Ataques psicológicos, ameaças, perseguições, campanhas de difamação e violência digital têm afastado mulheres da política institucional, interrompendo trajetórias e inviabilizando reeleições.
A violência política contra a mulher não termina no dia da eleição. Em muitos casos, ela começa ali — e segue como um mecanismo silencioso de expulsão feminina da vida pública. Ataques psicológicos, ameaças, perseguições, campanhas de difamação e violência digital têm afastado mulheres da política institucional, interrompendo trajetórias e inviabilizando reeleições.
Nos últimos anos, o Brasil tem assistido a um fenômeno preocupante: mulheres eleitas ou candidatas que, após sofrerem violência política, decidem não disputar novos mandatos ou abandonam definitivamente a atuação política. O recado é claro — ocupar o poder ainda tem um custo emocional, familiar e simbólico muito mais alto para mulheres.
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Violência política: um projeto de silenciamento
A violência política de gênero se manifesta de diversas formas. Segundo dados do Observatório da Violência Política de Gênero e Raça, ela inclui:
• violência psicológica e moral;
• ameaças diretas à integridade física;
• ataques misóginos e racistas nas redes sociais;
• perseguições e difamação durante campanhas;
• tentativas de deslegitimar a atuação política feminina.
Essas práticas não são episódios isolados. Elas funcionam como uma estratégia sistemática para enfraquecer lideranças femininas, desacreditá-las publicamente e limitar sua permanência nos espaços de poder. Relatos de vereadoras e deputadas estaduais mostram que a violência política ultrapassa o campo institucional e invade a vida privada: famílias passam a ser ameaçadas, filhos expostos a ataques, rotinas alteradas por medo e insegurança. O impacto emocional é profundo — ansiedade, depressão, adoecimento psicológico e sensação constante de vigilância fazem parte do cotidiano dessas mulheres.
Quando a violência vence: desistências e silêncios
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O efeito mais perverso da violência política é o afastamento das mulheres da política. Há casos de parlamentares que optaram por não disputar a reeleição após sucessivos ataques, campanhas de ódio e ausência de proteção institucional. Segundo a ONU Mulheres, a violência política de gênero é um dos principais fatores que explicam a sub-representação feminina nos parlamentos latino-americanos. Não se trata apenas de impedir a eleição, mas de tornar a permanência insustentável.
Quando uma mulher deixa a política por medo ou exaustão, toda a sociedade perde. Perdem-se pautas relacionadas a direitos humanos, políticas sociais, enfrentamento à violência de gênero, saúde, educação e igualdade racial — agendas que historicamente ganham força quando mulheres ocupam cargos eletivos.
O que diz a lei: a violência política é crime

Em resposta à crescente denúncia desses episódios, o Brasil avançou no campo legal. Em 5 de agosto de 2021, foi sancionada a Lei nº 14.129/2021, que trata do combate, da prevenção e da punição à violência política contra a mulher. A legislação reconhece oficialmente que impedir ou dificultar o exercício dos direitos políticos das mulheres é uma violação grave da democracia.
A lei estabelece, entre outros pontos
• normas para garantir a participação das mulheres em debates eleitorais;
• punição à divulgação de conteúdos falsos durante campanhas;
• reconhecimento da palavra da mulher como elemento central na apuração dos fatos.

O artigo 2º, parágrafo único, determina: “As autoridades competentes priorizarão o imediato exercício do direito violado, conferindo especial importância às declarações da vítima e aos elementos indiciários.” Já o artigo 3º define violência política contra a mulher como: “toda ação, conduta ou omissão com a finalidade de impedir, obstaculizar ou restringir os direitos políticos da mulher.”
A legislação também alterou o Código Eleitoral. O artigo 243 passou a proibir propagandas que: “depreciem a condição de mulher ou estimulem sua discriminação em razão do sexo feminino, ou em relação à sua cor, raça ou etnia.” Além disso, foi criado o crime específico de violência política contra a mulher, previsto no artigo 326-B, que criminaliza atos como: assediar, constranger, humilhar, perseguir ou ameaçar candidata ou detentora de mandato eletivo, com o objetivo de dificultar sua campanha ou o exercício do mandato.
A distância entre a lei e a realidade
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Apesar dos avanços legais, especialistas do Inesc e do Observatório da Violência Política de Gênero e Raça alertam: a aplicação da lei ainda é frágil. Muitas mulheres desconhecem seus direitos, têm dificuldade de registrar denúncias ou enfrentam resistência institucional ao buscar proteção. A impunidade, somada à naturalização do ataque às mulheres na política, reforça um ciclo de violência que desestimula novas candidaturas femininas e enfraquece a democracia.
Não é só sobre mulheres — é sobre democracia

A violência política contra a mulher não é um problema individual, nem um conflito pessoal. É uma violação direta ao direito da sociedade de ser representada de forma plural. Quando mulheres são expulsas da política, não é apenas a voz delas que se cala. São silenciadas experiências, demandas sociais e perspectivas fundamentais para a construção de políticas públicas mais justas. Dar visibilidade a essas histórias, cobrar a aplicação da lei e fortalecer redes de apoio é parte essencial da luta por um sistema político que não puna mulheres por ousarem ocupar o poder. O silêncio nunca foi neutro. E, na política, ele sempre beneficia quem já está no topo.

Posicionamento do Portal Mulher Amazônica

Fotos: Reprodução/Google / Arquivo pessoal
Para o Portal Mulher Amazônica, a violência política que expulsa mulheres da vida pública é uma das faces mais graves da desigualdade de gênero no Brasil. Não basta permitir que mulheres se candidatem — é preciso garantir que elas possam exercer seus mandatos sem medo, perseguição ou adoecimento. Silenciar mulheres na política é uma estratégia histórica de manutenção de poder. Romper esse ciclo exige responsabilização, aplicação efetiva da lei, apoio institucional e mudança cultural profunda. Defender a permanência das mulheres na política é defender uma democracia viva, plural e representativa. O Portal Mulher Amazônica seguirá dando visibilidade às vozes que tentaram calar — porque quando uma mulher é silenciada, a democracia inteira perde a voz.
Fontes: Observatório da Violência Política de Gênero e Raça
ONU Mulheres
Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc)
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