17 de Maio de 2026

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Diversidade - 24/01/2024

O que a diversidade e diálogo representam na atual sociedade pluralista?

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Foto: Reprodução/Google

Não mais dispomos de uma linguagem comum, por meio da qual seria possível proclamar a salvação de Jesus Cristo.

A atual sociedade pluralista apresenta grande diversidade de visões da realidade, de concepções de vida, de marcos comportamentais que acabam resultando num grande problema pastoral para a Igreja — como confirmam os embates em torno da pastoral urbana.

 

Não mais dispomos de uma linguagem comum, por meio da qual seria possível proclamar a salvação de Jesus Cristo. Dispomos apenas de fragmentos de linguagens e nos perguntamos então como pode a Igreja, em tal situação, realizar sua missão evangelizadora.

 

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A inevitável diversidade

 

 

Todos sentimos o desafio desta moderna sociedade pluralista. Mais do que um desafio, certo mal-estar. Quando pensamos em catolicismo, quer queiramos quer não, estamos ainda presos a um imaginário eclesial do passado. Partimos sempre da unidade fundamentada na homogeneidade, própria dos tempos da cristandade. O modo de entender e de praticar a fé católica era comum a todos e garantia a identidade do católico. Mesmo que a sociedade se apresentasse heterogênea e plural em suas concepções do mundo, com suas correspondentes práticas de vida, ainda assim o católico encontrava um meio tranquilo nos diversos contextos católicos criados pela Igreja (colégios, hospitais, universidades, associações etc.), onde todos falavam a mesma língua e se entendiam facilmente.

 

O importante evento que foi o Concílio Vaticano II pôs fim ao fechamento eclesial não só com relação aos outros cristãos, e mesmo aos não cristãos, como também com relação à sociedade. O diálogo que se instaurou desde então entre Igreja e mundo não só levou a comunidade eclesial para fora de si, mas também trouxe a sociedade para dentro da Igreja. Nesse momento a heterogeneidade plural da sociedade tornou-se também uma heterogeneidade plural no interior do povo de Deus. E é o que hoje presenciamos, vivemos e, em parte, sofremos.

 

Por detrás de toda essa transformação eclesial está a emergência do indivíduo na modernidade, que quer ser respeitado no que tem de próprio, no que constitui sua própria identidade. A emancipação da pessoa diante das tradições do passado, as quais não são mais aceitas apenas por serem tais, implica necessariamente uma releitura desses dados transmitidos pelas gerações anteriores, tornando a atual sociedade múltipla e diversa, em decorrência da pluralidade de leituras nela efetuadas. O pluralismo que hoje experimentamos veio para ficar. Não adianta sonharmos com o passado. Não podemos evitar sentir-nos um pouco estrangeiros em nosso próprio país, tal a quantidade de linguagens e práticas que nos são estranhas.

 

 

De fato, a massa enorme do saber, a qual ninguém consegue sozinho dominar, tornou a sociedade complexa, com recantos onde nos sentimos pouco à vontade, com setores que nos são estranhos, com mentalidades que nos surpreendem. Esse pluralismo se encontra também no interior da comunidade eclesial, pois cada um se encontra com Jesus Cristo, lê o evangelho e vive sua fé sempre com base no que é, em sua pessoa, em sua história, em suas experiências, em sua mentalidade, em sua cultura, em suas interrogações, enfim, em sua perspectiva.

 

Esse fato não é novo, já que se encontra presente nos textos do Novo Testamento bem como ao longo, sobretudo, do primeiro milênio do cristianismo. O que é inédito é a viva e forte consciência que hoje temos dele. Mais ainda, estamos convencidos de que essa situação pluralista é um direito que não mais poderá ser suprimido — também no interior da Igreja. Daqui deslancha o atual discurso sobre a inculturação da fé, sobre o papel próprio e indispensável das Igrejas locais, sobre a maioridade do leigo na Igreja, sobre a configuração plural da fé cristã, hoje na agenda da reflexão teológica. O anseio de povos e etnias de viver sua fé sem terem de renunciar às próprias identidades culturais encontra-se também, em grau não tão acentuado, nos indivíduos e grupos menores no interior da sociedade pluralista.

