Nível chegou a 23,37 metros nesta sexta-feira e variação diária está mais que o dobro da média histórica, aponta LABCLIM/UEA
O rio Negro atingiu 23,37 metros em Manaus e apresenta um ritmo de subida considerado acima do normal para este período do ano. Apenas nos últimos sete dias, o nível do rio aumentou 62 centímetros, com média diária de cerca de 8 centímetros, segundo medição da régua pluviométrica do Porto de Manaus.
Para o meteorologista Leonardo Vergasta, pesquisador do Laboratório de Climatologia e Recursos Hídricos da Universidade do Estado do Amazonas (LABCLIM/UEA), o volume ainda não representa risco imediato, mas a velocidade da elevação exige monitoramento constante. Ele explica que, embora a cota atual esteja dentro de uma faixa estatisticamente comum para o início de fevereiro, a intensidade da variação foge do padrão histórico.
“Nos últimos 7 dias, o rio subiu a uma média de 8,9 cm por dia. Isso é mais que o dobro da média histórica para este mesmo período, que é de 4,0 cm/dia”, destacou o pesquisador. A análise do LABCLIM mostra ainda que, nos últimos 15 dias, a média de elevação foi de 7,5 cm por dia, o que indica uma aceleração recente do processo de enchente. Segundo o pesquisador, esse comportamento já supera o ritmo observado em anos de cheias severas, como 2012 e 2021. “Ao compararmos com os 10 anos de maiores cheias da história de Manaus, o ritmo atual de variação é mais intenso do que o registrado em anos recordes como 2021 e 2012”, afirmou Vergasta.
Veja também

Corais-de-fogo perdem 100% da cobertura viva em litoral brasileiro
Recuperação após secas extremas

De acordo com Vergasta, a elevação do rio em 2026 está diretamente ligada a um processo de recuperação hidrológica após as secas extremas registradas em 2023 e 2024. Ele explica que esses eventos foram intensificados pela atuação do fenômeno El Niño e pelo aquecimento anômalo do Atlântico Tropical Norte.
“Depois da seca extrema de 2023 e 2024, causada pelo El Niño e pelo aquecimento anômalo do Atlântico Tropical Norte, o rio entrou agora, em 2026, em um forte processo de recuperação”, explicou o meteorologista. Atualmente, a presença de uma La Niña fraca e o maior transporte de umidade do Atlântico favorecem chuvas mais frequentes e volumosas na Amazônia. Esse volume de água, segundo o pesquisador, tem impacto direto nas grandes bacias da região, como Purus, Juruá e Acre, que deságuam no rio Solimões. “Toda essa água tende a se deslocar para o curso principal, o rio Solimões, que é o principal controlador do nível do rio Negro na capital”, pontuou.
Cotas de alerta ainda estão distantes
Apesar da elevação acelerada, o nível atual do rio Negro permanece abaixo das cotas críticas adotadas pelos órgãos de monitoramento. Segundo o pesquisador, a cota de alerta em Manaus é atingida a partir dos 27 metros, quando começam os alagamentos em áreas mais baixas e vulneráveis da cidade. Acima de 27,50 metros, os impactos costumam se intensificar, com necessidade de ações preventivas, enquanto níveis superiores a 29 metros caracterizam uma situação de inundação severa, com alagamentos generalizados.
Chuvas em Manaus não explicam sozinhas a elevação

Fotos: Reprodução/Google
O pesquisador esclarece ainda que as chuvas registradas em Manaus, embora intensas nos últimos meses, têm influência limitada sobre o nível do rio Negro. O comportamento atual é resultado, principalmente, das chuvas acumuladas em regiões distantes da capital, como o sul da Amazônia, além de áreas do Peru e do Equador. “Apesar de Manaus registrar chuvas acima da média desde junho do ano passado, essas precipitações têm pouca influência direta sobre o nível do rio Negro na capital”, explicou. Segundo ele, trata-se de um processo hidrológico integrado e retardado no tempo, no qual os volumes de água levam semanas ou meses para impactar o nível do rio em Manaus.
Projeções exigem cautela
Vergasta ressalta que, embora seja possível projetar cenários com base no ritmo atual, qualquer estimativa precisa ser feita com cuidado, já que o comportamento do rio não é linear. “Mantido o ritmo atual de subida, em torno de 8 cm por dia, é possível fazer uma projeção inicial do comportamento do rio, mas sempre com cautela”, alertou o especialista. Segundo ele, se essa taxa fosse mantida por um mês inteiro, o nível poderia subir mais de dois metros. No entanto, variações atmosféricas, mudanças no regime de chuvas e o comportamento das bacias contribuintes podem alterar significativamente esse cenário. O prognóstico mais recente do LABCLIM indica que o rio Negro deve continuar subindo acima da média histórica nos próximos 30 dias. A estimativa aponta que, entre o fim de fevereiro e o início de março, o nível médio pode atingir cerca de 25,03 metros, com margem de incerteza de aproximadamente 17 centímetros. Ainda assim, o pesquisador reforça que é cedo para afirmar se 2026 poderá registrar uma cheia histórica.
“Contudo, ainda é prematuro afirmar que 2026 caminhe para uma cheia recorde. […], embora o comportamento atual indique uma elevação mais intensa do que o normal, a evolução desse cenário dependerá da persistência ou não das condições climáticas favoráveis, o que reforça a necessidade de acompanhamento contínuo e cauteloso”, destacou Vergasta.
Quando Manaus entra em alerta?
O monitoramento oficial do rio Negro adota cotas de referência bem definidas para orientar ações preventivas:
27,00 metros – Cota de alerta: início de alagamentos em áreas mais baixas e ribeirinhas; reforço do monitoramento.
27,50 metros – Cota de inundação: alagamentos mais frequentes, com impactos em bairros vulneráveis e possibilidade de remoções preventivas.
29,00 metros – Cota de inundação severa: situação crítica, com alagamentos generalizados e resposta emergencial ampla.
Fonte: com informações Acrítica
Copyright © 2021-2026. Mulher Amazônica - Todos os direitos reservados.