07 de Maio de 2026

NOTÍCIAS
Especial Mulher - 07/05/2026

O modelo grita: a perpetuação dos estereótipos de gênero começa na infância

Compartilhar:
Foto: ReproduçãoGoogle

Não há mágica que transforme os padrões nocivos dos estereótipos de gênero aprendidos na infância em comportamentos saudáveis na vida adulta

Muito se fala de diversidade e inclusão no mundo adulto, especialmente em questões que envolvem trabalho — diferença salarial, evolução na carreira, cargos e funções. Com relação a aspectos mais chocantes, como a violência sexual, há um abismo ao se comparar, por exemplo, o crime de estupro: as vítimas do sexo masculino representaram 12,3% (contra 87,7% do sexo feminino), conforme o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2025.

 

Segundo a ONU, estamos a séculos de distância de alcançar a igualdade de gênero, mesmo com a criação de leis e políticas estabelecendo cotas, metas de igualdade, ampliação da licença paternidade, visibilidade do trabalho do cuidado etc. Na corrente de quem defende a insuficiência dessas medidas, destaca-se que, além dos recordes que vêm sendo batidos dos subestimados números de estupro e de feminicídio, pela primeira vez na história, o machismo foi maior entre os mais jovens, conforme constatou a pesquisadora Laura Bates.

 

Na mesma linha, estudo recente da Ipsos verificou que 31% dos homens da Geração Z acreditam que a esposa deveria obedecer seu marido (comparado com 13% dos homens da geração mais antiga chamada de Baby Boomer). Ou seja, passou da hora de mobilizar a base piramidal da humanidade para gerar mudanças: as crianças! Afinal, é na infância que as habilidades sociais, emocionais, cognitivas e linguísticas são desenvolvidas.

 

Veja também

 

Ser solteiro entre os 40 e 50 anos pode fortalecer a independência emocional, aponta novo estudo; entenda

Por que o dia do trabalhador é feriado?

 

Durante essa fase, encontramos os seguintes cenários:

 

 

(i) Educação infantil: o percentual de docentes do sexo feminino foi de 96,1%, segundo o censo escolar de 2025. Como referência, pior do que a proporção de homens no cargo de CEO — de 94%, conforme pesquisa da Bain & Company. (ii) Precarização das profissionais do cuidado doméstico e infantil: 91,1% dos empregados domésticos são mulheres e somente 17,1% são registrados. (iii) As licenças maternidade (4 meses) e paternidade (5 dias) são absolutamente desproporcionais e as redes de apoio para cuidar da(s) criança(s) são predominantemente femininas e não remuneradas (mãe, sogra, tia etc.).


Ultrapassando a herança cultural, um argumento que poderia justificar esse quase monopólio feminino na educação infantil seria o instinto supostamente materno. Supostamente porque, conforme descontruído no ensaio “Maternal Instinct Is a Myth That Men Created” publicado pelo The New York Times, pesquisas demonstram que a associação do instinto como algo inerente, automático e exclusivamente feminino não tem nenhuma base científica. Complementando, o The Guardian em “The Big Idea: Why the Maternal Instinct Is a Myth” esclarece que o cérebro parental se origina da experiência, bastando viver a parentalidade para possibilitar seu surgimento.

 

Um ponto delicado a ser tocado é o receio envolvendo o abuso sexual infantil. Ele sequer deveria existir, mas é um temor real. Sobre essa questão, algumas reflexões podem ser feitas: conscientização é a melhor forma de prevenção. Não falar sobre esse assunto e achar que as crianças estão protegidas pela ausência de contato masculino pode ser uma amarga ilusão. A premissa de que essa violência é praticada exclusivamente por homens é ingênua e mesmo misândrica. Ainda que a proporção e a intensidade sejam diferentes, é um crime que pode ser cometido por qualquer pessoa. Ademais, não é na escola que essa violência costuma acontecer. A residência representou 67,9% dos locais de ocorrência de estupros de vulneráveis (que inclui crianças menores de 14 anos). O local que deveria ser o de maior segurança para uma criança é o mais inseguro, sendo a escola um ambiente relevante de assistência aos menores.

 

Educar é essencial porque não há local seguro e abusador não tem gênero.

 

 

Fato é que, independentemente da justificativa e de ela ser ou não pertinente, no âmbito do aprendizado pelo exemplo e/ou repetição, o estereótipo feminino é historicamente perpetuado nos trabalhos do cuidado, do ensino e do acolhimento, os quais, por sua vez, são realizados de forma precária, com baixa ou nenhuma remuneração (o que é ainda mais discrepante sob a perspectiva racial). Diante da manutenção dessa conjuntura, meninos e meninas continuam tendo experiências diferentes na sala de aula pré-primária, mesmo tendo paridade no acesso ao ensino, conforme constatado pela UNICEF.

 

Como consequência, já aos 6 anos, as meninas se tornam menos propensas do que os meninos a associar brilhantismo com seu próprio gênero, bem como já começam a evitar atividades ditas como brilhantes, conforme evidenciado no artigo “Gender stereotypes about intellectual ability emerge early and influence children’s interests” publicado pela revista Science. Em outras palavras, os estereótipos de gênero influenciam desde cedo os interesses das crianças e limitam suas carreiras. O vídeo Redraw the Balance ilustra bem essa situação. Isso explica por que, mesmo em ambientes patriarcalmente femininos, como o de uma cozinha, 94% dos top chefs sejam homens (Chef´s Pencil) – estrelados e prestigiados!

 

Fotos: ReproduçãoGoogle

 

Na outra ponta, também é fundamental incluir meninos e homens no mundo do coração. Pessoas do sexo masculino são mais associadas à alexitimia — dificuldade de nomear as emoções (conforme matéria do The Psychology Group). Como resultado, essa dificuldade pode se estender na diferenciação das emoções, bem como na forma de expressá-las. Talvez isso ajude a explicar por que 95% dos homicídios no mundo foram cometidos por homens (Global Study on Homicide 2013) e 93,5% das pessoas condenadas por abuso sexual nos EUA eram do sexo masculino (Sentencing Commission — dados de 2024). No Brasil, 93,4% dos adolescentes inseridos ao sistema socioeducativo nas modalidades de restrição e privação de liberdade são meninos (Sinase de 2025).

 

Curtiu? Siga o Portal Mulher Amazônica no Facebook, Twitter e no Instagram.
Entre no nosso Grupo de WhatApp e Telegram.
 

Vale lembrar que os casos Epstein, João de Deus e Saul Klein reforçam que não há distinção de raça ou classe social para abusador. Além disso, não se pode confundir o exercício ilimitado e desumanizado do poder com doença mental ou distúrbio psiquiátrico. Embora soe primitivo, parece imprescindível reconhecer que o homo sapiens ainda precise evoluir para homo affectus. As crianças não nascem donas de casa, cuidadoras ou agressoras. Educar envolve proteger — o que é diferente de desresponsabilizar ou alienar. Entender, reconhecer e desconstruir estereótipos de gênero pode ser a chave para quebrar a transmissão intergeracional desses padrões tão prejudiciais. Meninos e meninas deveriam ser livres para serem o que quiserem, inclusive sensíveis e brilhantes!

 

Fonte: com informações da Revista Mariana Kotscho 

DEIXE SEU COMENTÁRIO

Nome:

Email:

Mensagem:

LEIA MAIS
Fique atualizada
Cadastre-se e receba as últimas notícias da Mulher Amazônica

Copyright © 2021-2026. Mulher Amazônica - Todos os direitos reservados.