 

Trata-se não apenas de contextos vitais diversos, mas da correspondente linguagem e, sobretudo, das práticas de vida aí presentes. Dada a íntima conexão entre visão teórica e comportamento prático, torna-se sumamente difícil simplesmente viver a fé cristã prescindindo do próprio contexto vital. Além disso, o sujeito moderno, que goza de amplo espaço de liberdade para se informar, fazer suas opções e escrever sua biografia, não aceita mais receber pronta, por parte dos que não conhecem seu meio e não experimentam seus desafios, a configuração concreta que deve dar à sua vida de fé.

 

 

Nunca a humanidade foi tão sensível aos direitos das minorias, outrora simplesmente ignoradas, nem tão respeitosa diante do diferente, visto com desconfiança no passado. Embora reconheçamos que nem tudo pode ser aceito e aprovado, sem dúvida respiramos hoje um ar diverso. Naturalmente a complexa sociedade moderna, com sua enorme oferta de sentidos, representa um ganho para o indivíduo construir a própria biografia conforme lhe pareça melhor. Mas implica também um pesado ônus, ausente nas sociedades tradicionais, de dever ele mesmo escolher, entre os elementos oferecidos generosamente pela sociedade, aqueles componentes que constituirão a sua personalidade e a sua identidade social.

 

A diversidade é, portanto, ambígua. Não está aí para ser aceita sem mais, como um dado inevitável da atual sociedade. Impõe um trabalho de discernimento — pois pode estar sendo produzida artificialmente pelos manipuladores da opinião pública em vista de seus interesses ou pelos produtores de bens de consumo para aumentar suas vendas. Nesse caso, a diversidade se constrói na superfície da funcionalidade, no solo da racionalidade utilitarista. É uma diversidade sem raízes, instável, descartável, frágil. Aqui, entretanto, nos referimos sempre a outra diversidade. Ela brota de fontes de sentido, corretas ou não — não vem ao caso —, que se defrontaram com questões significativas propostas pelo ser humano. Hoje tais fontes não só são múltiplas na sociedade, como também se apresentam em diversas versões adaptadas à formação cultural dos receptores.

 

O necessário diálogo

 

 

Fotos: Reprodução/Google

 

A eclesiologia de comunhão presente no Concílio Vaticano II, que retomou uma compreensão da Igreja vigente no primeiro milênio, fornece a base teológica que urge uma nova maneira de se relacionar no interior da Igreja. Poderíamos caracterizá-la numa palavra: diálogo. Este implica que ambas as partes dialogantes saibam escutar uma a outra, aprender uma da outra, aceitando-se em sua diferença e buscando comunitariamente a verdade. O diálogo pressupõe uma consciência comum em seus interlocutores, a saber: nenhum deles tem a posse plena da verdade.

 

É fundamental em nossos dias, sem cair num relativismo que evoca o niilismo, que todos reconheçam ter acesso à verdade sempre por meio de uma linguagem, de um contexto e de uma perspectiva. Desse modo não se nega que conheçam a realidade, mas, que a conheçam plenamente — de modo que excluam qualquer palavra posterior sobre ela ou qualquer leitura diferente da sua. A realidade não se entrega passivamente, mas sempre é captada no interior do horizonte de quem a conhece, nos limites de seu quadro interpretativo, em seu contexto linguístico e nas coordenadas de sua problemática. Sem esse pressuposto dificilmente haverá autêntico diálogo.

 
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Outra condição para o diálogo verdadeiro na Igreja vem a ser a busca sincera da verdade de Cristo e do Reino de Deus. O diálogo aparece aqui como um serviço, uma colaboração do indivíduo ou de um grupo à missão da Igreja de proclamar e realizar a salvação trazida por Jesus Cristo. Para isso é fundamental que os interlocutores sejam realmente pessoas livres, que buscam somente cumprir a vontade de Deus para determi­nada situação ou procuram apenas captar e expressar a ação do Espírito em seus corações. Qualquer motivação espúria — autoafirmação, consciência de superioridade, defesa da própria opinião, destruição do outro que me ameaça por ser diferente, aumento de prestígio e de poder, só para citar algumas — destrói o diálogo.

 

Fonte: com informações do Portal Vida

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