Apesar da eficácia reconhecida, esse exame ainda não está disponível de forma ampla pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
No último episódio do Ela Podcast, recebemos o diretor-presidente da Fundação Centro de Controle de Oncologia do Estado do Amazonas (FCECON), Dr. Gerson Mourão, que trouxe uma notícia que representa um marco na saúde pública do Estado. O especialista revelou que foi um dos nove profissionais convidados em todo o Brasil a integrar um projeto estratégico de implementação de política pública voltada à detecção precoce de mutações genéticas, como o teste BRCA, reconhecido internacionalmente como ferramenta de prevenção ao câncer de mama e ovário.
“Isso é uma vitória para nós, para o nosso Estado”, declarou Dr. Gerson. Ele explicou que o teste BRCA — conhecido do público após a atriz Angelina Jolie optar por uma cirurgia preventiva após descobrir a mutação — é um exemplo claro de medicina de precisão. Quando eu faço esse teste e a pessoa tem positividade para ele, a conduta muda. Pode ser necessário tirar as mamas ou os ovários antes mesmo do câncer aparecer. É uma conduta preventiva, mas que salva vidas,” declarou Dr. Gerson.
Apesar da eficácia reconhecida, esse exame ainda não está disponível de forma ampla pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Questionado sobre esse desafio, Dr. Gerson apontou o custo como um dos principais entraves: “Um teste desse é relativamente caro, mas quando feito em larga escala, o valor cai significativamente.”
Veja também

Juliana Barros no Ela Podcast: Jiu-Jítsu Feminino como Ferramenta de Autonomia e Transformação

Segundo ele, a ideia que pode viabilizar essa transformação é aproveitar a estrutura montada durante a pandemia da COVID-19. “A proposta que fizemos foi: por que não aproveitar as máquinas de testagem da COVID para realizar o teste BRCA? Elas estão aí, são eficientes, e com as adaptações necessárias, poderiam ser reutilizadas. É isso que vai viabilizar esse teste pelo SUS.” Se implementado, o projeto pode colocar o Amazonas na vanguarda da medicina preventiva genética no país, promovendo acesso à medicina de precisão em uma região historicamente marcada por desigualdades no acesso à saúde de ponta.
No 15º Congresso Nacional de Oncoguia, apresentou as inovações implementadas no Estado, especialmente no que diz respeito ao tratamento do câncer do colo do útero. Entre os destaques, chamou atenção dos ouvintes sobre uma cirurgia preventiva de baixo custo e alto impacto, conhecida como “conização”.
“Sem dúvida, houve muito interesse no que mostramos. Um dado recente apresentado pela doutora Mônica Bandeira no congresso é alarmante: apesar das campanhas, as mulheres continuam morrendo de câncer do colo do útero da mesma forma. Aqui no Amazonas, a cada dois dias perdemos uma mulher por essa doença. Isso é inaceitável”, afirmou Dr. Gerson.
O especialista explicou que, apesar das mulheres realizarem exames preventivos e biópsias, não havia oferta suficiente da cirurgia de conização, essencial para impedir a progressão do câncer. Quando feita no momento certo, evita que a mulher venha a desenvolver o câncer. Antes, o Estado oferecia apenas 500 procedimentos por ano. Agora, com a nova política, passaremos a oferecer 3 mil. Isso significa salvar 3 mil mulheres da fila da morte”, declarou.

