Dentro desse cenário, as mulheres amazônidas ocupam o lugar mais profundo da invisibilidade
O “Outro” como estrutura, não como metáfora
Simone de Beauvoir escreveu que a mulher é construída socialmente como “o Outro”: não o centro, não a referência, não a medida do mundo — mas aquilo que existe em relação a alguém que ocupa o lugar de sujeito. Essa lógica não se limita ao gênero. Ela se reproduz em territórios, regiões e populações inteiras.
No Brasil, a Amazônia ocupa esse lugar simbólico. Ela não é centro. Não é referência. Não é padrão. É tratada como periferia do país, como margem do desenvolvimento, como espaço de extração, exploração, exotização ou abandono.
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A Amazônia é o “Outro” do Brasil.
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E dentro desse território já invisibilizado, as mulheres ocupam uma camada ainda mais profunda de apagamento: elas são o “Outro” dentro do “Outro”.
Invisibilização nacional do Norte

O Norte brasileiro é historicamente tratado como espaço distante da vida política real do país. Está presente no discurso ambiental, no imaginário da floresta e na retórica da biodiversidade, mas ausente nos centros de decisão, nos projetos estruturantes, na formulação de políticas públicas e na ocupação do poder nacional.
A produção acadêmica brasileira já nomeia esse fenômeno como colonialismo interno: uma lógica em que determinadas regiões são tratadas como colônias internas do próprio país — fornecedoras de recursos, mão de obra barata e capital simbólico, mas sem centralidade política e sem protagonismo decisório.
A Amazônia não é pensada como sujeito político. É tratada como território a ser administrado, não como território que governa.
Essa lógica reproduz exatamente o mecanismo descrito por Beauvoir: quem está no centro não precisa se explicar; quem está na margem precisa se justificar para existir.
Mulheres invisibilizadas dentro do território invisibilizado
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Dentro desse cenário, as mulheres amazônidas ocupam o lugar mais profundo da invisibilidade. Elas sustentam lares, lideram comunidades, mantêm economias locais, organizam redes de cuidado, produzem sobrevivência cotidiana — mas seguem ausentes dos espaços de decisão, dos cargos institucionais, da política formal e da construção de políticas públicas.
Elas não são vistas como formuladoras. São vistas como destinatárias.
Não são reconhecidas como liderança. São tratadas como base social.
Não são incorporadas ao poder. São administradas por ele.
Simone de Beauvoir dizia que o “Outro” não é aquele que não existe — é aquele cuja existência não tem centralidade. Ele sustenta, mas não governa. Ele mantém, mas não decide. Ele suporta, mas não comanda.
Essa é a posição das mulheres na Amazônia: essenciais para a vida social, invisíveis para o poder político.
Colonialismo interno: quando a desigualdade é territorializada

A lógica colonial não acabou com o fim formal do colonialismo. Ela se reorganizou internamente. Regiões passaram a ocupar o lugar simbólico de colônia dentro do próprio Estado nacional.
A Amazônia fornece:
• recursos naturais
• energia
• biodiversidade
• riqueza mineral
• capital ambiental
• discurso internacional
• território estratégico
Mas não recebe proporcionalmente:
• investimentos estruturantes
• políticas públicas contínuas
• proteção social suficiente
• presença institucional estável
• poder decisório real
• centralidade política
Esse desequilíbrio não é acidente. É estrutura.
E dentro dessa estrutura desigual, as mulheres amazônidas ocupam o ponto mais vulnerável: vivem a desigualdade de gênero somada à desigualdade territorial, racial, econômica e institucional.
É a interseção das opressões.
Democracia incompleta: quando metade da população não é centro
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Uma democracia que não incorpora territórios periféricos não é plena. Uma democracia que não incorpora mulheres não é real. Uma democracia que concentra poder, voz e decisão em poucos corpos, poucos lugares e poucas regiões é formal — mas não substantiva. Beauvoir já alertava: a exclusão não se mantém apenas pela força, mas pela normalização da hierarquia. Quando a desigualdade vira “ordem natural”, ela deixa de ser questionada.
No Brasil, é considerado “normal” que:
• o Norte tenha menos representação política nacional
• a Amazônia tenha pouca influência decisória
• mulheres estejam fora dos espaços de poder
• mulheres amazônidas sejam invisíveis institucionalmente
• políticas sejam formuladas sem escuta territorial
• decisões sejam tomadas sem representação real
O “normal” é a linguagem da exclusão.
O “Outro” dentro do “Outro”

Se a Amazônia é o “Outro” do Brasil, as mulheres amazônidas são o “Outro” dentro do “Outro”.
Elas vivem:
• invisibilização nacional
• marginalização territorial
• exclusão política
• sobrecarga social
• precarização econômica
• ausência institucional
• apagamento simbólico
Não são centro do projeto de país.
Não são centro do projeto de desenvolvimento.
Não são centro da política.
Não são centro das decisões.
E, ainda assim, sustentam a vida cotidiana.
Beauvoir, território e poder

Simone de Beauvoir não falava apenas de mulheres — falava de sistemas de poder que produzem hierarquias, centros e margens. Sua teoria do “Outro” é uma chave de leitura para entender não só o gênero, mas a organização do mundo.
Quem é centro não se percebe como centro.
Quem é norma não se percebe como norma.
Quem é padrão não se percebe como padrão.
O “Outro” é sempre o outro.
A Amazônia é o “Outro” do Brasil.
As mulheres são o “Outro” do sistema.
As mulheres amazônidas são o “Outro” dentro do “Outro”.
Posicionamento editorial | Portal Mulher Amazônica

Fotos: Reprodução/Google
Para o Portal Mulher Amazônica, não existe democracia possível enquanto territórios inteiros forem tratados como margens e mulheres forem tratadas como exceção.
Não existe justiça social quando a Amazônia é vista como recurso, não como sujeito.
Não existe igualdade quando mulheres são base da sociedade, mas não centro do poder.
Não existe democracia quando quem sustenta a vida não participa das decisões.
A invisibilização territorial e a invisibilização de gênero não são problemas separados. Elas são engrenagens do mesmo sistema.
Simone de Beauvoir nos ensinou que a opressão não é natural — é construída. E tudo que é construído pode ser transformado. A editoria Simone de Beauvoir Hoje nasce para romper esse silêncio histórico: trazer a Amazônia para o centro do debate nacional e trazer as mulheres amazônidas para o centro da democracia. Porque não existe país justo com territórios descartáveis. Não existe democracia real com mulheres invisíveis. E não existe futuro possível quando o “Outro” sustenta tudo — mas nunca governa.
Fontes:
BEAUVOIR, Simone. O Segundo Sexo.
QUIJANO, Aníbal. Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina.
SANTOS, Boaventura de Sousa. A crítica da razão indolente; Epistemologias do Sul.
ALMEIDA, Alfredo Wagner Berno de. Territorialidades e conflitos sociais na Amazônia.
CASTRO, Edna. Desenvolvimento, território e poder na Amazônia.
HIRATA, Helena. Divisão sexual do trabalho e cuidado.
BIROLI, Flávia. Gênero e Desigualdades: os limites da democracia no Brasil.
IBGE — Censo Demográfico 2022.
IBGE — PNAD Contínua.
IPEA — Estudos sobre desigualdade regional e territorial.
Observatório das Desigualdades Regionais no Brasil.
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