Entre críticas, rivalidade, exclusão e ataques à autoestima, especialistas defendem a necessidade de ampliar o debate sobre as formas de agressão que ocorrem nas relações femininas.
Durante décadas, o debate sobre a violência contra a mulher esteve concentrado, com razão, nas agressões físicas, psicológicas, patrimoniais, sexuais e morais praticadas por homens. Entretanto, um tema cada vez mais discutido por especialistas em comportamento, psicologia e relações sociais tem ganhado espaço: a violência simbólica e emocional exercida entre mulheres.
A reflexão provocada pela publicação da empresária e influenciadora Edna Vasselo Goldoni levanta uma questão necessária: será que toda violência contra a mulher vem exclusivamente dos homens?
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A resposta é não.

Embora os índices mais graves de violência, como feminicídios, estupros e agressões físicas, sejam majoritariamente praticados por homens, existem formas de violência silenciosa que também podem ocorrer entre mulheres e que frequentemente passam despercebidas ou são naturalizadas pela sociedade.
A violência que não deixa marcas visíveis

Nem toda violência produz hematomas. Muitas vezes ela surge em forma de comentários depreciativos, exclusão social, fofocas, humilhações públicas, ataques à aparência física, desmerecimento profissional ou tentativas constantes de enfraquecer a autoestima de outra mulher. Psicólogos classificam esse comportamento como uma forma de agressão relacional, caracterizada pelo uso de estratégias destinadas a prejudicar vínculos sociais, reputações e sentimentos de pertencimento.
Esse tipo de violência pode ocorrer em diversos ambientes:
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No trabalho;
Na política;
Nas igrejas;
Nas escolas;
Nas universidades;
Nas redes sociais;
Dentro da própria família.
Em muitos casos, a agressão não é explícita. Ela aparece disfarçada de conselho, brincadeira, ironia ou crítica construtiva.
O fenômeno conhecido como “violência horizontal”
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Pesquisadores das áreas de sociologia e psicologia utilizam o termo “violência horizontal” para descrever situações em que pessoas pertencentes ao mesmo grupo social reproduzem comportamentos de opressão entre si. No universo feminino, isso pode ocorrer quando mulheres, conscientemente ou não, reproduzem padrões culturais que historicamente foram construídos para colocá-las em competição. Durante séculos, as mulheres tiveram acesso limitado aos espaços de poder, educação e liderança. Como consequência, muitas sociedades desenvolveram uma cultura de rivalidade feminina baseada na ideia de que há poucos lugares disponíveis para elas.
Essa lógica pode gerar comportamentos como:
Competição excessiva;
Falta de apoio mútuo;
Desqualificação de conquistas femininas;
Julgamentos constantes sobre aparência, maternidade ou carreira;
Exclusão de outras mulheres de oportunidades profissionais.
As redes sociais ampliaram o problema?

Especialistas apontam que as redes sociais ampliaram significativamente a exposição desse fenômeno. A facilidade para comentar, compartilhar opiniões e emitir julgamentos instantâneos criou um ambiente onde críticas e ataques podem alcançar milhares de pessoas em poucos minutos.
Não são raros os casos em que mulheres se tornam alvo de outras mulheres por causa de:
Aparência física;
Escolhas profissionais;
Opções religiosas;
Maternidade;
Posicionamentos políticos;
Idade;
Estado civil.
Em muitos desses episódios, a violência psicológica produz impactos profundos na saúde mental, incluindo ansiedade, depressão, baixa autoestima e isolamento social.
Sororidade não significa concordar com tudo
A discussão sobre a violência entre mulheres não deve ser confundida com a ideia de que mulheres precisam concordar entre si em todos os assuntos. A diversidade de opiniões é natural em qualquer sociedade democrática. Sororidade não significa ausência de críticas. Significa reconhecer a dignidade da outra mulher, mesmo diante de divergências. É possível discordar sem humilhar. O desafio está justamente em construir relações mais respeitosas, especialmente em uma época marcada pela polarização e pela cultura do cancelamento.
O peso emocional da desqualificação feminina

Uma das consequências mais graves desse comportamento é que a agressão vinda de outra mulher costuma ser percebida de forma particularmente dolorosa. Isso acontece porque muitas mulheres esperam encontrar acolhimento, compreensão e empatia em pessoas que compartilham experiências semelhantes de discriminação e desigualdade. Quando a violência surge justamente desse espaço de identificação, o impacto emocional pode ser ainda maior. A sensação de rejeição, traição ou exclusão pode comprometer relacionamentos, carreiras e até mesmo projetos de vida.
Reconhecer que existem formas de violência praticadas entre mulheres não diminui a gravidade da violência de gênero nem relativiza a luta histórica pelos direitos femininos. Pelo contrário. Ampliar essa discussão significa compreender que toda forma de agressão, independentemente de quem a pratica, merece reflexão e enfrentamento. Construir uma sociedade mais justa exige combater não apenas as violências estruturais, mas também os comportamentos cotidianos que alimentam ciclos de sofrimento, exclusão e humilhação. A transformação social começa quando cada pessoa passa a observar não apenas as agressões que sofre, mas também aquelas que eventualmente reproduz.
Posicionamento do Portal Mulher Amazônica
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Fotos: Reprodução/Google
O Portal Mulher Amazônica entende que a defesa dos direitos das mulheres passa necessariamente pela construção de redes de apoio, respeito e fortalecimento mútuo. Reconhecemos que a violência contra a mulher continua sendo um grave problema social, especialmente em suas formas física, sexual e psicológica. Entretanto, também consideramos importante refletir sobre atitudes cotidianas que geram exclusão, julgamento e desqualificação entre mulheres. Promover o protagonismo feminino significa incentivar ambientes onde o diálogo substitua a hostilidade, a empatia substitua o preconceito e o apoio substitua a competição destrutiva. Acreditamos que mulheres fortes não precisam diminuir outras mulheres para crescer. Uma sociedade mais humana é construída quando cada conquista individual se transforma em oportunidade coletiva.
Fontes:
Conselho Federal de Psicologia (CFP)
ONU Brasil – Igualdade de Gênero e Empoderamento Feminino?
Organização Mundial da Saúde (OMS) – Violência e Saúde Mental?
Instituto Maria da Penha?
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