A violência política não se manifesta apenas por agressões físicas.
Apesar dos avanços legais e do crescimento gradual da presença feminina nas disputas eleitorais, a violência política de gênero segue como um dos principais fatores que afastam mulheres da política institucional no Brasil e no mundo. Estudos científicos e pesquisas institucionais mostram que o problema vai além de ataques pontuais: trata-se de um ambiente sistematicamente hostil, que adoece, silencia e, em muitos casos, leva mulheres a desistirem de disputar ou permanecer em cargos públicos.
A violência política não se manifesta apenas por agressões físicas. Ela inclui ataques psicológicos, morais, simbólicos e digitais, frequentemente marcados por misoginia, desqualificação intelectual, ameaças e exposição da vida privada. O resultado é um custo emocional elevado — muitas vezes invisível — que recai quase exclusivamente sobre as mulheres. “Eu pensei em desistir”: o impacto emocional da violência
Pesquisas qualitativas realizadas com candidatas brasileiras revelam sentimentos recorrentes de medo, exaustão, insegurança e solidão durante e após as campanhas eleitorais. Um estudo publicado na Revista Estudos Eleitorais, vinculada ao Tribunal Superior Eleitoral, reuniu depoimentos de mulheres que relataram que os ataques sofridos ultrapassaram o debate político e atingiram sua dignidade pessoal.
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Em um dos relatos analisados pelas pesquisadoras, uma candidata descreve que passou a evitar eventos públicos e exposições em redes sociais após sofrer ataques constantes:
“A sensação era de que qualquer passo seria usado contra mim. Houve momentos em que pensei seriamente se valia a pena continuar.”
Outro depoimento destaca o desgaste emocional acumulado ao longo da campanha:
“Não era só sobre perder a eleição. Era sobre sobreviver emocionalmente ao processo.”
Segundo o estudo, mesmo mulheres que chegaram a se eleger relataram que a violência sofrida afetou a decisão de tentar a reeleição ou de permanecer na vida política, evidenciando que o impacto vai além do resultado das urnas.
Violência dentro e fora dos partidos

Relatórios do Observatório da Mulher contra a Violência e do DataSenado mostram que a violência política de gênero ocorre tanto no espaço público quanto dentro das próprias estruturas partidárias. Muitas mulheres afirmam que são desestimuladas por colegas, têm suas capacidades questionadas e enfrentam boicotes internos durante a campanha.

Uma das entrevistadas em levantamento institucional relatou que, após denunciar ataques sofridos, ouviu de dirigentes partidários que “política é assim mesmo” e que ela precisava “aprender a aguentar”. Para especialistas, esse tipo de resposta naturaliza a violência e reforça a exclusão feminina, ao transferir para a mulher a responsabilidade de suportar o abuso.
Redes sociais: palco de ataques e silenciamento

A violência digital é apontada como uma das formas mais agressivas e persistentes. Estudos conduzidos por institutos de pesquisa em comunicação política e direitos digitais mostram que mulheres candidatas são alvos preferenciais de campanhas de ódio online, com ataques à aparência, à vida sexual, à maternidade e à moralidade.
Em entrevistas realizadas para esses estudos, candidatas afirmaram que reduziram drasticamente sua presença nas redes sociais ou passaram a delegar a gestão de seus perfis por medo de novos ataques. Algumas relataram que a exposição de familiares — especialmente filhos — foi o fator decisivo para não concorrer novamente. “Quando percebi que estavam atacando meus filhos, pensei: nenhuma candidatura vale isso”, relatou uma ex-candidata municipal entrevistada em pesquisa acadêmica.
Efeitos cumulativos: menos mulheres dispostas a disputar

Pesquisas internacionais sobre violência contra mulheres na política indicam que o efeito da violência é cumulativo. Quanto maior a exposição a ataques e ameaças, maior a chance de retração, abandono da carreira política ou desistência de novas candidaturas — especialmente entre mulheres em início de trajetória. Especialistas apontam que esse fenômeno reduz a chamada “ambição política feminina” e contribui para um ciclo perverso: menos mulheres permanecem na política, menos referências existem, e o ambiente segue dominado por práticas excludentes.
Posicionamento do Portal Mulher Amazônica
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Maria Santana Souza, idealizadora do Portal Mulher Amazonica
Para o Portal Mulher Amazônica, a violência política de gênero não é um problema individual, mas uma ameaça direta à democracia. Quando mulheres são silenciadas, intimidadas ou expulsas do espaço político, toda a sociedade perde representatividade, diversidade e justiça social.

Dar visibilidade a esses relatos é uma forma de romper o silêncio e afirmar que a política não pode continuar sendo um espaço de adoecimento e exclusão. O enfrentamento da violência política passa por responsabilização, fortalecimento das leis, apoio institucional às vítimas e, sobretudo, por uma mudança cultural que reconheça o direito das mulheres de existir e liderar na política sem medo. Enquanto mulheres continuarem pagando um preço emocional mais alto para participar da vida pública, a democracia seguirá incompleta.
Fontes: Revista Estudos Eleitorais – Tribunal Superior Eleitoral (TSE)
Observatório da Mulher contra a Violência – Senado Federal
Instituto DataSenado – Pesquisa sobre violência política de gênero
Relatórios do InternetLab e MonitorA sobre violência política online
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