30 de Abril de 2026

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Colunistas - 08/12/2025

O jovem devorado por uma leoa na Paraíba: a tragédia anunciada que poderia ter sido evitada

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Foto: Reprodução/Google

Essa morte não é um caso isolado. É um alerta.

Por: Carla Martins - A frase que circulou nas redes — “Quem entra na jaula de uma leoa está pedindo pra morrer?” — parecia um juízo rápido, daqueles que viralizam com facilidade. Até descobrirem quem era o chamado “Vaqueirinho”. E, quando o nome ganha rosto e história, as certezas fáceis se desfazem.

 

Gerson de Melo Machado não era um aventureiro. Era um jovem com deficiência intelectual, esquizofrenia não tratada, vida marcada pela miséria, negligência e ausência total de políticas públicas efetivas. A trajetória dele não começou na jaula de um zoológico na Paraíba. Começou no silêncio de anos em que ninguém conseguiu garantir o que a lei determina: cuidado, proteção e dignidade.

 

A Justiça determinou sua internação psiquiátrica. Nunca foi cumprida. Por oito anos, o Conselho Tutelar tentou alertar sobre o risco. O Estado não respondeu. A família não tinha meios. A sociedade, por sua vez, julgou — muitas vezes com crueldade. A morte de Gerson não fala sobre imprudência. Fala sobre fracasso social. Fala sobre o que acontece quando um jovem vulnerável vive sem tratamento, sem rede de apoio, sem estrutura mínima. Quando a medida judicial é ignorada, o risco vira sentença. Quando o sofrimento mental vira motivo de piada, a tragédia já começou muito antes do desfecho.

 

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Ele não sonhava em enfrentar uma leoa. Ele sonhava em ser visto.

 

 

 

A história de Gerson revela o que o Serviço Social conhece de perto: profissionais que enxergam antes dos outros, que registram vulnerabilidades que ninguém lê, que articulam políticas públicas que insistem em não acontecer, que lutam contra um sistema sobrecarregado, lento e muitas vezes ausente. Mais uma vez, esses profissionais aparecem onde o Estado falha e onde a sociedade prefere virar o rosto.

 

 

Fotos: Reprodução/Google

 

Essa morte não é um caso isolado. É um alerta. É o lembrete duro de que abandono institucional também mata. De que saúde mental negligenciada cria tragédias anunciadas. De que não existe liberdade de escolha quando a pessoa vive cercada por desamparo, fome, violências e desinformação.

 
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Gerson não morreu porque se arriscou. Morreu porque foi deixado sozinho — por muitos anos, por muitas instâncias, por muitas decisões não tomadas. A jaula que o engoliu não era apenas de ferro e grades. Era a vida que ele teve. E enquanto não encararmos que vidas como a dele continuam sendo engolidas todos os dias, seguiremos perdendo pessoas que poderiam — e deveriam — estar vivas.
 

 

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