Profissionais relatam agressões físicas e verbais dentro de unidades de saúde. Conselho Federal de Medicina diz que categoria tem sido responsabilizada por falhas no sistema.
“Meu marido disse: um dia vou buscar o seu corpo no hospital”. A frase que assombra Karina Valverde, técnica de enfermagem agredida durante o trabalho em São Paulo, escancara a dura realidade de quem atua na linha de frente da saúde no Brasil: profissionais estão sendo espancados, ameaçados e humilhados enquanto tentam salvar vidas.
Em uma década, os casos de violência contra médicos cresceram 68%, segundo dados do Conselho Federal de Medicina (CFM). Só em 2024, o país registrou 4.562 boletins de ocorrência, o maior número da história. São 12 médicos agredidos por dia — e os enfermeiros vivem situação ainda mais alarmante: 8 em cada 10 já foram vítimas de agressões físicas ou verbais, de acordo com levantamento do Coren-SP.
Karina foi atacada com socos e arranhões pela filha de uma paciente enquanto tentava organizar o fluxo de acompanhantes em um hospital na Zona Ooeste da capital paulista. Sozinha, sem apoio de segurança especializado — pois o hospital só contava com vigilantes patrimoniais —, ela hoje está afastada do trabalho, em tratamento psicológico, com síndrome do pânico e alopecia. “Meu cabelo caiu inteiro. Estou com medo de voltar. Cada plantão é um risco.”
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Cabelo de Karina caiu por estresse após agressão em hospital (Foto: Arquivo Pessoal)
A violência não escolhe especialidade, nem estado. Em Goiás, o médico Pablo Leal levou socos após a morte de uma paciente. No Espírito Santo, uma médica infantil levou um soco no rosto de uma mãe revoltada. Em São Paulo, o médico Expedito Bezerra já precisou se trancar em uma sala para fugir de um agressor. E todos relatam o mesmo: o medo é constante, a denúncia é rara, e a impunidade impera.
Mais do que agressões físicas, os relatos revelam um sistema de saúde esgotado, onde a falta de estrutura, segurança e triagem adequada recai cruelmente sobre os profissionais. “Estamos sendo responsabilizados por falhas que não são nossas. A população desconta sua raiva em quem está ali tentando ajudar”, lamenta o médico Expedito.
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A geriatra Juliana Arlati também já foi agredida com uma receita médica atirada no rosto. “Só porque o diagnóstico não era o que o acompanhante queria ouvir. Senti medo de ser ferida de verdade”, relata. E o medo, de fato, se transforma em desistência. Muitos médicos estão abandonando os plantões. Os que ficam, trabalham sob ameaça, tensão e desgaste emocional. São Paulo lidera as estatísticas de agressão a médicos em 2024, com 832 ocorrências, seguido por Paraná (767) e Minas Gerais (460). As mulheres são quase metade das vítimas. As unidades de pronto atendimento concentram os episódios mais graves.
A escalada de violência tem levado entidades como o CFM e a Associação Paulista de Medicina (APM) a pressionarem por mudanças. O projeto de lei 6.749/16, aprovado na Câmara em maio de 2025, agrava penas para quem agride profissionais da saúde. O CFM também propõe delegacias especializadas e uma resolução obrigando hospitais a notificarem a polícia em caso de agressões.
Mas para quem vive na linha de frente, a urgência é outra: sobrevivência. “Amo o que faço. Mas ir trabalhar com medo de não voltar para casa é um absurdo. A gente cuida da mãe de alguém e volta ferida”, diz Karina. No Brasil, quem salva vidas está sendo tratado como inimigo. E o silêncio diante disso tem custado caro.
Fonte: com informações do g1
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