As crianças de uma escola na zona rural estão produzindo um jornal e um programa de rádio e falam o que estão aprendendo
Na Zona Rural de Tefé, região central do Amazonas, duas professoras indígenas estão usando a comunicação para suprir as dificuldades naturais da educação pública no Brasil. Na escola municipal rural indígena Santa Cruz, educadores e alunos estão produzindo um jornal mural e um programa de rádio que é transmitido emissora comunitária local. A escola fica na comunidade indígena rural Nova Esperança da Barreira de Baixo, na margem direita do rio Solimões.
A produção desses informativos tem mobilizado as crianças em um processo de desenvolvimento pessoal que inclui desde as primeiras noções de informática até o conhecimento da própria cultura, sua identidade e tradições. Os resultados positivos podem ser comprovados com os próprios alunos. Mérito das professoras Nayara Ribeiro (Kambeba) e Hemily Marinho (Ticuna).
O programa da rádio surgiu de uma preocupação muito grande com a aprendizagem. Eles tinham muita dificuldade com a leitura, com a escrita, com argumentação, tinham muita vergonha, eram muito tímidos. Então, era preciso fazer alguma coisa para que os alunos se soltassem, aprendessem com mais facilidade e se sentissem motivados a aprender, afirma a professora Nayara Ribeiro, que é indígena da etnia Kambeba.Batizado de “Iawara”(onça, na língua kokama), o programa torna o aprendizado uma viagem gostosa pelo conhecimento da natureza, da cultura e das ciências.
Veja também

Conheça mulheres que se destacam no mercado manauara: Jornalismo
Cacique do Pará recebe prêmio por empreender e conservar na Amazônia
(859).jpg)
Um assunto que poderia ser encarado como obrigação decorativa passa a ser uma aventura de descobertas. Experiência real para o Wendel Pinheiro, de 9 anos. Ele é o apresentador do programa. “Eu gosto muito (do programa). Eu aprendo e isso é muito importante para todo mundo”, diz o radialista mirim.
Além da dinâmica interessante do processo de criação de um programa, o cenário natural da comunidade, que fica na margem direita do rio Solimões, deixa o aprendizado incomparável com os ambientes feitos de concreto e ambientalizado com aparelhos de ar-condicionado. Na comunidade, as reuniões de pauta e criação podem ser feitas simplesmente embaixo das sombras das árvores.

A gente divide as tarefas de acordo com o programa. Um faz a parte das piadas, outro faz a parte dos recadinhos. A entrevista é um momento muito especial. A gente traz professores, lideranças indígenas. E vamos discutindo temas que são importantes pra eles e pra comunidade. E, hoje, eles mesmos já sabem conduzir o programa, completa a professora Nayara (22 anos).
No corredor de entrada da escola Santa Cruz, um quadro de aviso expõe o trabalho coletivo da equipe do jornal “Uruma”, que na língua indígena quer dizer pato. A publicação segue o formato jornal mural, que é impresso em folhas de papel ofício, com textos e fotos. Mas muito mais do que a parte gráfica, a produção das crianças, sob supervisão dos professores e professoras, diz muito do que pensam e esperam do mundo em que vivem.
O dia da árvore é muito especial para o Brasil e também a gente tem que ajudar as arvores porque se a gente não cuidar das arvores, elas vão morrer e também as frutas vão sumir, diz Shayene dos Santos, repórter mirim, de 11 anos.Quando criou o jornal, a professora Hemily tinha em mente já definidos os objetivos do trabalho.

Fotos: Reprodução/Brasil Norte Comunicação
Nosso trabalho (no jornal) consiste na alfabetização e fortalecimento cultural indígena por meio da exposição dos trabalhos de pesquisa sobre a história da aldeia, elementos culturais das línguas Kokama e Ticuna, além de grafismos produções textuais, feitos durante a aula, diz a professora.A edição tem o ingrediente principal de expor o pensamento das crianças que participam do projeto. Além de aprenderem a transformar em texto o que estão pensando, os alunos também praticam a informática, noções de fotografia e construção de texto.
O humor, a visão crítica da realidade, a opinião são componentes educativos que formam a prática de produzir um jornal desse tipo, em um ambiente escolar, de forma coletiva.O trabalho tem apoio dos outros professores, assim como da direção da escola. Um esforço reconhecido e recompensado com o desenvolvimento das crianças. A iniciativa das professoras também tem o apoio da Secretaria Municipal de Educação de Tefé (SEMEC), por intermédio do secretário Marcus Lúcio, que fornece papel para a confecção do informativo.
“Tá sendo muito proveitoso, onde as crianças estão desenvolvendo o aprendizado”, avalia a gestora da escola, professora Nayandra Boaventura. Para o professor bilíngue Humberto Lomas, o jornal Uruma é uma forma dos alunos não perderem sua cultura. “É onde eles começam a resgatar sua cultura, conhecendo a realidade deles. Com esse projeto, eles podem conseguir falar mais e traduzir na língua deles, afirma o professor.
Fonte: com informações do Portal Brasil Norte Comunicação
Copyright © 2021-2026. Mulher Amazônica - Todos os direitos reservados.