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Celebridades - 03/02/2022

Saiba como nasceu música de Chico Buarque gravada por Nara Leão e "acusada" de machismo

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Foto: Reprodução

Discussão sobre canção de Chico Buarque fica pobre se ignora espaço e função do eu lírico em letras de música

"A música popular tem uma vida curta", diz Chico Buarque, no ano de 1972, à revista Realidade. O cantor comenta na entrevista que tem controle limitado sobre o destino do que compõe.

 

"Com Açúcar, Com Afeto, por exemplo, virou anúncio de bombom, açúcar e afeto. O que importa é o momento da criação. Componho aquilo que quero. Depois a canção será consumida ou não, mas não como simples objeto e, de preferência, jamais como mero adorno."

 

Cinquenta anos depois dessa declaração, Com Açúcar, Com Afeto não teve vida curta nem se tornou mero adorno. É parte significativa de uma obra que se tornou clássica — ao mesmo tempo que é questionada nos últimos anos, como outras faixas do repertório de Chico, pela representação da mulher na letra.

 

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Em sua participação no documentário do Globoplay O Canto Livre de Nara Leão, Chico Buarque afirmou que não vai interpretar mais a faixa — embora já não figure há décadas em suas apresentações ao vivo — por concordar com as críticas feitas por feministas.

 

"Vou sempre dar razão às feministas, mas elas precisam compreender que naquela época não existia, não passava pela cabeça da gente que isso era uma opressão, que a mulher não precisa ser tratada assim", diz ele.

 

Com Açúcar, Com Afeto foi composta em 1966 a pedido de Nara Leão, uma das mais expressivas figuras da bossa nova, mas que tentava se descolar do movimento buscando novas referências artísticas.

 

Após a vitória na segunda edição do Festival de Música Popular Brasileira com A Banda, escrita por um Chico Buarque de 22 anos, ainda estudante de arquitetura, a cantora capixaba encomendou ao novo parceiro musical uma composição para seu disco seguinte.

 

Nara queria uma canção dentro da tradição que hoje é definida como sofrência, em que alguém (na maioria das vezes uma mulher) padece por suas decepções amorosas e narra mágoas e desilusões na letra.

 

 

Para dar uma ideia do caminho imaginado para a música, a cantora indicou a Chico sambas antigos de Assis Valente, como Camisa Listrada, além de Ai! Que Saudade da Amélia, de Mário Lago, e temas de Ary Barroso que retratavam mulheres submissas infelizes. Todos, à época, já considerados pertencentes a uma "velha guarda".

 

"A Nara deu uma receita muito direcionada para a ideia de Com Açúcar Com Afeto, quase uma receita de bolo. A Nara especificou que tipo de mulher ela queria que fosse a personagem da música", diz Dimas Lamounier, que escreveu o livro Chico Com Todas as Letras.

 

"E essa foi a primeira música do Chico com eu lírico feminino, algo que seria uma marca dele."

 

Visões sobre a canção

 

Com Açúcar, Com Afeto tem uma dona de casa como narradora que oferece o conforto do lar ("fiz seu doce predileto" e "logo vou esquentar o seu prato") para tentar dissuadir o marido da vida de farras ("no caminho da oficina / há um bar em cada esquina") e de atenção para outras mulheres ("olhando as saias / de quem vive pelas praias").

 

Na entrevista para o documentário sobre Nara Leão, o cantor não especifica quais feministas fizeram as críticas sobre Com Açúcar, Com Afeto e quais fatores levam a concordar com elas (sua assessoria informou que ele não vai comentar esse questionamento).

 

Nas redes sociais, mulheres vieram a público para dizer que se consideram feministas e, ao mesmo tempo, afirmam não ver na música uma defesa de um status quo de submissão feminina.

 

Linha de raciocínio semelhante está em trabalhos acadêmicos sobre a música, sempre analisada por ser o marco zero de um cancioneiro que valeu a Chico Buarque o hoje contestado título de "conhecedor da alma feminina".

 

 

"A mulher de Com Açúcar, Com Afeto ainda está confinada a ser subserviente ao 'seu' homem. O que não significa que essa composição pregue ou vanglorie o machismo, pelo contrário, a produção de Chico pode ser entendida como um modelo de relação de gêneros a não ser seguido", diz a dissertação de mestrado de Andreia dos Santos de Oliveira pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) de 2018.

 

Marcela Ulhôa Borges Magalhães, no artigo de 2009 A problemática do feminino na lírica de Chico Buarque, escreve que "o bom poeta não se vale da obra literária com a única finalidade de tecer críticas sociais".

 
 
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Fotos: Reprodução

 

 Fonte: Portal Terra

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