Conselho Regional de Medicina do Amazonas (CREMAM) falhou em detectar atuação de impostora que atendeu crianças com cardiopatias graves e receitou medicamentos controlados.
O escândalo envolvendo Sophia Livas de Morais Almeida, de 32 anos, que por meses se apresentou como médica especialista em cardiopatia infantil sem jamais ter se formado em Medicina, expôs fragilidades gritantes no sistema de fiscalização do exercício profissional na área da saúde. O caso lança holofotes sobre a atuação do Conselho Regional de Medicina do Amazonas (Cremam), que, até o momento, não havia recebido nenhuma denúncia formal – mesmo diante de publicações explícitas, atendimento a pacientes, prescrição de medicamentos controlados e uma presença digital ostensiva com jaleco e estetoscópio.
A ausência de uma atuação mais proativa do Cremam levanta sérias dúvidas sobre os mecanismos de controle da instituição. Afinal, como alguém sem registro profissional pôde se infiltrar em projetos médicos, atender crianças com doenças graves, prescrever medicamentos e emitir atestados médicos – alguns dos quais levaram até à demissão de trabalhadores – sem que o órgão sequer investigasse ou interviesse?
É inaceitável que um sistema criado justamente para garantir que apenas profissionais habilitados exerçam a Medicina no Brasil falhe em detectar uma impostora com esse grau de exposição. O Cremam, ao limitar-se a uma postura reativa — afirmando que “não recebeu denúncia formal” — revela um preocupante distanciamento da realidade digital e social na qual esses crimes se manifestam hoje.
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Com jaleco, Sophia Livas se passava por médica em atendimentos. A atuação ilegal durou
meses sem qualquer registro no CRM
Sophia Livas se apresentava publicamente como médica, mantinha redes sociais com vídeos e imagens em ambiente hospitalar, participava de podcasts com linguagem técnica e, sobretudo, tinha acesso a receituários e documentos médicos. Tudo isso sem levantar qualquer alerta por parte do Conselho, que, segundo especialistas, deveria manter fiscalização ativa, especialmente em casos que envolvem a saúde de populações vulneráveis como crianças e pessoas neurodivergentes.
Enquanto o Cremam afirma que “repassa informações às autoridades sempre que há indícios de exercício ilegal da Medicina”, o caso de Sophia mostra que, em muitos contextos, os indícios estão às claras – basta observar. A omissão em agir preventivamente pode ter permitido danos físicos, psicológicos e até legais a diversos pacientes e seus familiares.

Sede do Cremam, órgão responsável por fiscalizar o exercício da medicina no estado. Mesmo
com a exposição pública da falsa médica, o Conselho não identificou a fraude
(Foto: Reprodução/Google)
A atuação de Sophia, agora desmascarada pela Polícia Civil, também aponta para a necessidade urgente de uma atualização dos métodos de fiscalização. O uso de redes sociais por falsos profissionais, o compartilhamento de conteúdo médico falso e a facilidade em acessar carimbos e jalecos apontam para falhas sistêmicas que não podem mais ser ignoradas.
Diante da gravidade do caso, a sociedade civil, instituições médicas e os próprios profissionais honestos têm o direito – e o dever – de cobrar do Cremam uma revisão imediata de seus protocolos. É preciso criar mecanismos mais eficazes, transparentes e ativos de fiscalização, inclusive com monitoramento digital, verificação de identidade e ações educativas junto à população para checagem de registros profissionais.

Em ambiente hospitalar, Sophia Livas simulava exaustão típica da rotina médica para reforçar
sua falsa identidade. Apesar da encenação, ela nunca foi registrada como médica e sua atuação
colocava vidas em risco (Fotos: Reprodução/Instagram).
A prisão de Sophia Livas não deve encerrar o debate, mas sim iniciá-lo. O silêncio e a lentidão institucional custam caro – e, no campo da saúde, podem custar vidas.
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