Coletivo internacional de jovens cientistas assina carta aberta sobre o tema publicada na revista Science
As discussões sobre as diferentes opressões estruturais na ciência se intensificaram durante a pandemia da COVID-19, mas a perspectiva transgênera ainda é invisibilizada.
Políticas públicas específicas para esse grupo de pessoas são raras e mal elaboradas, reflexo do desconhecimento civil e governamental das reais necessidades dessa parcela da população.
Um grupo de jovens pesquisadores, dentre eles pesquisadores transgêneres e pesquisadoras cisgêneras, se uniu para comunicar, por meio de uma carta recém publicada na prestigiada revista científica Science, as necessidades e direitos dos cientistas transgêneros no contexto da pandemia e traçar possíveis caminhos para um futuro mais inclusivo no ambiente acadêmico.
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A equipe é composta por integrantes da Rede Kunhã Asé de Mulheres na Ciência, fundada com o intuito de promover a diversidade na ciência fornecendo apoio emocional e intelectual para mulheres cientistas e fomentando o ingresso de meninas e mulheres na ciência.

Permeada pela noção de interseccionalidade, a rede e suas integrantes acreditam que a experiência, vivência e presença de pesquisadores transgêneres são imprescindíveis para a promoção de espaços mais diversos e saudáveis na comunidade científica.
Na carta, os pesquisadores apontam que pessoas transgêneras enfrentam barreiras em todos os estágios da sua carreira acadêmica, dificuldades impostas pela sociedade de maneira geral e, também, pela própria comunidade científica. Durante a pandemia da COVID-19 as dificuldades se intensificam, acarretando em consequências negativas para a formação e estabilidade na carreira científica deste grupo.

A perspectiva cisnormativa é responsável por opressões estruturais que permeiam toda a academia. Essa negação da existência de pesquisadores transgêneres leva à altas taxas de evasão escolar, e, no âmbito da universidade, à barreiras estruturais que os impedem de se tornarem líderes científicos. Essa parcela da população é uma das com maiores índices de suicídio e de assassinatos por ódio.
DIÁLOGO

Para uma ciência inclusiva e diversa, cientistas transgêneres e
suas vivências precisam ser ouvidas
“A epistemologia da ciência existe sob uma base cisgênera. A própria biologia normatiza os corpos e sustenta o que a pesquisadora Yuna Vitória discute em seu texto homônimo de “O mito do sexo original”, o qual é a naturalização do binarismo de gênero usando as diferenças na estrutura sexual como correspondência do gênero ao sexo.
Essa desnaturalização do corpo transgênero permite que as pessoas trans ainda tenham um CID (Classificação Internacional de Doenças), por mais que seja para afirmar seus direitos básicos à saúde”.
No Brasil, segundo a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), 90% das mulheres trans tem apenas a prostituição como única fonte de renda, vivendo na informalidade; grande parte é expulsa da educação básica e cerca de 0,2% de pessoas trans acessam as universidades. “É uma marginalização estrutural”, Diz Murillo Medeiros, homem trans colaborador da rede Kunhã Asé e um dos co-autores do artigo.

Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA)
“Como Bióloga e estudiosa da Filosofia da Ciência, me assusta muito como termos como sexo biológico e gênero são mal compreendidos pela população e pela própria comunidade científica. Tal confusão é uma das principais frentes de ataque a existência trans onde as pessoas se valem de argumentos pseudocientíficos e muitas vezes religiosos para invalidar nossas existências e muitas vezes apagá-las”, diz Lucy Souza, mulher trans integrante da rede Kunhã Asé e uma das co-autoras do artigo.

“Faz-se urgentemente necessário o reconhecimento das opressões estruturais sobre nossos corpos e ações tanto de esfera pública quanto da própria academia para reparação histórica de tais agressões e desinformações vinculadas livremente em nossa sociedade”, diz a pesquisadora. Para Lucy, um bom ponto de partida para mudança é a sensibilização das pessoas para essas pautas e a disponibilização de definições e conhecimentos corretos para a população se instrumentalize em relação ao tema.
Maya E. Sousa, mulher trans travesti, integrante da rede Kunhã Asé e também uma da co-autoras do artigo, observa que a ciência ainda está embebida por uma lógica binária da relação sexo-gênero, de sua produção à sua divulgação também. “Pensando como professora de Ciências e Biologia e pesquisadora das relações de gênero e sexualidade nos espaços escolares, me preocupa a maneira como a ciência transposta nesses espaços ainda está marcada por conceitos binários, higienistas, medicalizados e estereotipados.
O conhecimento acerca de corpos trans ainda está embasado na patologização e exotização, isto é, nos colocam no lugar do estranho, do ‘fora do padrão’, uma vez que este padrão construído histórica, social e culturalmente é a cisgeneridade. Portanto, é necessário pensar na lógica da produção desses conhecimento, mas também pensar, com prioridade, a transposição desses conhecimentos científicos que estamos produzindo e/ou ressignificando na educação básica.”
DO PRESENTE PARA O FUTURO

Fotos: Reprodução
No artigo, es pesquisadores fazem recomendações para construir um futuro pós-pandemia mais diverso e inclusivo, no que diz respeito às diferentes identidades de gênero. As recomendações são direcionadas aos cientistas e abrangem o respeito aos nomes e pronomes com os quais as pessoas transgêneras se identificam; manifestações contra políticas e leis transfóbicas; e desafiar as perspectivas na cultura científica que apagam as experiências transgêneras.
Já recomendações direcionadas às instituições englobam o desenvolvimento de políticas inclusivas de mudanças de nomes; considerar as necessidades de pessoas transgêneras na tomada de decisão; revisar políticas e leis transfóbicas; alocar financiamento para apoiar suas carreiras; e fornecer assistência médica para estes cientistas.
Além de integrarem a rede Kunhã Asé, os co-autores do artigo são da Universidade de Montreal, Universidade Federal da Bahia (UFBA), Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Universidade de São Paulo (USP), Universidade de Maryland, Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), Universidade Federal de Goiás (UFG), Universidade de Campinas (UNICAMP) e Museu da Amazônia.
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Citação do artigo: “Supporting transgender scientists post-COVID-19”. Shaun Turney, Murillo M. Carvalho, Maya E. Sousa, Caroline Birrer, Tábata E. F. Cordeiro, Luisa M. Diele-Viegas, Juliana Hipólito, Lilian P. Sales, Rejane Santos-Silva; and Lucy Souza; Science, 2020. DOI: 10.1126/science.abd8933
Fonte: Site Mulheres Na Ciência
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