04 de Maio de 2026

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Inspiração Amazônica - 08/06/2025

Mulheres amazônidas levam biojoias à vitrine da COP30

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Foto: Reprodução

O que nasceu da necessidade transformou-se em negócio, arte e missão: dar visibilidade à potência das biojoias amazônicas.

Foi diante de uma crise que a Família Corrêa encontrou a semente de um novo futuro. Em 2015, após o naufrágio do barco de pesca que sustentava a casa, a artesã Angela Reis e suas filhas — Jeovana, Adriane e Jéssica — começaram a vender colares feitos de caroços de açaí estendidos sobre um pano na Praça da República, no centro de Belém (PA).

 

O que nasceu da necessidade transformou-se em negócio, arte e missão: dar visibilidade à potência das biojoias amazônicas. Atualmente, à frente do coletivo Eco Arte, elas se preparam para a 30ª Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas (COP30), que será realizada em novembro deste ano, na capital paraense. Mas, antes disso, elas já carregam no currículo feitos que cruzaram fronteiras.

 

Um deles é ter uma de suas peças usada pela ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, durante agendas no Pará, Japão, China e Indonésia. “Ela colocou o nosso colar com tanto carinho, e ver isso ganhando o mundo foi um reconhecimento muito grande”, conta Jeovana Corrêa, 23 anos, formada em Relações Internacionais e responsável pela estratégia e internacionalização da marca.

 

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A trajetória da Eco Arte é marcada por autonomia e afeto. A matriarca Angela, de 51 anos, aprendeu desde jovem a fazer colares com sementes em sua cidade natal, São Caetano de Odivelas, na região Nordeste do Pará. Quando o barco do marido naufragou, ela e as filhas decidiram transformar o conhecimento tradicional em uma fonte de renda. “Elas me ajudavam desde os cinco, sete anos de idade. Faziam macramé [técnica de tecelagem manual com uso de nós] e ajudavam nas vendas. Hoje, fazem a gestão, o marketing, tudo”, diz, orgulhosa.

 

Entre as peças à venda estão colares, brincos, pulseiras e anéis produzidos com sementes de jarina, açaí, pupunha e escamas de pescada amarela — peixe pescado pelo próprio pai, José Corrêa. Toda a matéria-prima é coletada de forma sustentável, respeitando o ciclo da natureza.Sobre a marca da Eco Arte, Jeovana explica: “A nossa logo remete muito à nossa história e à nossa origem. Ela tem a bandeira do Pará como fundo, o nome ‘Eco Arte’ escrito com letras que lembram barcos, uma referência ao nosso pai, que é pescador, e também traz grafismos marajoaras, que representam esse regionalismo paraense”.

 

Sustentabilidade

 

 

 

“As biojoias são acessórios feitos com elementos naturais, vindos da própria natureza, que a gente transforma em peças que valorizam a riqueza natural da Amazônia, especialmente aqui no Pará. Não são industrializadas, são todas feitas artesanalmente. Isso é bem importante: entender o que é uma biojoia”, explica Jeovana. “Tem uma variedade infinita de materiais, mas os principais são sementes, fibras, extraídas de árvores, palmeiras, folhas.

 

Você pode usar também escamas de peixe, madeira, madrepérola, que vem das conchas”, acrescenta.Jeovana também comentou sobre uma árvore específica: a jarina. “Essa árvore dá um fruto, e dentro dele, chamado de ouriço, há sementes muito valorizadas e reconhecidas como ‘marfim vegetal’, por causa da resistência e da aparência rajada. A jarina pode ser usada de forma mais bruta, envernizada, ou então transformada em anéis e pulseiras. Dá pra fazer uma grande variedade de peças com ela”, ressalta.

 

“Quando você usa a semente, a árvore continua em pé. É economia circular, é preservação”, explica Jéssica Corrêa, 20 anos, responsável pelo marketing. “As pessoas acham que a semente vai ficar só no chão, mas, na verdade, ela pode virar um acessório, algo que complementa o look, deixa a roupa mais sustentável e ainda traz um diferencial”, afirma.A preocupação com a sustentabilidade está presente até nas embalagens, feitas com papel kraft, material fabricado a partir de fibras de celulose não branqueadas, geralmente de árvores como pinus e eucalipto, bem como tela de juta, uma fibra vegetal orgânica e biodegradável, obtida da planta Corchorus capsularis. Não há uso de material plástico.

 

 

“A gente pensa o produto desde a coleta até o momento em que ele vai ser entregue”, acrescenta Adriane Corrêa, 25 anos, estudante de Farmácia e responsável pela parte financeira do projeto. “É uma embalagem sustentável, biodegradável. A gente tem essa preocupação com o todo: da matéria-prima ao consumidor final. Pensamos em uma economia circular em todas as etapas”, destaca.Jeovana complementa: “Não é só uma peça bonita ou feita para compor um look. Tem beleza, claro, mas tem também história.

 

Quando a pessoa adquire uma biojoia, ela carrega consigo o conhecimento e a origem daquele material. Ela entende o que é uma semente, de onde ela veio. Isso é muito valioso. Essa consciência ajuda a enxergar a natureza de outro jeito. Em vez de simplesmente descartar os materiais, você pode dar um novo uso, reaproveitar, transformar”.

 

“Mais do que acessórios, as biojoias carregam um discurso. Cada peça vem acompanhada de um cartão explicativo, em português, inglês e espanhol, sobre o material utilizado e sua origem. A gente quer que a pessoa saiba o que está comprando, de onde vem. Não é só beleza, é história e resistência da Amazônia”, completa.

 

Empreendedorismo feminino

 

 

Fotos: Reprodução

 

A história da Eco Arte é também a de muitas mulheres que encontraram no empreendedorismo uma forma de autonomia. “Durante muito tempo, as mulheres foram ensinadas a depender financeiramente dos parceiros. Hoje, somos protagonistas. Construímos juntas, como família e como mulheres”, resume Jeovana.

 

Para Adriane, é importante falar sobre o microempreendedorismo feminino. “No nosso caso, que é uma mãe e suas três filhas, a gente se apoia mutuamente. Ela passa os ensinamentos dela para a gente, e vamos crescendo unidas. Isso é muito significativo, porque foi ela quem cuidou da gente a vida inteira. E, agora, por meio do nosso próprio negócio, conseguimos conquistar nossa independência financeira. É sobre fazer o negócio da família prosperar, usar o dom que ela tem, e que passou pra gente, para crescer cada vez mais”.Elas destacam, no entanto, que ainda enfrentam o desafio do reconhecimento local.

 
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“Nossos colares custam entre R$ 50 e R$ 75 aqui em Belém. Mas já vimos as mesmas peças sendo vendidas por até R$ 200 em outros Estados, como São Paulo. O que acontece muitas vezes é que o produto é levado daqui e valorizado fora, enquanto aqui não recebe o mesmo reconhecimento. A COP30 será uma oportunidade importante para mudar isso, para valorizar o que é feito aqui, pelas mãos daqui”, afirma Adriane. 

 

Fonte: com informações Cenarium

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