Depois de alvejar as crianças dentro de casa, ele tirou a própria vida
Por Carla Martins- A cidade de Itumbiara, em Goiás, que na última quarta-feira, 11, vivenciou uma das tragédias mais cruéis dos últimos anos, ficou em luto após a morte dos irmãos Miguel Araújo Machado, 12 anos, e Benício Araújo Machado, 8 anos, assassinados pelo próprio pai, Thales Naves Alves Machado, 40 anos, servidor público e secretário municipal.
Depois de alvejar as crianças dentro de casa, ele tirou a própria vida. Nas redes sociais e em grupos de mensagens, a narrativa do episódio foi rapidamente distorcida: em vez de focar no crime hediondo e na dor da mãe, parte do público passou a culpar a ex-esposa — apontada por ele, em uma carta pública, como motivo de “traição” e de sua atitude extrema.
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Não foi “vingança”. Foi violência vicária.

Especialistas em violência de gênero e direitos humanos alertam que o episódio é um exemplo claro de violência vicária — quando um agressor usa crianças ou pessoas próximas para ferir emocionalmente a parceira ou ex-parceira. A secretária nacional de Enfrentamento à Violência contra Mulheres explica que, nesses casos, o agressor instrumentaliza os filhos para infligir sofrimento máximo à mãe, explorando o forte vínculo afetivo que ela tem com eles. “É uma forma cruel e extrema de punição psicológica. Nas investigações de casos semelhantes, sempre fica claro que a responsabilidade é exclusivamente do agressor.”
Julgamento público contra a mãe
Logo após a notícia do crime, a mãe das crianças, Sarah Tinoco Araújo, passou a ser alvo de ataques e insinuações nas redes sociais, muitos deles assumindo que ela seria “culpada” pelo que aconteceu. Durante o velório, precisou ser retirada sob escolta policial após ameaças de agressões.
Editorialistas e pesquisadores chamam esse fenômeno de “tribunal da internet” — um espaço onde mulheres são julgadas, condenadas e expostas sem direito à defesa, sem investigação e sem responsabilidade coletiva. Especialistas em violência de gênero e juristas reforçam:
suposta traição, mesmo se comprovada, nunca justifica violência ou homicídio. “Traição é um doloroso conflito emocional, mas tem respostas legais e sociais muito claras: o fim da relação, o diálogo, ou o divórcio — não a morte de inocentes.”
Machismo estrutural e a cultura da culpa
O caso evidencia como o machismo estrutural ainda molda percepções sociais: em muitas culturas, inclusive no Brasil, persiste a ideia de que a honra masculina estaria vinculada ao comportamento da mulher. Culpar a mulher pelo crime significa deslocar a responsabilidade do agressor para a vítima, reforçando padrões patriarcais de controle, punição e dominação. Comentários que defendem o assassino, relativizam o crime ou culpabilizam a mãe mostram como esses mecanismos seguem vivos — transformando mulheres em culpadas até mesmo quando são as maiores vítimas da violência.
Solidariedade, memória e responsabilidade social

Organizações de direitos das mulheres, como o Instituto Maria da Penha, destacam que casos como o de Itumbiara precisam gerar políticas públicas concretas de prevenção à violência vicária, proteção de mulheres e acolhimento de sobreviventes. A Defensoria Pública de Goiás reforça que a responsabilidade pela tragédia é exclusiva de quem cometeu o crime, e que a exposição pública e perseguição de uma mulher em luto pode configurar violência institucional e discurso de ódio. Enquanto a cidade tenta se recompor, uma verdade precisa ser reafirmada sem relativizações: nenhuma traição — real ou suposta — justifica a morte de crianças. E a luta contra a violência estrutural precisa ser prática, contínua e coletiva — não apenas discurso.
Posicionamento editorial
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Fotos: Reprodução/Google
Carla Martins, jornalista e teóloga:
“Nada — absolutamente nada — justifica o assassinato de crianças. Nenhuma dor, nenhuma frustração, nenhuma traição real ou imaginada transforma um homem em vítima quando ele escolhe a violência como resposta. O que aconteceu em Itumbiara não é tragédia passional, não é desespero, não é ‘surto’: é crueldade consciente, é violência extrema, é a expressão mais brutal de uma cultura que ainda acha que homens podem punir mulheres através da destruição dos filhos.
Matar crianças para ferir uma mulher não é amor, não é honra, não é justiça — é violência vicária, é misoginia, é covardia. E tentar justificar esse crime culpando a mãe é repetir a lógica do machismo estrutural que transforma mulheres em culpadas até quando são as maiores vítimas. A sociedade precisa parar de romantizar assassinos e começar a nomear as coisas pelo que elas são: um homem escolheu matar. Duas crianças foram assassinadas. Uma mulher foi violentada emocionalmente de forma irreparável. E isso é responsabilidade exclusiva de quem puxou o gatilho — de mais ninguém.”
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