23 de Abril de 2026

NOTÍCIAS
Política - 02/05/2022

Violência política no Brasil está matando a democracia, diz relator da ONU

Compartilhar:
Foto: Reprodução

Clément Nyaletsossi Voule

A crescente violência política —intensificada após o assassinato ainda não solucionado da vereadora Marielle Franco—, a proliferação de desinformação, o silenciamento da sociedade civil organizada, o processo de criminalização de movimentos sociais e o ataque a jornalistas e às populações tradicionais estão restringindo o espaço cívico no Brasil.

 

Para o relator especial da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre a liberdade de reunião e de associação, Clément Nyaletsossi Voule, esses são vetores de uma crise que colocou a democracia brasileira a perigo.

 

Jurista nascido no Togo, na África Ocidental, Voule tem como mandato, entre outros, o monitoramento da garantia de acesso à Justiça e participação na vida pública, uma liberdade crucial para qualquer período de eleições e que parece estar especialmente ameaçada no Brasil de hoje.

 

Veja também

 

Bolsonaro vai a ato que pede 'destituição' de ministros do STF em Brasília

Bolsonaro vai a ato que pede 'destituição' de ministros do STF em Brasília

 

TEMPO REAL / O processo de Bolsonaro para formar fanáticos e destruir a  democracia – Cleber Toledo - Portal CT

 

?"Eu condeno qualquer medida de restrição de participação social e política, como a restrição à consulta pública sobre políticas e processos decisórios, ilustrada pelo fechamento de 650 conselhos no país", aponta ele. "E também pelo excessivo uso da força durante protestos e operações policiais no Brasil. A falta de um protocolo público e unificado para as forças de segurança tem gerado violações de direitos humanos."

 

Para ele, a violência política no país tem um recorte racial e de gênero, incidindo de maneira mais contundente entre mulheres negras, em especial ligadas à comunidade LGBTQIA+. "Quando a participação política de qualquer pessoa coloca sua vida em risco é porque estão matando a democracia."

 

Violência política no Brasil destrói a democracia, diz ONU - 01/05/2022 -  Poder - Folha

 

Voule esteve no Brasil, no início de abril, em missão que durou 12 dias. O período foi apertado para as visitas a comunidades de Salvador, Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo. E para a agenda com autoridades do Judiciário e da Procuradoria, parlamentares e ministros, dentre os quais chamou a atenção a ausência da ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves.

 

Menos de duas semanas, no entanto, foram suficientes para o relator testemunhar a chegada ao Congresso de uma proposta presidencial de recrudescimento da lei antiterrorismo, que ameaça movimentos sociais, e a tentativa de censura à manifestação política de artistas durante o festival Lollapalooza.

 

A liberdade de expressão vem sendo evocada no Brasil para atacar pessoas, grupos e instituições. Quais são seus limites? Os limites são o da desinformação e o do respeito aos direitos e à dignidade dos outros. São aqueles providos pela Constituição e pelo direito internacional. A liberdade de expressão permite a você levantar preocupações e críticas a algo ou a alguém, mas não lhe dá a permissão de desinformar ou de atacar os direitos dos outros ou a sua dignidade. Discursos de ódio violam liberdades e direitos fundamentais.

 

Brasileiros usam mais celular do que computadores para acessar notícias |  Jovem Pan

 

Pelo que eu vi no Brasil, há um movimento de desinformação e de ataque orquestrado ligado ao aumento no uso das mídias sociais. Essas são ferramentas utilizadas por 85% dos brasileiros e precisam ser usadas para a sociedade viver junto, porque elas expandem a nossa liberdade e o nosso espaço cívico, o que é muito positivo.

 

Mas o uso que tem sido feito dessas ferramentas por algumas lideranças é algo perigoso. Elas são usadas para propagar desinformação contra certos grupos, indivíduos e instituições. E a desinformação é algo que destrói a democracia. Também estão sendo usadas para assediar e atacar a dignidade dos outros online, o que tem ocorrido com frequência contra jornalistas profissionais, em especial as mulheres que têm sido alvo de campanhas de difamação, particularmente por aplicativos de mensagens.

 

Qual é a responsabilidade das empresas de tecnologia neste cenário?

 

WhatsApp: veja as respostas para suas principais dúvidas - TILT - UOL TILT

 

Empresas têm responsabilidade e precisam investir em monitoramento de conteúdo, trabalhando em cooperação com sistemas de Justiça e autoridades locais para garantir que suas plataformas não sejam usadas contra a democracia e os direitos humanos. Também é obrigação de qualquer autoridade de Estado, incluindo o Judiciário, garantir que provedores de internet e de plataformas obedeçam às leis do país que estão de acordo com parâmetros internacionais. Eles precisam garantir que essas plataformas não serão usadas para enfraquecer o regime democrático, ameaçando-o.

 

Como você avalia o ataque a jornalistas hoje no país?

 

Pesquisa: há deterioração nas condições de trabalho de jornalistas

 

A mídia é uma guardiã fundamental da democracia, responsável por informar da maneira mais imparcial possível e por revelar à arena pública as transgressões cometidas por governos e autoridades. Ela também é essencial na cobertura de protestos porque registra uso excessivo da força e abusos cometidos por policiais ou por participantes de protestos. No Brasil, a imprensa também vem sendo acuada em atos e manifestações de alguns grupos, o que é lamentável. Quando a mídia é atacada e a liberdade de atuação dos jornalistas se restringe, perde a democracia, porque a livre circulação de informações fica comprometida.

