01 de Junho de 2026

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Violência contra Mulher - 25/03/2026

O 'red pill' mora ao lado: como a misoginia online atrai jovens por meio do ressentimento

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Foto: ThisIsEngineering/Pexels

Antes restritos a fóruns na deep web, hoje os conteúdos de ódio contra mulheres ganham as redes sociais e atraem cada vez mais adolescentes

Quando se entregou à polícia, Vitor Hugo Simonin, de 18 anos, um dos acusados de estupro coletivo contra uma adolescente no Rio de Janeiro, apareceu de cabeça erguida e usando uma camiseta com a frase "regret nothing", que na tradução do inglês significa "não se arrependa de nada". Muitos associaram a escolha a um desejo de enviar uma mensagem aos integrantes da machosfera – ecossistema digital que surgiu inicialmente na deep e na dark web (a parte não indexada pelos mecanismos de busca), que prega submissão feminina e a reestruturação do poder masculino. Hoje, essas ideias se espalharam pelas redes sociais por meio de influenciadores e trends virais.

 

“Ele não demonstrou medo. Dentro da machosfera, certamente pode ser visto como um herói. O recado foi dado. Ele vai ser punido? Vai. Mas será que vamos conseguir interromper a mensagem que ele passou para aquele universo? Isso é muito difícil”, afirma Bruna Camilo, doutora em sociologia pela PUC (Pontifícia Universidade Católica) de Minas e pesquisadora de gênero, misoginia e extrema-direita. O posicionamento de Simonin foi amplamente relacionado a Andrew Tate, britânico-americano que se autointitula ultramasculino e usa a internet para incitar ódio às mulheres e divulgar a ideologia “red pill”. O não arrependimento pela violência é amplamente incentivado por Tate.

 

E é aí que o problema toma dimensões imensas. Grupos masculinistas não estão mais restritos aos confins da web. Eles se popularizaram e, com trends e linguagem jovem nas redes sociais, estão mobilizando um número cada vez maior de jovens – e popularizando discursos de ódio. O uso da ironia e do humor cumpre uma função estratégica na circulação dessas ideias e no envolvimento dos jovens que, muitas vezes, sequer reconhecem a dimensão ideológica por trás dos conteúdos.

 

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Machosfera oferece respostas e culpados

 


Nas redes, não é difícil encontrar um vídeo em que um homem descreve que tipo de mulher merece ser levada a sério e como se comportar com ela, sempre a partir da lógica de submissão. Outras vezes, as ideologias da machosfera aparecem disfarçadas de memes, ou de trends, como a do “caso ela diga não”. Entre os grupos mais proeminentes no cenário atual, os chamados “red pills” defendem a ideia de que os homens seriam vítimas de misandria, o que eles definem como ódio, desprezo e doutrinação por parte das mulheres, especialmente das feministas, segundo informações de um relatório realizado pelo Ministério das Mulheres e o NetLab-UFRJ. O termo em inglês que dá nome ao grupo significa "pílula vermelha" e faz referência ao universo do filme Matrix, em que ela é usada para revelar a verdade.

 

“O fato desse tipo de conteúdo estar disponível nas redes sociais, recomendado por algoritmos e, muitas vezes, monetizado – o que serve como incentivo para produzir mais –, faz com que eles alcancem pessoas que não os procuraram”, explica Mariana Valente, diretora associada e fundadora do InternetLab. Assim, meninos em formação acabam mobilizados por uma espécie de ressentimento combinado à frustração. Neste caso, os direitos das mulheres e as agendas igualitárias são vistas como responsáveis pela crise da masculinidade.

 

“Essas narrativas encontram ressonância entre os jovens porque oferecem explicações simples para experiências reais de insegurança, solidão e frustração que muitos vivem. A machosfera oferece uma resposta sedutora para tudo isso, ela identifica culpados”, explica a pesquisadora Bruna Camilo. Mais uma vez, as estruturas de gênero operam para frear qualquer tipo de autonomia política e social das mulheres. “Quando a misoginia se naturaliza como parte da cultura digital masculina, isso dificulta a construção de relações baseadas na reciprocidade, no consentimento, no respeito e no reconhecimento da autonomia feminina”, destaca Bruna.

 

Sinais de contato com a machosfera

 


Afora a difusão nas redes sociais, a machosfera se organiza principalmente em comunidades no YouTube, além de grupos no Telegram e no WhatsApp, de acordo com Mariana Valente, do InternetLab. Hoje, porém, não é tão simples identificar quando um jovem ou adolescente está consumindo conteúdos da machosfera. A especialista ressalta que os sinais mais sutis são difíceis de identificar, mas que é importante observar dinâmicas mais amplas de radicalização, além das figuras que esses jovens acompanham e celebram na internet. “É necessário que exista um diálogo aberto nas escolas, comunidades e famílias sobre a existência desses conteúdos e o quanto eles são nocivos.”

 

Criminalização da misoginia

 


Segundo um estudo realizado pela FGV (Fundação Getulio Vargas) em 2025, mais de 220 mil usuários brasileiros participam de comunidades misóginas no Telegram. Além disso, o levantamento também apontou que o volume de conteúdo de ódio contra mulheres cresceu cerca de 600 vezes desde 2019. Ainda assim, existe uma dificuldade de identificação desse material pelas plataformas, principalmente porque os sistemas não têm capacidade de compreender o contexto, segundo a professora de Direito na FGV Rio Yasmin Curzi, que também pesquisa gênero, políticas digitais e direitos humanos. Nesses casos, a maior parte da moderação acaba acontecendo de forma reativa, a partir de denúncias, e não de maneira proativa por parte das empresas responsáveis.

 

“É necessário que esses conteúdos sejam interrompidos antes de viralizarem. O problema é que isso muitas vezes não interessa à lógica de lucro baseada em engajamento das plataformas”, explica a professora. Hoje, do ponto de vista jurídico, não é fácil reconhecer e punir discursos de ódio praticados contra mulheres no ambiente digital. Segundo Yasmin, na maioria dos casos, as penas são pequenas. No caso de incitação ao ódio, ela varia de três a seis meses de reclusão. “Muitos juízes acabam convertendo essas penas em alternativas, como serviço comunitário ou multas. Ou seja, não são penas muito substantivas. Ainda assim, é crime. Não é correto naturalizar esse tipo de conteúdo.”

 

Fotos: ReproduçãoGoogle

 

No ano passado, o Senado brasileiro aprovou o Projeto de Lei 896/2023, que tipifica a misoginia como crime de discriminação, equiparando-a à Lei do Racismo. Se aprovado pela Câmara dos Deputados, o crime de ódio ou aversão às mulheres poderá ser punido com pena de dois a cinco anos de reclusão. “A introdução desse tipo de tipificação no ordenamento jurídico brasileiro poderia funcionar como um freio”, afirma a especialista. Ainda assim, ela pontua que a criminalização não é a única solução. “Também precisamos de políticas educacionais que promovam uma cultura de igualdade. É necessário trabalhar essas questões com meninos e meninas nas escolas”, complementa.

 

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Quando a desumanização feminina se torna parte do repertório cultural dos jovens, comportamentos abusivos podem passar a ser percebidos como justificáveis. O desafio, então, não se limita ao enfrentamento de grupos radicalizados, mas também à compreensão de como a machosfera tem oferecido terreno fértil para que a misoginia continue a se perpetuar em um mundo cada vez mais conectado, com jovens em busca de identidade e pertencimento.

 

Fonte: com informações da Revista Marie Claire 

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