Seu caminhar era compassado, um movimento fleumático, quase uma parada obrigatória
Seu caminhar era compassado, um movimento fleumático, quase uma parada obrigatória. Falava com uma voz baixa, como quem se desculpa a todo momento.
Não tinha aquilo que seus vizinhos chamam de altivez. No trabalho, a voz do chefe substituía o seu silêncio passivo, obsequioso, e nunca deu sequer uma opinião sobre a posição da sua mesa, um móvel cuja maior imponência eram os cupins que ali habitavam.
O tempo foi passando e logo lhe tiraram o descanso de domingo e em seguida o direito às férias remuneradas. Não custou e lhe tiraram todos seus direitos, um a um, como num jogo onde só um ganha.
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Fotos: Reprodução
Na sua casa não via a família há muito tempo. Sua companheira, mulher determinada e amiga, trabalhava no comércio varejista e já não lembrava mais do carinho e dos afagos do marido.
Seus filhos só tinham concluído o ensino médio e viviam hoje metidos dentro de fábricas horrendas. E o tempo foi passando, passando, passando. Na velhice viu que não tinha mais um emprego, nem lhe deixaram se aposentar.
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Já não existia mais família: foi consumida no varejo e no atacado da produção desumana. Seu caminhar é o mesmo, mas vê o tempo parado e sua vida se esvaindo como água entre os dedos.
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