* Por Lúcio Carril – Desde ontem a mídia corporativa e as redes sociais comentam a repreensão feita por um desembargador do TJAM a uma advogada que participava de uma audiência virtual com a filha de seis meses no colo.
A profissional teve seu pedido de prioridade na audiência negado e em seguida, quando a criança emitiu um som, sem chegar a chorar, o juiz a mandou colocar a criança no "lugar adequado" e concluiu, dizendo: a senhora precisa ver a ética da advogada (sic).
O que viria a ser o "local adequado" para a criança na falta de educação e respeito do homem que presidia a sessão? Onde estaria a falta de ética em participar de uma reunião de trabalho com a filha no colo, seja por meio virtual ou presencial?
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Seria um caso isolado se a conduta do magistrado não reproduzisse uma cultura de ofensa à maternidade da trabalhadora. Isto vai desde a falta de creches em locais de trabalho à condenação brutal da mulher que tem que trabalhar e criar seu filho ou filha.
Impera a consciência pequeno-burguesa de que todas as mães que trabalham para ajudar ou manter o sustento de casa devem dispor de uma babá ou de uma empregada doméstica. Sequer se imagina como é a vida dura de uma mãe trabalhadora.

A intolerância é de classe, sim. É constante o discurso que condena a maternidade da mulher trabalhadora, como se aquela mulher que gera riqueza e serviço para meia-dúzia de parasitas burgueses não tivesse nascido de outra mulher igualmente trabalhadora, seja em casa ou numa fábrica.

A intolerância é de gênero, sim. É comum e causa repugnância a humilhação que a mulher sofre ao procurar trabalho e a vaga lhe ser negada por já ser mãe ou por não ter um corpo desejável pelo patrão.

E se há intolerância e preconceito de classe e de gênero, não é menos agressiva a violência política.
Não faz muito tempo que o traste que governa o Brasil defendeu que a mulher dever ter um salário menor porque engravida.

Fotos: Reprodução
Vindo desse monstro, tudo dá nojo.
São por essas razões que a conduta do desembargador do TJAM é digna de repúdio da sociedade. Ela se soma à ideologia opressiva de gênero e de classe.
Minha solidariedade à advogada e a todas mulheres do Brasil.
**Lúcio Carril é sociólogo, ex-secretário executivo da Secretaria de Política Fundiária do Estado do Amazonas, ex-delegado federal do Ministério do Desenvolvimento Agrário e especialista em gestão e políticas públicas pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo
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