Em tempos de desinformação, edições retroativas e apagamentos digitais, sua iniciativa ganha novo significado: guardar o registro original é uma forma de resistência democrática.
Durante 35 anos, enquanto o mundo assistia às transformações políticas, sociais e culturais do final do século 20 e início do século 21, uma mulher decidiu não confiar apenas na memória institucional ou nos arquivos oficiais. Marion Stokes, bibliotecária, ativista e defensora radical do acesso à informação, manteve televisores ligados 24 horas por dia para gravar noticiários e programas jornalísticos, criando um dos maiores arquivos privados de televisão do planeta.
O projeto começou em 1979, em plena Guerra Fria. Marion temia que a história fosse editada, apagada ou reinterpretada conforme interesses políticos e econômicos. Sua resposta foi simples e obsessivamente disciplinada: registrar tudo. Ela gravava simultaneamente diferentes emissoras, acompanhando como os mesmos fatos eram narrados sob perspectivas distintas.
Ao longo de mais de três décadas, o acervo ultrapassou 71 mil fitas VHS e Betamax, somando cerca de 840 mil horas de gravação contínua. Sua casa, na Filadélfia, transformou-se em um verdadeiro labirinto de televisores, videocassetes, pilhas de fitas e equipamentos funcionando sem interrupção. Marion organizava, etiquetava e catalogava o material com rigor quase científico.
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Mais do que grandes eventos históricos — como o escândalo Watergate, o atentado de 11 de setembro de 2001, guerras, eleições presidenciais e crises econômicas — o arquivo preserva algo ainda mais raro: a forma como a notícia era apresentada. Linguagem, enquadramento, escolha de palavras, silêncios e vieses editoriais ficam registrados de maneira crua, permitindo análises profundas sobre a construção da narrativa midiática ao longo do tempo.
Após sua morte, em 2012, o valor histórico do acervo tornou-se evidente. Grande parte das fitas foi adquirida e incorporada ao Internet Archive, organização sem fins lucrativos dedicada à preservação digital e ao acesso público ao conhecimento. Hoje, pesquisadores, jornalistas, historiadores e estudantes utilizam esse material para estudar mídia, política, sociologia e comunicação.

Fotos: Reprodução/Google
O trabalho de Marion Stokes é frequentemente citado como um dos maiores atos individuais de preservação da memória audiovisual já realizados. Em tempos de desinformação, edições retroativas e apagamentos digitais, sua iniciativa ganha novo significado: guardar o registro original é uma forma de resistência democrática.
A história de Marion também inspira debates atuais sobre curadoria da informação, controle das narrativas e o papel da sociedade civil na preservação da memória coletiva. Seu legado demonstra que, muitas vezes, a história não é protegida por grandes instituições, mas por pessoas comuns que se recusam a aceitar o esquecimento como destino.
Fonte:
Internet Archive – Coleção Marion Stokes
https://archive.org/details/marionstokes
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