Os números estão aí: não há como dourar a pílula
O Brasil continua assistindo, quase diariamente, ao assassinato de mulheres pelo simples fato de serem mulheres. Não se trata apenas de estatísticas frias ou de números dispersos em relatórios oficiais. Trata-se de vidas interrompidas, famílias destruídas, crianças órfãs e de uma sociedade que ainda falha em proteger suas mulheres mesmo diante de leis, campanhas educativas e políticas públicas construídas ao longo de décadas.
Dados recentes mostram que 3.642 mulheres e meninas foram assassinadas no Brasil, numa média próxima de dez mortes por dia. Grande parte desses crimes está relacionada à violência doméstica e é enquadrada como feminicídio. O levantamento reúne informações do Atlas da Violência, produzido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
O mais alarmante é perceber que, enquanto os índices gerais de homicídios apresentam queda em algumas regiões do país, o feminicídio mantém uma constância assustadora. Isso revela uma ferida estrutural que ultrapassa o campo da segurança pública. O problema está enraizado na cultura da misoginia, na naturalização da violência contra a mulher e na permanência de relações marcadas pelo controle, pela posse e pelo silenciamento feminino.
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Durante entrevista ao programa Cidadania, da TV Senado, a presidente do Instituto Viva Mulher, Lúcia Bessa, chamou atenção para uma realidade dura: as falhas na rede de atendimento, a prevenção insuficiente e o descumprimento de medidas protetivas continuam deixando milhares de mulheres vulneráveis. Segundo ela, o feminicídio não nasce no momento do assassinato. Ele é resultado de uma sequência de violências físicas, psicológicas, patrimoniais e emocionais que, muitas vezes, já haviam sido denunciadas anteriormente.
A declaração de Lúcia Bessa expõe uma verdade que o Brasil ainda reluta em encarar: muitas mulheres morrem depois de pedir ajuda. Em diversos casos, o Estado chega tarde demais. Medidas protetivas não são fiscalizadas adequadamente, delegacias especializadas ainda são insuficientes em inúmeras cidades e o atendimento humanizado continua distante da realidade de muitas vítimas, especialmente nas periferias, nas comunidades ribeirinhas, nas áreas indígenas e nos interiores da Amazônia.
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O problema também revela profundas desigualdades sociais e raciais. Mulheres negras seguem sendo as maiores vítimas da violência letal de gênero no país. Em regiões mais pobres, o acesso à justiça e aos serviços de proteção é ainda mais limitado. Em muitos contextos, denunciar significa correr mais riscos, enfrentar dependência financeira, ameaças e abandono institucional.
Além disso, especialistas alertam que o avanço do discurso de ódio contra mulheres nas redes sociais e a banalização da violência simbólica fortalecem ambientes propícios para agressões reais. A violência começa no insulto, no controle emocional, na humilhação cotidiana, no medo constante imposto às mulheres dentro das próprias casas.
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O lançamento do Pacto Nacional Brasil de Enfrentamento ao Feminicídio, articulado entre os Três Poderes, surge como tentativa de resposta mais ampla ao problema. O pacto prevê integração entre segurança pública, justiça, assistência social e saúde, além do fortalecimento de canais como o Ligue 180.
Mas especialistas e movimentos sociais concordam que somente leis mais rígidas não bastam. É necessário investir em educação, autonomia financeira feminina, acolhimento psicológico, políticas públicas permanentes e transformação cultural profunda. Combater o feminicídio significa também enfrentar o machismo estrutural presente dentro das instituições e da própria sociedade.
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Cada mulher assassinada representa um fracasso coletivo. Quando uma vítima é ignorada após denunciar, quando uma medida protetiva não é cumprida, quando sinais de violência são tratados como “problema de casal”, toda a sociedade contribui para manter esse ciclo.
Posicionamento do Portal Mulher Amazônica
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Fotos: Reprodução
O Portal Mulher Amazônica reafirma seu compromisso inegociável com a defesa da vida das mulheres. Não é mais possível tratar o feminicídio como um dado comum da realidade brasileira. Cada número carrega um nome, uma história, uma família e sonhos interrompidos pela violência. Defender as mulheres é defender dignidade, justiça social e direitos humanos. É urgente fortalecer as redes de proteção, ampliar políticas públicas efetivas e romper definitivamente com a cultura do silêncio que ainda cerca tantas vítimas.
O Portal Mulher Amazônica seguirá utilizando a comunicação como instrumento de conscientização, denúncia e transformação social, dando voz às mulheres da Amazônia e de todo o Brasil que lutam diariamente pelo direito mais básico de todos: o direito de viver.
Fontes:
TV Senado – Feminicídio: aumentam números de casos no país
Secretaria de Comunicação Social – Pacto Nacional Brasil contra o Feminicídio
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