30 de Abril de 2026

NOTÍCIAS
Colunistas - 12/11/2025

Alienação e desumanidade

Compartilhar:
Foto: Reprodução/Google/Montagem Portal Mulher Amazonica

A perda dos valores da compaixão, do respeito ao outro, da igualdade e do bem comum está sendo promovida em toda sociedade, como indicava Rousseau.

Tenho procurado entender as razões que levam uma considerada parte da população à manifestações grosseiras de desumanidade e barbárie. A busca desse entendimento não se trata de inquietação isolada, pois tenho lido inúmeros artigos de indignação com a brutalidade de como a vida vem perdendo valor para muita gente. Podemos reconhecer essa desumanidade partindo de Marx, que atribui à separação do trabalhador do produto do seu trabalho e, por consequência, de si mesmo, o distanciamento da sua própria essência humana, pois se transforma em meio de produção, vira parte da máquina.

 

Para Marx, o indivíduo se humaniza nas relações sociais, mas para isso precisa estar livre para criar e transformar a natureza, através do trabalho, em benefício da sociedade. No capitalismo, o que o indivíduo produz vira mercadoria, que gera lucro para o dono da fábrica e o trabalhador sequer tem acesso àquilo que produziu. O que era para humanizar, desumaniza.. Conheço bem essa teoria da alienação marxiana, porém, não vejo como suficiente para explicar a desumanidade que grassa em expressivos segmentos sociais.

 

Fui até Rousseau e concordo que o ser humano não nasce ruim. Que é a sociedade que o torna desumano, divorciado dos valores naturais de autopreservação e de compaixão. O indivíduo deixa de sentir e desenvolve uma conduta de competição, buscando superioridade diante do seu semelhante. O filósofo iluminista, que criticava o desenvolvimento da civilização e defendia a estabilidade social a partir de um contrato entre os indivíduos, aponta a compaixão, a busca do bem comum, a igualdade e a liberdade como princípios de resgate da humanidade.

 

Veja também

 

Abandono Afetivo Agora é Lei: pais podem responder civilmente por falta de amor e presença emocional

O alvorecer de uma Mulher

 

 

Lúcio Carril Sociólogo

 

 

Nesse diálogo dicotômico com Marx e Rousseau, vejo dois indicativos para superação da barbárie que ainda permeia o tecido da sociedade. É preciso combater a exploração econômica do trabalhador e torná-lo mais próximo do produto do seu trabalho. A melhoria de vida, a partir do desenvolvimento de relações sociais mais equilibradas e com menores índices de desigualdades, pode reduzir a brutalidade de estratos sociais que não se reconhecem na sua humanidade.

 

Obviamente que isso é um paliativo, pois enquanto o trabalhador for tratado como máquina, sua luta contra a desumanização será improfícua. Mas a desumanização não está presente apenas no trabalhador. Ela está em homens e mulheres que estão formalmente fora do mercado de trabalho, ou seja, fora da economia.

 

 

Fotos: Reprodução/Internet

 

A desumanidade está sendo construída fora das relações de produção. Ela passou a ser produto ideológico dentro de igrejas, escolas, universidades, grupo informais e virtuais. A alienação virou instrumento de dominação política. A perda dos valores da compaixão, do respeito ao outro, da igualdade e do bem comum está sendo promovida em toda sociedade, como indicava Rousseau. 

 
Curtiu? Siga o Portal Mulher Amazônica no FacebookTwitter e no Instagram.
Entre no nosso Grupo de WhatApp e Telegram.

 

A desumanidade se transformou em objeto da hegemonia política. É nela que a extrema direita e sua doutrina neopentecostal repousam suas expectativas de domínio. Isso é uma ameaça a tudo que conquistamos como cultura, ciência, razão e convivência social. É um retorno às relações de brutalidade extrema como forma de poder. Precisamos combater essa crise de humanidade provocada pelo desejo incontido de poder político a qualquer custo.

 

Lúcio Carril
Sociólogo 

DEIXE SEU COMENTÁRIO

Nome:

Email:

Mensagem:

LEIA MAIS
Fique atualizada
Cadastre-se e receba as últimas notícias da Mulher Amazônica

Copyright © 2021-2026. Mulher Amazônica - Todos os direitos reservados.