 

Durante sua missão ao Brasil, o presidente Jair Bolsonaro propôs uma mudança na lei antiterrorismo, que vem sendo criticada por defensores de direitos humanos. Debati com as autoridades brasileiras.

 

Ações violentas com fins políticos" entram em Lei Antiterrorismo

 

Ao ler a proposta [do presidente], alguém pode se perguntar: o Brasil está sob a ação de algum grupo terrorista? Existe no Brasil o medo que vemos em outros países que sofreram ataques terroristas de fato? Então, qual é o propósito dessa lei antiterrorismo?

 

Do meu ponto de vista, a partir do que li e do que ouvi nas comunidades, o propósito é o de criminalizar movimentos sociais. As emendas vão criar tensões com a sociedade civil e restringir o trabalho de organizações sociais.

 

Por que isso é problemático?

 

Movimentos sociais: o que são, objetivos, exemplos - Brasil Escola

 

Movimentos sociais são importantes em preservar direitos democráticos porque apontam para os desafios que as comunidades estão enfrentando e utilizam sua capacidade de mobilização como instrumento de pressão. Se elas são silenciadas, perde-se um canal de comunicação entre sociedade e autoridades e também um meio de denúncia a organismos internacionais.

 

O que você ouviu de autoridades e de comunidades no país? Autoridades se dividem: algumas reconhecem os problemas, outras os negam e há aquelas que dizem que minha percepção está equivocada. Sempre respondo que estou disposto a corrigir minha percepção a partir de evidências.

 

Nas comunidades, muitas pessoas levantaram problemas relacionados à impunidade, em especial nos casos que envolvem forças de segurança. Há tantos e tantos casos, um deles sendo o de Marielle Franco, que deteriorou o ambiente político. Com a aproximação das eleições, como fica a segurança dos candidatos?

 

O assassinato de Marielle Franco materializou um tipo de violência política que parece estar crescendo. Como isso interfere nas eleições? A ausência de uma conclusão do caso Marielle, quatro anos depois da execução de uma representante eleita, cria um ambiente de impunidade e de medo. Sabemos que violações de direitos ocorrem, a questão é como o Estado e o Judiciário lidam com elas. O Brasil tem um sistema de Justiça forte, mas que não entrega decisões em tempo razoável, e isso prejudica o acesso à Justiça.

 

Há muitas mulheres, especialmente afrodescendentes e LGBTQIA+, que estão entrando nessa campanha com medo por suas vidas, mas também com receio de sofrer o assédio digital a que muitas já foram submetidas. Se essas pessoas tiverem medo a ponto de desistirem do pleito, é porque estão matando a democracia. Estão impedindo as pessoas de participarem do processo e de exercerem suas liberdades fundamentais.

 

Então o Brasil está matando sua democracia?

 

Diria que a democracia no Brasil está em crise. E é importante que o Estado olhe para esses casos e para esse ambiente de violência, intensificado pelo armamento da população. A lei que facilitou a compra de armas e munições colabora para esse ambiente de temor em torno das eleições.

 

STF e TSE usam as redes sociais para desmentir fake news

 

O atual presidente tem levantado suspeitas infundadas sobre o sistema eleitoral brasileiro. De que maneira isso agrava o cenário? Estive nas cortes eleitorais e eles foram categóricos: não há evidência de qualquer falha ou fragilidade. Por outro lado, se o sistema perde a confiança das pessoas, elas podem não votar ou não reconhecer as eleições.

 

Urnas eletrônicas podem ser hackeadas? - Canaltech

 

Desacreditar o sistema é abrir caminho para que as pessoas não aceitem os resultados. E o que acontece nesses casos? Pessoas podem usar violência. Enfraquecer o poder do voto, minando a própria democracia, coloca o país numa situação muito perigosa.

 

Que tipo de perigo?

 

Estados Unidos: Quatro policiais que reagiram à invasão do Capitólio se  suicidaram | Internacional | EL PAÍS Brasil

 

O caso mais próximo é o dos EUA, onde houve uma crise recente ligada ao sistema eleitoral e um levante [que levou à invasão do Capitólio em janeiro de 2021]. Não dá para comparar, mas as autoridades do Brasil precisam tomar medidas para prevenir possíveis consequências, ou ninguém estará a salvo. E a comunidade internacional pode ajudar o Brasil nisso. Se essa polarização seguir, observadores internacionais podem vir e monitorar o processo.

 

RAIO-X

 

Em visita ao Brasil, Clément Voule, relator da ONU, aponta uma série de  recomendações ao Estado brasileiro

Fotos: Reprodução

 

Curtiu? Siga o Portal Mulher Amazônica no FacebookTwitter e no Instagram.
Entre no nosso Grupo de WhatApp e Telegram
 

Clément Nyaletsossi Voule, 51, jurista nascido no Togo, na África Ocidental, foi apontado em 2018 como relator especial da ONU sobre a liberdade de reunião e de associação, cujo trabalho inclui eleições e oportunidades de participação política da sociedade. Antes, Voule foi secretário-geral da Anistia Internacional no Togo e diretor do programa africano do International Service for Human Rights, (ISHR), em Genebra (Suíça).

 

Fonte: fFolha de São Paulo

DEIXE SEU COMENTÁRIO

Nome:

Email:

Mensagem:

LEIA MAIS
Fique atualizada
Cadastre-se e receba as últimas notícias da Mulher Amazônica

Copyright © 2021-2026. Mulher Amazônica - Todos os direitos reservados.