Entre os 200 milhões de dalits, as mulheres deste grupo representam cerca de 16% da população feminina da Índia e vivem uma tripla opressão
O sistema de castas da Índia é uma das estruturas sociais mais antigas e rígidas do mundo, profundamente enraizada na sociedade hindu. Baseado em princípios religiosos e hierárquicos, ele classifica as pessoas em diferentes grupos, desde os brâmanes (sacerdotes) no topo até os sudras (trabalhadores) na base.
Fora dessa estrutura formal, estão os dalits, anteriormente chamados de “intocáveis”, que ocupam a posição mais marginalizada. Embora a Constituição indiana de 1950 tenha declarado ilegal a discriminação baseada em castas, a realidade cotidiana revela que os dalits continuam a enfrentar preconceitos e violência sistemática.
Entre os 200 milhões de dalits, as mulheres deste grupo representam cerca de 16% da população feminina da Índia e vivem uma tripla opressão: gênero, casta e pobreza. Sua vulnerabilidade é acentuada por uma combinação de fatores históricos, sociais e econômicos, que perpetuam um ciclo de exclusão e violência.
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A Violência Contra Mulheres Dalit
As mulheres Dalit enfrentam uma realidade marcada pela violência sexual, que reflete o desprezo sistêmico por seu gênero e posição social. Dados oficiais mostram que, em 2020, pelo menos dez mulheres dalit foram estupradas diariamente. Estados como Uttar Pradesh, Bihar e Rajasthan são os que registram o maior número de casos.
Além da violência física, há negligência institucional quando as vítimas buscam justiça. A demora das autoridades em registrar queixas, investigar crimes ou até mesmo reconhecer a influência da casta nos incidentes reflete uma cumplicidade preocupante. No caso de uma jovem dalit de 19 anos em Hathras, Uttar Pradesh, que foi estuprada e assassinada por homens de casta superior, a polícia cremou o corpo da vítima às pressas, sem o consentimento da família, levantando suspeitas de encobrimento.
A Vida das Mulheres Dalit em Números

Um estudo realizado em 2006 com 500 mulheres dalit em quatro estados da Índia revelou:
• 54% foram agredidas fisicamente;
• 46% sofreram assédio sexual;
• 43% enfrentaram violência doméstica;
• 23% foram estupradas;
• 62% relataram abuso verbal.
Além disso, a violência sexual contra as mulheres dalit não é cometida apenas por membros de castas superiores. De acordo com o Centro para Direitos dos Dalit, 36 castas diferentes, incluindo os próprios dalits, foram identificadas como responsáveis por esses atos. A maioria das vítimas é jovem: 46% tinham menos de 18 anos e 85% menos de 30 anos.
Transformação Social e Empoderamento
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Apesar das adversidades, há sinais de resistência e mudança. Desde o brutal assassinato de uma família dalit em Khairlanji, em 2006, movimentos de empoderamento têm ganhado força. Esse incidente despertou a consciência social dos dalits e chamou a atenção para a violência sistêmica enfrentada por essa comunidade.
Hoje, mulheres dalit estão assumindo posições de liderança, reivindicando seus direitos e rompendo o silêncio que antes as mantinha subjugadas. A educação tem sido um fator crucial nessa transformação, enviando mais meninas dalit às escolas e oferecendo oportunidades para que elas se expressem e desafiem o status quo.
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Fotos: Reprodução/Google
Embora a Índia tenha leis como o Ato de Prevenção de Atrocidades de 1989 para proteger os dalits, sua aplicação permanece fraca. Além disso, parte da sociedade, incluindo a mídia e as autoridades, tende a minimizar a conexão entre violência sexual e discriminação de casta.
A luta pela igualdade exige mudanças profundas nas estruturas sociais e culturais, assim como um compromisso mais sério por parte do governo e da sociedade civil. A opressão histórica contra os dalits, e em especial contra as mulheres, só poderá ser superada com o rompimento das hierarquias impostas pelo sistema de castas. O empoderamento das mulheres dalit é, ao mesmo tempo, uma resistência e um chamado por justiça em uma sociedade que ainda luta para lidar com os resquícios de um sistema arcaico. A casta importa, e a luta por igualdade continua.
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