Helena. Divisão sexual do trabalho e desigualdades sociais.
IPEA — Mulheres, trabalho de cuidado e proteção social no Brasil.
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