A violência contra as mulheres ultrapassa o ambiente doméstico e invade, de forma cada vez mais evidente, o mundo do trabalho.
O crescimento expressivo das licenças concedidas por episódios de agressão física, sexual ou psicológica escancara não apenas o impacto direto na vida das vítimas, mas também as falhas estruturais de empresas e instituições em prevenir, acolher e enfrentar o problema. Dados recentes do Ministério da Previdência Social mostram um salto alarmante: em 2025, 91 mulheres precisaram se afastar do trabalho com auxílio do INSS em decorrência de violência.
Em 2021, primeiro ano com dados desagregados por gênero, foram 22 casos. O aumento de 313% em quatro anos não indica apenas crescimento da violência, mas também evidencia uma realidade historicamente invisibilizada que começa, ainda que lentamente, a emergir.
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Entre o trabalho e a violência: quando o problema chega à empresa
Os relatos mostram um padrão recorrente. A violência, muitas vezes iniciada no ambiente doméstico, se intensifica ao longo do tempo até afetar diretamente a vida profissional. A vítima passa a faltar, perde rendimento, enfrenta instabilidade emocional e, em casos mais graves, precisa se afastar completamente.
Ainda assim, o ambiente corporativo frequentemente não está preparado para lidar com essa realidade. Em muitos casos, o suporte se limita a soluções informais, como concessão de folgas ou flexibilizações pontuais, sem políticas estruturadas de acolhimento ou proteção.
Essa ausência de resposta institucional transforma um problema social em um fator de exclusão profissional, ampliando o ciclo de vulnerabilidade.
Assédio, discriminação e violência cotidiana

No ambiente de trabalho, a violência contra mulheres assume múltiplas formas. Assédio moral, assédio sexual, desigualdade salarial e deslegitimação da competência profissional fazem parte de um cotidiano muitas vezes naturalizado. Essas práticas nem sempre são explícitas. Interrupções constantes, exclusão de decisões, questionamentos recorrentes sobre capacidade técnica e isolamento profissional são manifestações sutis, mas profundamente danosas. Os impactos vão além do ambiente corporativo. Afetam a saúde mental, comprometem trajetórias profissionais e limitam a autonomia econômica, elemento central para que muitas mulheres consigam romper ciclos de violência.
Desigualdade de poder sustenta o problema
A raiz da violência no trabalho está diretamente ligada à desigualdade estrutural entre homens e mulheres. A baixa presença feminina em cargos de liderança e a persistência de culturas organizacionais permissivas reforçam esse cenário. Ambientes hierárquicos rígidos, combinados com práticas de machismo institucional, dificultam denúncias e favorecem a impunidade. A desigualdade salarial e a sub-representação em espaços de decisão ampliam a dependência econômica e reduzem a capacidade de reação das vítimas.
Cultura do silêncio e subnotificação

Apesar do aumento nos afastamentos formais, especialistas apontam que os números ainda estão longe de refletir a realidade. A subnotificação segue como um dos maiores obstáculos. O medo de retaliação, a insegurança financeira e a ausência de canais confiáveis fazem com que muitas mulheres permaneçam em silêncio. Em contextos informais ou precarizados, a situação é ainda mais grave, com praticamente inexistência de mecanismos de proteção. A violência, nesses casos, não apenas permanece invisível, como se perpetua.
Impacto direto nas empresas
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O crescimento das licenças por agressão também revela um impacto econômico concreto. Afastamentos, queda de produtividade, rotatividade e adoecimento coletivo afetam diretamente o desempenho das organizações. A violência deixa de ser apenas uma questão individual e passa a ser um problema estrutural que compromete a sustentabilidade das empresas. Ignorar esse cenário não reduz o problema — apenas o desloca para dentro das próprias instituições.
Amazônia: vulnerabilidade ampliada
Na Amazônia, o cenário ganha contornos ainda mais complexos. A combinação entre informalidade, desigualdade territorial e acesso a políticas públicas amplia os riscos. Mulheres ribeirinhas, indígenas e trabalhadoras urbanas em contextos precários enfrentam barreiras adicionais para denunciar e acessar proteção. A ausência de estruturas institucionais adaptadas à realidade local reforça a invisibilidade e a impunidade.
Desafio exige resposta estrutural
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O enfrentamento da violência contra mulheres no trabalho exige mais do que medidas pontuais. Especialistas defendem:
• criação de canais seguros e independentes de denúncia
• proteção efetiva às vítimas dentro das empresas
• responsabilização clara de agressores
• formação contínua de lideranças
• implementação de políticas de prevenção
A Convenção nº 190 da Organização Internacional do Trabalho surge como um marco importante ao reconhecer o direito a um ambiente de trabalho livre de violência e assédio.
Posicionamento Mulher Amazônica

Fotos: Reprodução/Google
O Portal Mulher Amazônica avalia que o aumento das licenças por agressão não é apenas um dado estatístico — é um alerta estrutural. Não há desenvolvimento econômico sustentável em ambientes que adoecem, silenciam e afastam mulheres. Empresas não podem tratar a violência como um problema externo ou individual. Ela já está dentro das organizações, impactando pessoas, processos e resultados. Ambientes de trabalho seguros são uma condição básica de justiça social, inovação e crescimento econômico. Romper o silêncio é o primeiro passo. Transformar estruturas é o único caminho possível.
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Fontes:
Ministério das Mulheres
Organização Internacional do Trabalho
ONU Mulheres
Fórum Brasileiro de Segurança Pública
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
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