12 de Maio de 2026

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Comportamento - 12/05/2026

O silêncio dos meninos: por que tantos meninos ainda não choram?

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Foto: Reprodução/Google

O jornalista e pesquisador Ismael dos Anjos encara o desafio de ir às escolas ouvir as dores dos garotos e atualizá-los acerca das masculinidades

Denúncias de violência psicológica, física e patrimonial contra a mulher eclodem a todo momento. Além delas, os feminicídios, consequência direta da falta de alguma interferência em episódios de violências anteriores. Ações preventivas são urgentes e , uma delas, é levar às escolas o tema das masculinidades para que os meninos possam ser ouvidos e atualizados acerca do tema.

 

Ano passado, houve o aumento de 4,7% em relação a 2024, com o registro de 1.568 casos de violência. Em oito de cada 10 casos, os autores do feminicídio são parceiros ou ex-companheiros, de acordo com o Levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Nesse contexto, o discurso punitivista ganha tração, mas não faz diminuir os casos nem minimiza os efeitos já causados.

 

A Lei Maria da Penha prevê a realização de grupos reflexivos para autores de violência doméstica, que apresentam eficácia atestada nos percentuais de redução da reincidência — de 65% para até 2%. O resultado positivo advém do fato de que, nesses grupos, os homens conseguem falar sobre o que sentem.

 

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“O homem que não aprende a identificar os próprios sentimentos usa a violência como linguagem para tentar manter um poder que ele acha que é dele por direito”, afirma Ismael dos Anjos, pai de Francisco, o Cisco, de 11 anos, fotógrafo, jornalista e pesquisador das masculinidades, coordenador da pesquisa e do documentário O silêncio dos homens, realizado pelo Instituto Papo de Homem (PdH) e lançado em 2019. A pesquisa teve a parceria do Consórcio de Informações Sociais (CIS), da USP, e ouviu 47 mil pessoas de todo o Brasil para ‘saber como os homens aprendem a ser homens no Brasil’.

 

Faltam pesquisas acerca das masculinidades, mas os dados contidos em O silêncio dos homens ainda são pertinentes. Apenas três em cada 10 homens têm o hábito de conversar sobre os seus maiores medos e dúvidas. A maioria afirma ter o pai como principal referência de masculinidade, mas apenas um em 10 já conversou com o pai sobre o que é ser homem. E quando os homens sofrem assédio sexual, em média demoram 20 anos para contar a alguém.Com a antropóloga Isabela Venturoza, Ismael ministra o curso Masculinidades nas Escolas, no Instituto Vera Cruz, em SP, e aborda temas como interseccionalidade, cuidado, violências, masculinismos e internet. No momento, busca apoio para a gravação de palestras e aulas para que seus cursos alcancem escolas de todo o país.

 

Nesta entrevista, o pesquisador esmiúça o conceito de masculinidades, aponta o — muito bem-vindo — avanço das meninas e mulheres em suas concepções de mundo e autonomias e defende que a educação dos meninos não acompanhou esse avanço. Confira

 

O que são as masculinidades?

 


Masculinidades são um conjunto de crenças, ideologias, características, comportamentos e até energias, dependendo do contexto, que atribuímos como sendo inatas ou pertencentes ao masculino, aprendidas, e que deveriam ser colocadas em prática por quem se diz homem ou é identificado como homem. Socialmente, temos muitas expressões diferentes do que é ser masculino, mas tendemos a simplificar e organizar em torno de uma definição só. Por exemplo, se eu perguntar “homem usa saia?”. Muita gente vai dizer “não”. Mas eu posso lembrar que na Escócia tem algo bem parecido com saia que é o kilt, usado por homens. Homem rebola, dança? Se olharmos para as periferias do Brasil, as pessoas que mais dançam os passinhos são homens. Então isso não é coisa de homem? É, sim, coisa de homem em alguns contextos. Precisamos entender que a redução do que é ser masculino serve a uma construção ideológica do que é ser homem, mas não necessariamente serve aos homens e muito menos à sociedade.

 

Esse reducionismo traz consequências?

 


Traz. Pouquíssimos homens conseguem cumprir isso. Por exemplo, se eu fosse corajoso o tempo todo e não levasse desaforo para casa, já teria morrido. A maior parte do tempo, os homens estão tentando fazer o que chamamos de performance de masculinidade. Não é que eles sejam assim, é que, sendo assim, são validados como homens. Então são outros homens dizendo ‘fulano é macho para caramba’. Às vezes, é a mulher dizendo ‘meu marido é homem, põe dinheiro em casa’. Então é sempre um lugar de performance e não necessariamente um lugar para uma categoria estanque. Dependendo, ainda, da sociedade em que se está inserido, há outros marcadores. Por exemplo, dentro do contexto da educação, a masculinidade de uma escola pública da periferia de São Paulo é muito diferente da masculinidade expressa a poucos quilômetros de lá, numa escola de elite.

 

A masculinidade tóxica tem sido bastante mencionada nos últimos anos. O que o termo define?

 

Fotos: Reprodução/Google

 

É um termo bem importante para o estudo das masculinidades, mas ele tem alguns limites que precisamos observar e cuidados para utilizar. Ao chamar homens para uma conversa sobre masculinidade tóxica, o público será zero, ou muito poucos. Afinal, a pessoa pensa: por que vou a uma conversa onde estou sendo chamado de tóxico?

 
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Um produto tóxico, na acepção da palavra — os professores de química saberão melhor do que eu — é aquele que não se contém no hospedeiro e se espalha ao redor. Masculinidade tóxica, então, diz respeito a comportamentos masculinos que não se encerram no hospedeiro e se espalham ao redor causando danos. Mas não é sinônimo das masculinidades, porque as masculinidades têm outros efeitos, possibilidades, e ampliar esse leque é, inclusive, importante se queremos chamar para a conversa. 

 

Fonte: com informações Revista Educação

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