A disparidade de tratamento dentro da própria Igreja Católica reacende o debate sobre seletividade, poder, influência digital e limites institucionais
Enquanto o padre Júlio Lancellotti, uma das vozes religiosas mais conhecidas do país na defesa da população em situação de rua, foi proibido de transmitir missas ao vivo e de manter qualquer atividade em redes sociais, outros líderes católicos com milhões de seguidores seguem atuando livremente no ambiente digital, inclusive com manifestações políticas explícitas, monetização de conteúdo e anúncios pagos. A disparidade de tratamento dentro da própria Igreja Católica reacende o debate sobre seletividade, poder, influência digital e limites institucionais.
Padre Júlio, que soma cerca de 2,3 milhões de seguidores no Instagram, tornou-se referência nacional no combate à aporofobia, o ódio aos pobres, e na denúncia cotidiana da exclusão social nas grandes cidades. Sua atuação sempre esteve alinhada à doutrina social da Igreja, com foco na dignidade humana e na opção preferencial pelos pobres. Ainda assim, foi orientado pela Arquidiocese de São Paulo a se afastar completamente das redes e a interromper transmissões de missas pela internet.
O contraste é evidente quando se observa outros religiosos católicos. Frei Gilson, da Diocese de Santo Amaro, em São Paulo, reúne 8,65 milhões de inscritos no YouTube e mais de 11 milhões de seguidores no Instagram. Seu conteúdo inclui músicas, reflexões bíblicas, transmissões ao vivo e cortes de eventos religiosos, sem qualquer restrição institucional conhecida. Apesar do discurso espiritual, Frei Gilson já esteve envolvido em episódios de forte conotação política.
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Em março deste ano, foi publicamente defendido por Jair Bolsonaro, que o classificou como “um fenômeno em oração” supostamente atacado pela esquerda. A defesa ocorreu após críticas a falas do frei no Dia Internacional da Mulher, nas quais se posicionou contra o empoderamento feminino e afirmou que mulheres deveriam atuar prioritariamente como auxiliares dos homens. Em 2021, Gilson participou de uma live em Brasília contra os “flagelos do comunismo”, durante um evento religioso que convocava fiéis a acordarem de madrugada para “rezar pela pátria”.
O nome de Frei Gilson também apareceu nas investigações da Polícia Federal que culminaram na condenação e prisão de Jair Bolsonaro. Segundo a PF, ele teria recebido de outro religioso, o padre José Eduardo de Oliveira e Silva, um texto convocando católicos e evangélicos a orarem por generais de quatro estrelas e pelo então ministro da Defesa, general Paulo Sérgio Nogueira. A iniciativa ficou conhecida como “oração do golpe”. Embora citado, Gilson não foi denunciado.

Outro caso emblemático é o do padre Paulo Ricardo, vigário da paróquia Cristo Rei, em Várzea Grande, Mato Grosso. Com 2,7 milhões de seguidores no Instagram, mais de 2 milhões no YouTube e forte presença no X, ele ganhou projeção nacional após vídeos defendendo o direito de cristãos ao porte de armas. Em um deles, amplamente divulgado por Bolsonaro em 2019, afirma que “a Igreja não é pacifista, mas é pacífica” e que o cidadão tem o direito de “não ser covarde”. O vídeo havia sido gravado em 2011, no contexto do massacre de Realengo, quando 12 crianças foram assassinadas dentro de uma escola no Rio de Janeiro.
A relação entre Paulo Ricardo e Bolsonaro é antiga. Desde 2015, o então deputado federal divulga conteúdos do padre, palestras conjuntas e posicionamentos contra o que chamam de “doutrina marxista”. Além da atuação política, o religioso mantém uma estrutura robusta de monetização digital. Seu nome aparece em anúncios pagos no Google que direcionam para cursos online e uma loja virtual de livros. Os cursos abordam desde leitura da Bíblia até temas como “terapia da alma feminina”, história das navegações portuguesas e relações entre fé cristã e a obra O Senhor dos Anéis, de J. R. R. Tolkien. Há ainda venda de combos de livros, com valores que ultrapassam R$ 230, parcelados em até 12 vezes.
Apesar desse cenário, nenhum desses religiosos sofreu sanções semelhantes às impostas ao padre Júlio. O próprio cardeal Odilo Pedro Scherer, arcebispo metropolitano de São Paulo e responsável pela orientação de afastamento de Lancellotti, permanece ativo nas redes sociais. Com cerca de 53,6 mil seguidores no Instagram, publica conteúdos institucionais, notícias da arquidiocese e trechos de homilias.

Fotos: Reprodução/Google
Questionada pela Agência Pública, a Arquidiocese de São Paulo afirmou que a proibição imposta ao padre Júlio foi definida em conversa privada entre o arcebispo e o sacerdote e que se trata de uma decisão de foro interno, tomada “para o bem do padre”. A assessoria destacou que a orientação vale apenas para ele e que os demais párocos seguem liberados para atuar nas redes. Informou ainda que a arquidiocese não recebe valores de cursos ou livros vendidos por padres, apenas parte das arrecadações paroquiais, e ressaltou que nem todas as paróquias da capital estão sob sua jurisdição, como é o caso da Diocese de Santo Amaro e da paróquia do padre Marcelo Rossi.
O caso levanta uma questão central: por que a atuação digital e política de religiosos conservadores, muitos deles alinhados a projetos de poder e com forte estrutura de monetização, é tolerada, enquanto a voz mais popular da Igreja na defesa dos pobres é silenciada? Em um momento em que a própria Igreja, sob o pontificado de Francisco, insiste na centralidade da justiça social e do cuidado com os excluídos, a resposta a essa pergunta extrapola os muros eclesiásticos e toca diretamente o debate público sobre fé, política e desigualdade no Brasil.
Fontes:
Agência Pública
Arquidiocese de São Paulo
Polícia Federal – investigações sobre atos antidemocráticos
Perfis oficiais de Padre Júlio Lancellotti, Frei Gilson e Padre Paulo Ricardo (Instagram, YouTube e X)
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