A conversa avançou para um tema crucial: a necessidade de políticas públicas estruturadas no Amazonas para enfrentar desigualdades raciais.
A presença das mulheres negras na cena amazônica é um movimento de resistência, criação e transformação. No Ela Podcast, essa força ganhou voz por meio de Michelle Andrews, produtora cultural, fundadora do Coletivo de Fusão e coordenadora da Casa Coletiva. Uma mulher que articula, mobiliza e fortalece redes, sendo peça essencial na construção cultural de Manaus.
Desde o início da entrevista, a pauta central foi a importância da identidade, da luta e da ocupação de espaços. Michelle ressaltou que lugares de fala, trocas e acolhimento são fundamentais para que mulheres negras, juventudes e coletivos possam criar conexões e impulsionar projetos que ampliem horizontes. Para ela, comunicar, dialogar e formar redes é um gesto político — e uma necessidade urgente.
A partir dessa visão, nasceu a Casa Coletiva, iniciativa que descentraliza o acesso à cultura e democratiza oportunidades para artistas e produtores da cidade. Localizada no bairro Novo Aleixo, a Casa Coletiva funciona como espaço de estudo, criação e experimentação: oferece estações de trabalho, ambiente para pequenos eventos, oficinas de audiovisual, cursos de elaboração de projetos e portfólio, além de um calendário dinâmico de ações culturais.
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Desde 2021, o espaço tem sido uma referência para quem busca formação, produção e articulação cultural, especialmente para mulheres e juventudes negras. Hoje, em 2025, segue consolidado como um polo da cultura periférica e colaborativa em Manaus.
Consciência Negra: entre memória, luta e reparação

Ao abordar o 20 de novembro, Michelle destacou que o Dia da Consciência Negra não é apenas um feriado, mas um ato político. Para ela, este é um período de intensificar debates, evidenciar avanços e reconhecer o caminho que ainda precisa ser trilhado.
A data remete à memória de Zumbi dos Palmares e à resistência do povo negro contra a escravidão. Mas, segundo Michelle, o essencial é pensar nos impactos atuais dessa história. “O Brasil foi construído nas costas de pessoas negras e indígenas escravizadas, que nunca foram indenizadas. Isso se reflete hoje na desigualdade, nas oportunidades, na renda, na educação e na segurança”, destacou. Por isso, a luta não se encerra em novembro: ela atravessa todo o ano, guiando movimentos, coletivos e redes que trabalham pela reparação histórica e pela garantia de direitos.
Políticas públicas e a ausência de estruturas essenciais no Amazonas
A conversa avançou para um tema crucial: a necessidade de políticas públicas estruturadas no Amazonas para enfrentar desigualdades raciais. O que existe de forma mais próxima é o Conselho Estadual de Cultura da Promoção da Igualdade Racial — órgão importante, mas insuficiente para lidar com diagnósticos complexos e programas urgentes. Apesar de reunir nomes relevantes, ainda falta estrutura, orçamento e força política.
Em Manaus, a promoção da igualdade racial funciona como subsecretaria, vinculada a outra pasta municipal, o que reduz alcance e limita ações concretas. Sem um conselho consolidado, cronograma, metas e programas contínuos, a população negra permanece desassistida de políticas específicas. Ainda assim, Michelle destacou avanços conquistados pela mobilização social. O Conselho Estadual conseguiu levar mais de 30 representantes à Conferência Nacional da Promoção da Igualdade Racial — um esforço fundamental, porém insuficiente diante da dimensão das demandas amazonenses.
Marcha Nacional das Mulheres Negras: reparação e bem viver no centro do debate
O ponto alto da entrevista foi a Marcha Nacional das Mulheres Negras, que acontecerá em Brasília no dia 25 de novembro. Para Michelle, esta marcha representa um dos momentos mais importantes da agenda política do ano. Com o tema “Reparação e Bem Viver”, a marcha reunirá mulheres de todo o país para reafirmar pautas urgentes: revisão das desigualdades, fortalecimento das políticas públicas, defesa da vida das mulheres negras e construção de um futuro mais justo.
A programação inclui diálogos sobre comunicação, encontros no Congresso Nacional com deputadas negras, debates temáticos e o lançamento de uma cartilha histórica. A previsão é reunir de 50 mil a meio milhão de mulheres em Brasília, repetindo o impacto histórico da primeira marcha, realizada em 2015. A cada 10 anos, o evento revisita conquistas e aponta o que ainda precisa avançar. Questionada sobre os progressos desde a última edição, Michelle afirmou que houve avanços na articulação de redes, na formação e na visibilidade das pautas, mas que o Brasil ainda tem um longo caminho a percorrer.
A delegação do Amazonas terá papel estratégico. Representar a Amazônia negra — marcada por ancestralidade, diversidade e desafios próprios — significa levar ao centro político do país vozes que historicamente foram marginalizadas. “O Amazonas tinha que estar lá. Precisamos estar onde as decisões acontecem”, reforçou Michelle. O Portal Mulher Amazônica e o Ela Podcast agradecem profundamente a participação de Michelle Andrews, por sua trajetória inspiradora, sua atuação no fortalecimento das culturas negras na Amazônia e sua dedicação à luta por igualdade, identidade e reparação histórica.
Que a Marcha Nacional das Mulheres Negras, no dia 25 de novembro, seja um marco decisivo para ampliar políticas públicas, garantir direitos e consolidar avanços no Brasil, na Amazônia e no mundo. Que ecoe como um chamado pela justiça, pelo bem viver e pela valorização das mulheres negras que constroem e transformam este país todos os dias.
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