Maior grupo étnico-racial do Brasil se vê diante de batalha política.
Maior grupo étnico-racial do Brasil, respondendo por 45,3% da população, os brasileiros que se declaram pardos se veem no meio de uma batalha política.De um lado, o movimento negro prega uma aliança entre pretos e pardos para eleger candidatos à esquerda comprometidos com o combate ao racismo.
Do outro, grupos conservadores que ganharam força sob a presidência de Jair Bolsonaro exaltam a identidade parda e acusam a esquerda de estimular divisões raciais no Brasil.Como brasileiros de famílias multirraciais se posicionam nesse embate?
A reportagem abaixo se baseia em episódio do podcast Brasil Partido, da BBC News Brasil.
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Quem são os pardos?
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Eles respondem por 45,3% da população brasileira, à frente de brancos (43,5%), pretos (10,2%), indígenas (0,8%) e amarelos (0,4%)."O movimento negro instituiu que negro é igual à somatória de preto mais pardo. A minha geração fez essa engenharia política, e nós dissemos: tudo que estiver dito aí que é pardo e preto, para nós é negro", disse a filósofa Sueli Carneiro, em junho de 2022, ao podcast Mano a Mano, do rapper Mano Brown.
Carneiro é uma das mais destacadas ativistas do movimento negro brasileiro.A definição citada pela ativista embasa o discurso de que os negros são maioria no Brasil, já que pretos e pardos, somados, respondem por 55,5% da população.O discurso se apoia na noção de que pardos também têm antepassados africanos e também sofrem racismo.
Essa visão ganhou um reconhecimento oficial em 2010, durante o governo Luiz Inácio Lula da Silva, quando o Congresso aprovou uma lei que criou o Estatuto da Igualdade Racial.O estatuto definiu a população negra como "o conjunto de pessoas que se autodeclaram pretas e pardas".Mas nem todos os pardos concordaram com a definição.
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"Eu sou mestiço, eu não sou negro. Eu sou pardo, eu não sou negro", disse o médico e ativista Leão Alves, em junho, numa conferência organizada pelo Movimento Pardo Mestiço Brasileiro, em Manaus.Fundado pelo próprio Alves, o movimento surgiu no início dos anos 2000 e passou quase 20 anos fora das principais arenas onde raça e política são discutidas no Brasil.
Até que a chegada de Jair Bolsonaro ao poder mudou a história do grupo.No início de 2022, pela primeira vez em sua história, o movimento participou de uma reunião do Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial, instância formada por entidades civis e órgãos do governo que estava na estrutura do então Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos.
O conselho tem a atribuição de propor políticas voltadas à igualdade racial. O Movimento Pardo Mestiço se candidatou a uma vaga no conselho e teve a candidatura aprovada pela então ministra Damares Alves.Após a posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o grupo deixou de integrar o conselho.
Estado mais pardo do Brasil
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Nascido em Manaus em 1966, filho de um pai porteiro e de uma mãe zeladora, Alves diz pertencer a uma família fisicamente parecida com a ampla maioria das famílias amazonenses.Naquele Estado, o percentual de pardos na população é o maior do país. E o Amazonas tem o segundo menor percentual de pretos do Brasil, só atrás de Santa Catarina.
Isso porque a escravidão africana não foi tão presente no Amazonas quanto em outras partes do Brasil. No Amazonas, o principal grupo escravizado foram os indígenas.Segundo Leão, pardos "com aspecto de caboclo" são o grupo que sofre mais preconceito racial no Amazonas por ser associado às classes mais pobres.
Na definição do dicionário Aulete, caboclo é o "mestiço de branco com índio", ou o "mulato de pele acobreada e cabelos lisos".Já os pretos, segundo Alves, são associados por muitos amazonenses Direitos origináriosUma das críticas de Alves à inclusão dos pardos na categoria negros tem a ver com a política de terras brasileira.
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Fotos: Reprodução/Google
Alves defende que, por serem descendentes de indígenas, os pardos do Amazonas deveriam ter "direitos originários" sobre as terras que ocupam — direitos que, no entanto, a Constituição só confere aos povos indígenas.A expressão "direitos originários" se refere a direitos que são anteriores à criação do Estado brasileiro e ao fato de que os indígenas foram os primeiros habitantes do território nacional.
Porém, Alves afirma que, por não reconhecer a origem indígena dos pardos e por tratá-los como negros após o Estatuto da Igualdade Racial, o Estado brasileiro se eximiu de destinar terras ao grupo.O médico diz ainda que considerar pardos como negros estimula um conflito entre negros e brancos na sociedade brasileira, ao passo que a identidade parda ou mestiça "homogeneiza e unifica" a nação, segundo ele.
Alves considera como parda qualquer pessoa que tenha alguma mistura racial — até mesmo as que tenham pele bem clara ou bem escura. Pelo critério dele, a ampla maioria da população brasileira é parda.
Fonte: com informações do Portal Terra
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