Além da eficácia preventiva, o procedimento é acessível e não exige internação hospitalar prolongada. “A conização é uma cirurgia barata, especialmente quando comparada a tratamentos como radioterapia, quimioterapia, hemodiálise e internações. Operamos pela manhã e, à tarde, a mulher já está em casa. Isso representa um modelo de hospital de um dia, altamente eficiente e humano.” Durante a entrevista, o diretor-presidente da FCECON, trouxemos à tona um tema sensível e urgente: a desigualdade de acesso ao exame de mamografia entre mulheres atendidas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e aquelas com acesso à rede privada.
Atualmente, a recomendação do SUS é que mulheres façam a mamografia a partir dos 50 anos de idade, e em intervalo bienal (a cada dois anos). Já na rede privada, o exame é liberado a partir dos 40 anos, anualmente. “O câncer não escolhe por classe social. Ele é, infelizmente, muito democrático. Não faz distinção entre quem tem dinheiro ou não”, ressaltou Dr. Gerson.
Incomodado com essa disparidade, Dr. Gerson levou essa pauta à Assembleia Legislativa do Amazonas, com apoio do deputado estadual Delegado Péricles, e, em seguida, ao Senado Federal, onde foi recebido pelo senador Plínio Valério. “Minha proposta é simples: que as mulheres do SUS tenham o mesmo direito que as do setor privado. É uma questão de justiça social”, declarou.
O argumento frequentemente utilizado para justificar a restrição é o de que o SUS atende cerca de 85% da população brasileira, enquanto o setor privado responde por apenas 14%. Dr. Gerson contesta essa lógica: “A matemática não pode ser essa. Quando você evita que uma mulher chegue ao estágio avançado do câncer por meio de um exame precoce, isso não tem preço. O custo de não fazer é infinitamente maior.”
Dr. Gerson Mourão compartilhou com satisfação a implementação do projeto Saúde Digital, uma ferramenta tecnológica que está revolucionando a forma como pacientes do SUS são atendidas na área da oncologia no Amazonas. O projeto surgiu da constatação de um problema frequente: a ausência de pacientes nas consultas previamente agendadas. “Atendo cerca de 22 a 23 pacientes por dia, mas em média, 5 ou 6 não comparecem. A equipe avisa, mas ainda assim muitas não vêm. Isso prejudica o atendimento e atrasa diagnósticos”, relatou.
A proposta do Saúde Digital é simples, mas extremamente eficiente: ao invés de apenas marcar a consulta, o sistema envia uma mensagem ao celular da paciente perguntando se ela confirma a presença no dia e horário proposto. “É algo que rompe barreiras. A paciente recebe no celular: “temos uma vaga para mastologia, tal dia. A senhora aceita?” Ela responde sim ou não. Isso é um espetáculo”, comemorou Dr. Gerson.
A experiência já está ativa e gerando bons resultados. Uma paciente relatou ao próprio Dr. Gerson que recebeu o aviso da consulta e conseguiu se organizar. “Ela me disse: ‘Doutor, recebi no meu celular o aviso do senhor’, e de fato estava marcada”, relatou. “Liguei até para a Secretaria de Saúde, falei com a Nayara Maksoud — que é maravilhosa — e parabenizei a gestão estadual. Esse é um projeto que eu estou extremamente empolgado.”

Fotos: Divulgação/Portal Mulher Amazônica
O projeto, apoiado pela Secretaria de Saúde do Amazonas (SES-AM), representa um passo decisivo rumo à governança digital em saúde pública, especialmente em regiões de difícil acesso e alta vulnerabilidade social. A tecnologia, ao ser usada com empatia e foco no cuidado, torna-se aliada fundamental no diagnóstico precoce e na adesão ao tratamento.
Dissemos a ele para enviar um recado aos gestores públicos e parlamentares que ainda não priorizam o diagnóstico precoce do câncer no Amazonas e no Brasil. Ele relatou que não bastava falar da situação — foi preciso mostrar. Alguns deputados visitaram o hospital, para verem com os próprios olhos: salas paradas, mesas quebradas, goteiras, um centro cirúrgico sucateado. E foi essa transparência, esse choque com a verdade, que iniciou a mudança. Hoje são nove salas funcionando, quando antes eram apenas três. Ainda falta muito, mas o caminho começou com coragem e comprometimento. Que esse exemplo inspire cada gestor público a sair do gabinete e entrar, de verdade, na luta pela vida,” ressaltou Dr. Gerson Mourão.
A idealizadora do Portal Mulher Amazônica e do Ela Podcast Maria Santana, junto à sua equipe, agradece profundamente a participação do diretor-presidente da Fundação CECON. Sua escuta atenta, sua atuação comprometida e sua disposição em ser um porta-voz das mulheres no Amazonas fortalecem a esperança de um futuro com mais dignidade, diagnóstico precoce e acesso à saúde para todas.
Portal Mulher Amazônica
Copyright © 2021-2026. Mulher Amazônica - Todos os direitos reservados.