Com sua prosa firme e sensível, Myriam Scotti não apenas escreve sobre a Amazônia
A Amazônia que habita o imaginário do Brasil e do mundo, exuberante e exótica, ganha novos contornos — mais densos, mais reais — pelas mãos da escritora, crítica literária e mestre em Literatura, Myriam Scotti.
Em seu novo livro “Sol abrasador prepara solo fértil” (editora orlando, 2025), a premiada autora natural de Manaus propõe um mergulho visceral em histórias marcadas por dor, coragem, memória e resistência, revelando a floresta e suas cidades muito além dos estereótipos turísticos ou das manchetes apressadas.
Com uma escrita que alterna lirismo e contundência, Myriam reúne personagens fortes, muitas vezes silenciadas, em contos que se passam entre seringais, becos urbanos e margens esquecidas. Seus personagens — seringueiros, mães solo, velhos soldados da borracha, migrantes e filhos da periferia manauara — têm voz própria, marcada por afetos, perdas e uma inabalável dignidade. “A floresta é cenário, mas também é personagem.
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O mesmo sol que aquece, também oprime. E Manaus, para mim, não é pano de fundo, é ventre”, diz a autora, que lança sua obra em sessão de autógrafos no dia 19 de junho, às 15h, no estande da editora orlando, durante a Feira do Livro de São Paulo, dentro do espaço do projeto Escreva, Garota! Já no dia 21, o lançamento acontece na Livraria Sentimento do Mundo, às 16h, em um bate-papo com a pesquisadora Carolina Ferreira, doutoranda da PUC-SP.
Entre a poesia da resistência e a denúncia das cicatrizes

Apesar de ser sua estreia oficial no gênero conto, “Sol abrasador prepara solo fértil” nasce robusto. A autora já foi vencedora do Prêmio Literário de Manaus (2020), finalista do Pena de Ouro, teve obra selecionada no PNLD e é presença respeitada no circuito literário nacional. Seus textos dialogam com grandes nomes como Milton Hatoum e João Ubaldo Ribeiro, mas com uma perspectiva interiorana, onde o afeto convive com a denúncia.
No conto "O Soldado da Borracha", Myriam recupera memórias de trabalhadores esquecidos pela história oficial. Já em "Terra Prometida", a narrativa perpassa a frustração de quem migrou em busca de futuro e encontrou abandono. “São histórias que escrevi ao longo de sete anos, como quem cultiva uma terra antes de semear. O Direito me deu a lente para enxergar injustiças; a Literatura me ensinou a contá-las sem perder de vista a humanidade”, afirma.
Mulheres reais, Amazônia viva

Com apresentação da jornalista e escritora Bianca Santana e orelha da crítica literária Thaís Campolina, o livro já nasce ancorado em leituras potentes. Santana destaca o compromisso de Myriam em não exibir a Amazônia como vitrine, mas como vivência. “Suas personagens são atravessadas pela desigualdade sem deixar de sentir.
São mulheres reais, inteiras, que sustentam mundos à custa dos próprios desejos.”
Já Thaís Campolina observa como a cidade de Manaus atua na vida das personagens de formas distintas, a depender do tempo, da origem e do gênero. “Ora símbolo de esperança no ciclo da borracha, ora miragem frustrada de uma terra prometida que não se cumpriu.”
Raízes que escrevem

Fotos: Reprodução/Internet
Nascida em 1981, Myriam Scotti é filha da Amazônia e de sua multiplicidade. Começou a escrever ainda criança, mas foi após a maternidade que publicou crônicas sobre esse novo momento da vida, em um blog pessoal. A escrita virou profissão em 2014, e desde então a autora não parou. Já publicou o romance “Terra Úmida”, o juvenil “Quem chamarei de lar?”, e o livro de poemas “Receita para explodir bolos”. Agora, se volta para dois romances inéditos: um histórico e outro contemporâneo.
“Eu escrevo porque não consigo não escrever. A literatura é minha forma de lutar, de amar e de lembrar quem somos”, diz. Com “Sol abrasador prepara solo fértil”, Myriam Scotti não apenas revela os subterrâneos da Amazônia — ela planta neles sementes de memória, de justiça e de beleza que não se curva. Maria Santana, idealizadora do Portal Mulher Amazônica e do Ela Podcast, fez questão de celebrar o lançamento da obra e o compromisso da escritora com uma representação verdadeira da região:
“Parabenizo Myriam Scotti pela escrita certeira, que toca fundo e fala com clareza sobre a Amazônia que muitas vezes o Brasil se recusa a ver. Seu livro é necessário, porque traz à tona o que há de mais humano, forte e silenciado em nossa terra. Ler Myriam é compreender que resistir também é narrar.”
Com sua prosa firme e sensível, Myriam Scotti não apenas escreve sobre a Amazônia — ela a escreve desde dentro, como quem conhece o peso do calor, a força das águas e a urgência das histórias que ainda precisam ser contadas.
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