Existe uma pergunta silenciosa que acompanha milhões de brasileiras todos os dias: até onde uma mulher pode ir sem medo?
Embora o direito à cidade seja garantido constitucionalmente e faça parte dos princípios fundamentais da cidadania, a realidade mostra que a experiência urbana continua sendo profundamente desigual entre homens e mulheres. Enquanto muitos homens aprendem a ocupar os espaços públicos com relativa naturalidade, mulheres crescem aprendendo estratégias de autoproteção para atravessá-los.
O medo tornou-se uma presença constante na rotina feminina
Dados da pesquisa "Os gatilhos da insegurança", realizada pelo Datafolha, revelam que os maiores receios das mulheres brasileiras estão relacionados à violência urbana. Entre eles aparecem o medo de morrer durante um assalto, ter o celular roubado, sofrer violência sexual, ser assaltada na rua, ter a residência invadida e até ser atingida por uma bala perdida. Os índices elevados mostram que a insegurança deixou de ser percebida como uma situação excepcional. Para muitas mulheres, ela passou a fazer parte da vida cotidiana.
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Na prática, isso significa que milhares de brasileiras reorganizam suas rotinas em função do medo. Elas evitam determinados horários, mudam trajetos, deixam de frequentar espaços públicos, compartilham localização em aplicativos, fingem ligações telefônicas durante deslocamentos e adotam estratégias constantes de vigilância. O que para muitos é apenas um percurso comum, para inúmeras mulheres representa um cálculo permanente de riscos.
Essa realidade produz consequências que vão muito além da sensação de insegurança. Ela interfere diretamente nas oportunidades de estudo, trabalho, lazer e participação social. Quandouma mulher deixa de cursar uma faculdade noturna porque teme o caminho até sua casa, existe uma perda educacional. Quando recusa uma vaga de emprego por não se sentir segura durante o deslocamento, há impacto econômico. Quando evita praças, parques e espaços públicos, ocorre uma limitação do próprio exercício da cidadania.
O medo não apenas restringe movimentos. Ele reduz possibilidades de vida.

A desigualdade também possui um forte componente racial e social. Mulheres negras, periféricas, indígenas, ribeirinhas e moradoras de regiões historicamente negligenciadas pelo poder público convivem com vulnerabilidades ainda maiores. Segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e do Atlas da Violência, mulheres negras seguem entre as principais vítimas da violência letal no país. Nas periferias urbanas, onde frequentemente faltam iluminação adequada, infraestrutura, mobilidade eficiente e presença contínua de serviços públicos, a sensação de insegurança tende a ser ainda mais intensa.
Por isso, especialistas afirmam que a discussão sobre segurança feminina não pode ser reduzida ao aumento do policiamento. A violência está ligada a fatores estruturais como desigualdade social, exclusão urbana, ausência de oportunidades e fragilidade das redes de proteção. A urbanista Jane Jacobs, uma das principais referências mundiais em planejamento urbano, defendia que cidades seguras são construídas a partir da convivência comunitária, da ocupação dos espaços públicos e da presença constante de pessoas circulando pelas ruas. Em outras palavras, segurança também é resultado de inclusão, planejamento e participação social.
Quando mulheres deixam de ocupar os espaços urbanos por medo, toda a sociedade perde

A cidade deixa de ser um ambiente de convivência democrática para se tornar um território marcado por restrições invisíveis. Limita-se o direito de ir e vir, reduz-se a autonomia e enfraquece-se a participação feminina na vida pública. Mais do que uma questão de segurança, trata-se de uma questão de direitos humanos Nenhuma mulher deveria crescer acreditando que a liberdade depende da sorte. Nenhuma jovem deveria precisar escolher entre uma oportunidade e sua própria segurança. Nenhuma mãe deveria viver o permanente receio de que uma filha não volte para casa. O direito à cidade passa, necessariamente, pelo direito de existir sem medo.
Posicionamento do Portal Mulher Amazônica

Fotos: Reprodução/Google
O Portal Mulher Amazônica entende que discutir segurança feminina é discutir cidadania, igualdade e justiça social. A liberdade das mulheres não pode ser condicionada à existência de rotas seguras, horários considerados menos perigosos ou estratégias permanentes de autoproteção. O acesso pleno à cidade deve ser um direito garantido e não um privilégio. Defender cidades mais seguras para mulheres significa defender iluminação pública de qualidade, transporte digno, educação, combate à misoginia, fortalecimento das políticas públicas de proteção e responsabilização dos agressores.
Significa também ouvir as vozes das mulheres que historicamente permanecem invisibilizadas: indígenas, negras, ribeirinhas, periféricas, trabalhadoras e mães solo, que enfrentam diariamente múltiplas formas de violência e exclusão. Uma sociedade verdadeiramente democrática só existirá quando as mulheres puderem caminhar pelas ruas sem transformar cada trajeto em uma estratégia de sobrevivência.
Fontes:
Datafolha – Pesquisa "Os gatilhos da insegurança"
Fórum Brasileiro de Segurança Pública
Atlas da Violência – IPEA
ONU Mulheres Brasil
Instituto Patrícia Galvão
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