Atualmente, ainda não existe uma lei em âmbito nacional que tipifique as ações de violência obstétrica como crime, processo que dificulta a identificação e combate das práticas abusivas.
Considera-se abuso obstétrico toda forma de violência por parte dos profissionais de saúde, seja ela psicológica, física ou até mesmo sexual praticada antes, durante ou depois do parto. No Brasil, cerca de 45% das mulheres atendidas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) já foram vítimas de algum tipo de maus-tratos no parto, e em hospitais privados, o índice é de 30%, segundo o projeto Nascer no Brasil, realizado em 2021.
Para a médica ginecologista e obstetra Jéssica Longo, da maternidade do Hospital de Clínicas, a violência obstétrica pode ter muitos formatos, alguns mais sutis, outros facilmente identificados. Pode configurar abuso médico: falta de informações claras a respeito das vias de parto e consultas pré-natais; xingamentos e comentários desrespeitosos; intervenções desnecessárias ou sem consentimento; ter a presença de acompanhante negada; acelerar o parto ou realizar uma cesárea sem necessidade, entre outros casos.
Longo afirma que outro episódio comum é a realização de procedimentos desnecessários e invasivos, sem o consentimento da mulher. “Cortes (episiotomias), toques vaginais excessivos, manobras como empurrar a barriga da gestante na hora do nascimento (manobra de Kristeller), são formas características de violência obstétrica, hoje em dia mais facilmente reconhecíveis”, diz.
Veja também

Câncer Psicológico: O que é, como se manifesta e possíveis tratamentos
(158).jpeg)
Os tipos mais comuns de violência obstétricas realizadas por médicos e enfermeiros na maternidade, segundo a Pesquisa Mulheres Brasileiras e Gênero nos Espaços Públicos da Fundação Perseu Abramo, são: exame desnecessariamente doloroso, negação para alívio de dor, atitude grosseira, falta de informações sobre o procedimento, negação ao atendimento, xingamentos e humilhações, assédio sexual, e outros tipos de agressões físicas. Os dados coletados fazem parte da Pesquisa Mulheres Brasileiras e Gênero nos Espaços Públicos, da Fundação Perseu Abramo, que ocorreu em 2010.
Consequências da violência
(224).jpeg)
Os efeitos das violências sofridas não permanecem entre as paredes das salas dos hospitais. As consequências da negligência médica são carregadas pelas vítimas por muito tempo, às vezes para o resto da vida.
“Cada vez que a gente se toca, a gente lembra do que passou.” Existem efeitos físicos e emocionais graves, como dores crônicas, problemas na região pélvica, descolamento de placenta, mutilação genital e o desenvolvimento de transtornos como depressão pós-parto, ansiedade e até transtorno pós-traumático. Além da saúde da mulher, a violência pode dificultar o parto e sujeitar o bebê a sofrer com problemas respiratórios, principalmente quando a cesárea é feita antes do tempo ideal, sem reais motivos médicos.
A realização sem consentimento da episiotomia, um corte realizado entre a vagina e o ânus para ampliar o canal de parto, é responsável por parte dos índices de depressão pós-parto. Segundo um estudo realizado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) com 287 mulheres grávidas, entre 2016 e 2018, grávidas que passaram por esse procedimento não- consentido tiveram 2,7 vezes mais chance de terem sintomas de depressão pós-parto, e aquelas que solicitaram analgesia e não receberam apresentaram 2,5 vezes mais chance de desenvolver a doença.
Fátima A. relata que frequentemente se lembra do ocorrido. “Ele fez um corte bem grande na minha barriga […] parece que sempre quando eu passo a mão tem a dor, cada vez que a gente se toca, a gente lembra do que passou.” Além das marcas físicas, Fátima relata as dificuldades emocionais que vieram da violência. Segundo relato, ela acredita ter passado por uma depressão pós-parto, os choros eram constantes quando ficava sozinha.
(172).jpeg)
Fotos: Reprodução/Google
Ela também conta que por conta do estresse vivido no hospital, tinha um medo constante de perder seu filho. “Eu tinha tanto medo de acontecer alguma coisa com ele que eu quase não dormia de noite, eu dormia só no cansaço, […] e eu não era muito de conversar, não abria para ninguém.” As violências também impactam negativamente a experiência da mãe com o ambiente hospitalar. Michele S., outra vítima da violência obstétrica, relata que sofreu com a falta de informação extrema e demorou três anos para engravidar novamente por medo.
A médica obstetra, Jéssica Longo, confirma que o relato de Michele não é único, visto que “em muitos casos, essa experiência negativa também gera medo de futuras consultas e atendimentos médicos, afetando o acompanhamento da mulher ao longo da vida”. Atualmente, ainda não existe uma lei em âmbito nacional que tipifique as ações de violência obstétrica como crime, processo que dificulta a identificação e combate das práticas abusivas.
Fonte: com informações Jornal Comunicação
Copyright © 2021-2026. Mulher Amazônica - Todos os direitos reservados.