Estudo inédito confirma que territórios afrodescendentes preservam mais floresta do que áreas similares em países da Amazônia
Um estudo inédito publicado na prestigiada revista Communications Earth & Environment, do grupo Nature, traz uma revelação de impacto global: territórios quilombolas e afrodescendentes titulados no Brasil, Colômbia, Equador e Suriname preservam significativamente mais floresta do que outras áreas similares, fora de terras indígenas, nesses mesmos países Amazônicos.
As conclusões científicas confirmam o que há muito tempo as comunidades tradicionais sabem na prática: povos afrodescendentes atuam como guardiões da natureza, mesmo sem o devido reconhecimento legal ou compensações institucionais.
“Os povos afrodescendentes das Américas serviram por muito tempo como guardiões do meio ambiente sem reconhecimento nem compensação”, afirma Martha Cecilia Rosero Peña, Ph.D., diretora de Inclusão Social da Conservação Internacional. “No entanto, a evidência é indiscutível; o mundo tem muito a aprender com suas práticas de gestão territorial.”
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Dados reveladores sobre proteção ambiental
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De acordo com o estudo conduzido pela Conservação Internacional, os territórios afrodescendentes titulados possuem taxas de desmatamento entre 29% e 55% menores do que áreas comparáveis fora de terras indígenas e quilombolas. Esses dados resultam da análise de características como cobertura florestal, uso da terra, elevação, distância de centros urbanos e histórico de proteção ambiental.
Além disso, mais da metade dessas terras (57%) estão entre os 5% de áreas mais biodiversas do planeta, com destaque para o Equador, onde o índice chega a 99%. Esses territórios armazenam juntos mais de 486 milhões de toneladas de carbono irrecuperável, isto é, carbono que, se perdido, não poderá ser recuperado antes de 2055. Segundo os autores, isso torna a preservação sob gestão das próprias comunidades essenciais para frear o colapso climático.
No Brasil, invisibilidade resiste ao reconhecimento
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Apesar da importância ambiental revelada pelo estudo, apenas 4,3% da população quilombola brasileira vive em territórios titulados, segundo o Censo 2022 do IBGE. A população quilombola total no país é de 1,32 milhão de pessoas — o equivalente a 0,65% da população nacional. A titulação de terras quilombolas ainda enfrenta morosidade, entraves políticos e insegurança jurídica, que comprometem a efetivação dos direitos constitucionais garantidos a essas comunidades.
Ciência, justiça e futuro climático
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Fotos: Reprodução/Google
A pesquisa representa a primeira combinação de dados estatísticos, espaciais e históricos para quantificar o papel dos povos afrodescendentes na proteção da biodiversidade. Sua divulgação acontece às vésperas da COP30, que será sediada pelo Brasil em 2025, colocando o país e a Amazônia no centro do debate climático internacional.
“Este estudo fornece a base científica para reforçar políticas públicas, reconhecimento fundiário e financiamento direto às comunidades quilombolas como estratégia efetiva de conservação ambiental e justiça social”, aponta Sushma Shrestha, principal autora do artigo e diretora de Ciência Indígena da Conservação Internacional.
Com respaldo técnico e evidências consolidadas, o mundo agora é convidado a reconhecer o protagonismo afrodescendente na agenda ambiental global, valorizando o saber ancestral e a gestão comunitária como soluções naturais e eficazes para conter a crise climática.
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