?Por que a sociedade quer que mulheres odeiem outras mulheres?? ? exige uma resposta que vá além do senso comum.
Por Carla Martins- Durante séculos, a rivalidade feminina foi tratada como algo “natural”. A ideia de que mulheres competem entre si, se julgam excessivamente e não conseguem se apoiar tornou-se um estereótipo repetido pela cultura, pela mídia e até por discursos acadêmicos superficiais. No entanto, pesquisas sociológicas, psicológicas e históricas mostram que esse comportamento não nasce da natureza feminina, mas de estruturas sociais construídas ao longo do tempo. “Por que a sociedade quer que mulheres odeiem outras mulheres?” — exige uma resposta que vá além do senso comum.
Uma rivalidade construída, não espontânea
Sociedades organizadas sob bases patriarcais sempre limitaram o acesso das mulheres ao poder, ao reconhecimento social e à autonomia econômica. Quando o espaço é restrito, a competição se torna regra. Assim, mulheres foram historicamente colocadas para disputar entre si aquilo que lhes era escasso: visibilidade, respeito, segurança e oportunidades.
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Esse processo criou o que estudiosos chamam de misoginia estrutural, um sistema de crenças e práticas que desvaloriza o feminino e reforça hierarquias de gênero. O efeito mais perverso desse sistema é quando ele deixa de ser apenas externo e passa a ser internalizado pelas próprias mulheres.
Misoginia internalizada: quando o sistema vira comportamento
A misoginia internalizada ocorre quando mulheres absorvem valores sociais que as ensinam a desconfiar, julgar ou deslegitimar outras mulheres. Isso se manifesta em críticas excessivas, comparações constantes, rivalidades profissionais e até na desvalorização de conquistas femininas. Desde a infância, meninas são incentivadas a se comparar: quem é mais bonita, mais comportada, mais desejável, mais bem-sucedida. A mídia reforça esses padrões ao retratar mulheres frequentemente como rivais, enquanto relações de amizade e cooperação feminina são invisibilizadas ou ridicularizadas.
A cultura da escassez e da validação
Outro fator determinante é a chamada cultura da escassez, que faz mulheres acreditarem que há espaço apenas para poucas. Poucas lideranças, poucas referências, poucas vozes ouvidas. Esse pensamento cria disputas artificiais e desvia o foco do verdadeiro problema: a desigualdade estrutural. Ao invés de questionar o sistema que limita oportunidades, mulheres acabam direcionando frustrações umas às outras. O conflito, nesse caso, não é pessoal — é social.
Ao refletir sobre esse cenário, destaco que a rivalidade feminina é uma construção histórica que serve a interesses maiores: “Quando a gente pergunta por que a sociedade insiste em colocar mulheres umas contra as outras, a resposta não é simples — mas ela é estrutural. Não é natural que mulheres se odeiem. Isso foi ensinado. Foi construído ao longo do tempo por uma sociedade que sempre lucrou com a divisão feminina, porque mulheres divididas questionam menos, ocupam menos espaços e se fortalecem menos. Desde cedo, aprendemos a competir: pela beleza, pela aceitação, pelo reconhecimento, pelo amor, pelo espaço profissional. Enquanto isso, quase nunca somos ensinadas a cooperar, a nos reconhecer e a nos proteger.
A rivalidade feminina não nasce nas mulheres. Ela nasce em um sistema que normaliza a comparação, estimula o julgamento e transforma a escassez em regra. Um sistema que nos faz acreditar que só há lugar para uma de nós. Mas quando uma mulher ataca outra, muitas vezes não é ódio — é sobrevivência emocional dentro de uma lógica que nunca foi justa. Romper com essa narrativa é um ato político, social e humano. É entender que não somos inimigas — somos parte da mesma luta.”
Sororidade como ruptura social

Em contraponto à rivalidade imposta, surge o conceito de sororidade, que propõe solidariedade, empatia e apoio entre mulheres. Não se trata de negar conflitos — eles existem em qualquer grupo humano —, mas de recusar a lógica que transforma mulheres em adversárias naturais. A sororidade questiona padrões de julgamento, promove redes de apoio e fortalece a atuação feminina em espaços sociais, políticos e profissionais. Mais do que um conceito, é uma prática de resistência.
Informar também é libertar

Fotos: Reprodução/Google
A desconstrução da rivalidade feminina passa pela informação qualificada, pelo debate público e pela revisão de narrativas culturais. Quando mulheres compreendem que o conflito não é individual, mas estrutural, abre-se espaço para relações mais justas e colaborativas. Como foi destacado, informar é também um ato de libertação. Dar nome aos mecanismos sociais é o primeiro passo para desmontá-los.
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Fontes: Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania – Misoginia e violência de gênero
https://www.gov.br/mdh
Brasil Escola – O que é sororidade
https://brasilescola.uol.com.br
Prindle Institute for Ethics – Internalized Misogyny
https://www.prindleinstitute.org
CPD Online College – Misogyny as a social structure
https://cpdonline.co.uk
The Rebelle – Internalized misogyny and female competition
https://therebelle.org
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