Na economia, nos esportes e na cultura, sanções isolam o país em guerra na Ucrânia
Quando tomou a decisão de invadir a Ucrânia, de sua enorme sala de mármore no Kremlin e ostentando a grandeza da Rússia dos czares, Vladimir Putin tinha tudo planejado.
Despejaria a força de seu arsenal militar, marchando com quase 200 mil soldados até a capital do país vizinho, derrubando o governo ucraniano. Por trás da confiança estava a certeza de que Europa e EUA, ocupados com questões internas, não seriam capazes de reagir.
Uma semana depois da ordem de invasão, Putin e a Rússia se veem isolados do restante do mundo, enfrentando diariamente novas sanções em todas as áreas, das mais tradicionais e de efeitos imediatos, como as econômicas, até as esportivas, passando pelas áreas de cultura e de tecnologia.
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Uma cena emblemática, no entanto, ficará marcada pela diplomacia mundial, a de dezenas de diplomatas deixando a sala onde acontecia a Conferência sobre o Desarmamento da ONU, em Genebra, na Suíça. O boicote ocorreu durante fala transmitida por vídeo do ministro de Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov. Um a um, os diplomatas viram as costas ao discurso do russo.
Representantes de mais de 40 países se manifestaram dessa forma em protesto contra a invasão russa à Ucrânia.
Em suas primeiras declarações, Putin bateu no peito e mandou mensagens aos russos garantindo que o país estava preparado para qualquer retaliação. No entanto, em sete dias, a resposta contra a Rússia, vinda de todos os cantos do planeta, parece minar os planos do Kremlin.
Sanções tão abrangentes, inevitavelmente, afetam a população. Ou seja: o povo russo será penalizado. Estrategicamente, a ofensiva diplomática tem como objetivo colocar o governo contra a parede diante do sofrimento dos russos – ampliando também a pressão interna contra o regime de Putin.
No tabuleiro econômico, não há brincadeira

Tampouco espaço para jogadas em falso. Gigantes globais de diversos setores estão anunciando, em um ritmo crescente, a suspensão de seus negócios na Rússia. A lista ganhou corpo com o anúncio da Apple, que parou de vender produtos no país, manifestando preocupação com o maior conflito na Europa desde a 2.ª Guerra. Segundo especialistas, esse movimento está em curso e vai crescer com a pressão de investidores.
A relação ainda envolve grandes petrolíferas, como a Shell, que no início da semana comunicou que estava saindo de todas as suas operações russas, incluindo em uma grande usina de gás natural liquefeito.
Outras duas gigantes do petróleo seguiram o mesmo caminho: a americana ExxonMobil e a britânica BP – a saída da companhia deve ter impacto de US$ 25 bilhões no desempenho financeiro da petrolífera britânica deste trimestre, que será divulgado em maio.
Aperto financeiro
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O professor de relações internacionais da FGV, Eduardo Mello, destaca a velocidade das sanções. “Todas as empresas vão começar a se preocupar com sanções. Não é mais uma questão de ser lucrativo ou não estar na Rússia. Para a maioria das empresas, vai se tornar legalmente impossível”, disse.
Para Denise Saboya, sócia-diretora de ESG (ambiental, social e governança, na sigla em inglês) da consultoria Mazars, a tensão econômica contra a Rússia, por meio do boicote das empresas, vem de uma grande pressão de investidores para a interrupção de negócios com os russos.
De acordo com ela, quem investe quer que seus recursos estejam empregados em organizações alinhadas com seus princípios, que não são os mesmos de um país em guerra. “Todas as organizações que deixam de ter negócios com a Rússia deixam de vender, exportar e consumir. Elas não terão como substituir esse grande player da noite para o dia”, avalia.
Como reflexo da pressão de investidores, a onda de saída de investimentos da Rússia também já chegou ao mercado financeiro, com grandes fundos anunciando mudanças de seus portfólios de ativos. O fundo soberano norueguês, por exemplo, que possui US$ 1,3 trilhão sob sua gestão, já anunciou que venderá seus ativos russos, de ações de 47 empresas, com valor estimado de US$ 2,83 bilhões. Ao todo, 22 gestoras de ativos – incluindo JPMorgan, BlackRock e BNP Paribas – suspenderam acesso a cerca de US$ 4,5 bilhões em fundos ligados à Rússia.
No esporte
Fotos: Reprodução
A guerra também tirou da Rússia a possibilidade de disputar uma Copa do Mundo de futebol, a do Catar, marcada para novembro. A seleção estava na repescagem para se classificar depois de sediar a edição passada. A Rússia está fora. Mesmo a contragosto, o presidente da Fifa, Gianni Infantino, se viu pressionado a excluir o país da festa do futebol. Estava nas eliminatórias.
A Fórmula 1 também não vai correr em Sochi, assim como o piloto da escuderia Haas Nikita Mazepin não poderá pilotar no GP da Inglaterra, conforme anunciado ontem. Trata-se de uma punição individual. A Uefa também tirou de São Petersburgo a sede da final da Liga dos Campeões de futebol. Além do jogo, a cidade perderá cerca de US$ 66 milhões sem a chegada dos torcedores. A partida, marcada para 28 de maio, foi transferida para Paris.
Quem tomou uma decisão acelerada pela guerra foi o bilionário russo Roman Abramovich, dono do Chelsea, que disputa a primeira divisão do campeonato inglês. Ele admitiu ter colocado o clube à venda. O magnata suíço Hansjorg Wyss disse ter sido procurado para comprar o clube. Segundo ele, Abramovich estaria tentando desesperadamente se desfazer de todos os seus ativos no Reino Unido, incluindo sua casa em Kensington Palace Gardens. O valor do clube londrino é estimado em US$ 2 bilhões, bem mais dos que os US$ 190 milhões que Abramovich pagou por ele, 19 anos atrás. O bilionário russo disse ontem que não cobrará os empréstimos feitos ao Chelsea e doará os lucros da venda às vítimas da guerra na Ucrânia.
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