Como mulheres de imprensa e porta-vozes do portal Mulher Amazônica, temos o dever intelectual e moral de dissecar essa realidade e, acima de tudo, propor a cura.
Por Maria Santana Souza - O Amazonas vive um fenômeno estatístico curioso e, ao mesmo tempo, perverso. De um lado, os números do Tribunal Regional Eleitoral (TRE-AM) confirmam o que já sabemos: somos a força motriz da democracia. No estado, as mulheres representam 51,5% do eleitorado. Do outro lado, o espelho do poder nos devolve uma imagem distorcida: na Câmara Municipal de Manaus, por exemplo, a representatividade feminina caiu para o menor nível em 12 anos nas últimas eleições, ocupando apenas 7,3% das cadeiras.
Essa abissal distância entre o "votar" e o "ser eleita" não é um acaso; é o resultado de um sistema desenhado para que a mulher seja o combustível das campanhas, mas raramente o piloto. Como mulheres de imprensa e porta-vozes do portal Mulher Amazônica, temos o dever intelectual e moral de dissecar essa realidade e, acima de tudo, propor a cura.
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Para a mulher que luta diariamente pela vaga na creche ou pelo atendimento digno no posto de saúde, a política parece algo distante, um "jogo de homens". No entanto, é precisamente aqui que mora o perigo do voto desatento. Quando a mulher menos esclarecida vota sem representatividade, ela está, involuntariamente, terceirizando a decisão sobre o seu próprio corpo, sua segurança e a economia da sua casa para quem nunca sentiu o peso de uma dupla jornada.

Para a mulher intelectual, o desafio é outro: é o combate à violência política de gênero e ao "teto de vidro" institucional. Mesmo com o crescimento de 120% no número de prefeitas eleitas no interior do Amazonas em 2024 — saltando de 5 para 11 gestoras — ainda estamos longe da paridade. Homens ainda administram 82% dos municípios amazonenses. A intelectualidade feminina precisa entender que sua voz acadêmica ou profissional só terá eco real quando houver canetas femininas assinando decretos.
O Papel da Imprensa e o Fim do Mito

Existe um mito corrosivo de que "mulher não vota em mulher". Nós, comunicadoras, precisamos destruir essa narrativa com fatos. O problema não é a falta de solidariedade feminina, mas a falta de viabilidade real oferecida pelos partidos. As candidaturas femininas muitas vezes são usadas apenas para cumprir cotas, sem recursos ou tempo de TV.

Nossa missão na imprensa é educar a eleitora a identificar quem são as mulheres que realmente carregam propostas de mudança. Precisamos ensinar que votar em mulher é um ato de legítima defesa coletiva.
O que devemos esperar do eleitor amazonense?
Esperamos — e exigiremos — um voto de identidade. Não o voto por gênero de forma vazia, mas o voto por pertencimento. O eleitor amazonense precisa despertar para o fato de que uma gestão que ignora a visão da maioria da sua população (nós, as mulheres) está fadada ao erro administrativo.

O despertar da consciência política no Amazonas passa pelo reconhecimento de que a urna é o nosso espelho. Se somos a maioria nas ruas, nas feiras, nas universidades e nos hospitais, por que aceitamos ser figurantes nos palácios?

A mudança não virá de uma concessão dos atuais detentores do poder; ela virá da nossa união. É hora de transformar o nosso título de eleitora em um crachá de autoridade. No portal Mulher Amazônica, continuaremos sendo o farol para que nenhuma mulher sinta que sua voz é menor do que o sistema.

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Fotos: Reprodução/Google
Este artigo reflete a linha editorial do portal Mulher Amazônica e o compromisso pessoal de sua fundadora com a emancipação política das mulheres do nosso estado.
Maria Santana Souza
Jornalista e Defensora dos Direitos das Mulheres
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