O avanço da soja trouxe riqueza para alguns e veneno para muitos.
Nos últimos 10 anos, o Maranhão viu um aumento alarmante no uso de agrotóxicos, especialmente devido à expansão do agronegócio da soja. Dados analisados pela InfoAmazonia, com base em registros do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), mostram que o consumo de pesticidas no estado cresceu 191,5% entre 2013 e 2022, tornando o Maranhão o quarto maior comprador de agrotóxicos da Amazônia Legal e o segundo maior consumidor no Nordeste.
A realidade enfrentada pela população exposta a esses produtos químicos é alarmante. Relatório da Comissão Pastoral da Terra (CPT) revelou que, no primeiro semestre de 2024, o Maranhão concentrou 85% dos casos de intoxicação por agrotóxicos em comunidades no Brasil. Das 182 ocorrências registradas no país, 156 foram no estado.
Em 2022, o Maranhão bateu um recorde preocupante ao adquirir 15.649,67 toneladas de agrotóxicos, quase o dobro do registrado em 2013 (8.169,65 toneladas). Esse crescimento acompanha a explosão da soja, cujo plantio aumentou 94,84% no estado, alcançando 1.099.871 hectares no mesmo ano.
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Entre os municípios mais afetados está Açailândia, localizado a 560 km de São Luís. A cidade está entre as dez com maior produção agrícola do estado, onde a soja representa quase 65% da produção local, segundo dados da Secretaria de Agricultura do Maranhão. No entanto, essa expansão tem um custo alto para as comunidades rurais, que convivem com a pulverização aérea de venenos.
A Federação dos Trabalhadores da Agricultura (Faetema) identificou 33 municípios maranhenses com uso intenso de agrotóxicos via pulverização aérea, afetando diretamente 218 territórios de comunidades tradicionais, como ribeirinhos, indígenas, quilombolas e agricultores familiares. Adriana Oliveira, moradora do assentamento Novo Oriente, em Açailândia, descreve o cotidiano de quem vive sob o impacto dos agrotóxicos. “Dormimos com veneno, acordamos com veneno, comemos com veneno. O veneno está na nossa água, no ar, em tudo”, denuncia.

Ela relata que as pulverizações ocorrem durante a noite e nas primeiras horas da manhã, atingindo indiscriminadamente casas, escolas e quintais. O impacto vai além dos adultos: uma criança da comunidade já teve contato direto com o pesticida. Ela viu um drone pulverizando e achou bonito, mas acabou ficando queimada pelo veneno, conta Adriana. A pulverização por drones tem se tornado cada vez mais comum, aumentando a exposição da população aos produtos químicos utilizados nas lavouras.
Em 2023, movimentos sociais tentaram barrar a pulverização aérea de agrotóxicos em Açailândia, apresentando um projeto de lei à Câmara Municipal. A proposta, no entanto, enfrentou forte resistência e não avançou.

Fotos: Reprodução/Google
A iniciativa partiu de organizações como o Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais, Justiça nos Trilhos, Casa Familiar Rural e Centro de Defesa da Vida e dos Direitos Humanos. Mesmo com a realização de uma audiência pública, nenhum dos 17 vereadores compareceu, exceto o parlamentar Denis Pereira (PT).
“Ficamos muito frustrados porque esperávamos que pelo menos cinco vereadores estivessem lá com a gente”, lamenta Adriana Oliveira. Apesar dos obstáculos, as organizações continuam mobilizadas para debater o tema e buscar apoio em outras esferas. Enquanto o agronegócio segue crescendo, comunidades tradicionais, agricultores familiares e moradores das zonas rurais do Maranhão vivem um cenário de contaminação
e insegurança. A pulverização aérea segue sem fiscalização eficaz, e os casos de intoxicação se acumulam.
O avanço da soja trouxe riqueza para alguns e veneno para muitos. No Maranhão, a luta pelo direito a um ambiente seguro e livre de agrotóxicos continua – mas, por enquanto, as comunidades seguem convivendo com o veneno no dia a dia.
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