Senador dividiu palco com governador Tarcísio de Freitas e ministro Jorge Messias (AGU), que representa Lula; apóstolo organizador do evento orientou autoridades a evitarem 'discursos políticos' em ano eleitoral
A Marcha para Jesus, principal evento evangélico do país, teve início por volta das 10h15 deste feriado de Corpus Christi em São Paulo. Apesar de uma orientação da organização do evento para que discursos políticos fossem evitados em ano eleitoral, o senador e presidenciável Flávio Bolsonaro (PL) fez um discurso no qual afirmou que iria "expulsar" o "mundo do mal" do governo. — Vamos orar pelo nosso Brasil. Essa guerra é espiritual, e hoje é a maior resposta que nós podemos dar ao mundo do mal, que vai ser expulso desse governo do Brasil nesse ano. Em nome do senhor Jesus, amém — disse Flávio.
Representante do governo Lula, o ministro da advocacia-geral da União (AGU), Jorge Messias, chegou cedo, acenou a fiéis e gravou vídeo ao lado do apóstolo Estevam Hernandes, organizador do evento. A partida do trio principal, contudo, só ocorreu com a chegada de Flávio, acompanhado do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), do prefeito Ricardo Nunes (MDB) e dos deputados federais Sóstenes Cavalcante e Guilherme Derrite, este candidato ao Senado no estado.
Apesar do ano eleitoral, existia a expectativa de discursos mais amenos nesta edição do evento. Flávio tem procurado se distanciar da imagem de radical herdada do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, e não deve protagonizar discurso na linha do adotado por ele há quatro anos. Na ocasião, Jair definiu o pleito como uma "guerra do bem contra o mal" e afirmou ser "contra o aborto, a ideologia de gênero e a liberação das drogas", apostando na pauta de costumes que ressoa em públicos conservadores.
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— Não haverá discursos políticos, eu tenho orientado a todos nesse sentido. O nosso programa será a fala do governador e do prefeito e uma oração por todos. Caso haja fala, não será com teor político — adiantou o apóstolo Estevam Hernandes, líder da Igreja Apostólica Renascer em Cristo e responsável pela organização da Marcha para Jesus. Flávio também arriscou cantar uma música pouco depois, agora posicionado na parte de trás do trio, ao lado do prefeito, e falhou em alguns versos. Tarcísio foi ao encontro da dupla, e eles então tiraram uma foto para as redes sociais.
No palco principal, Messias manteve postura discreta e ficou distante de Flávio e Tarcísio. O governador fez um breve discurso no meio da caminhada em que declarou que "São Paulo é do Senhor Jesus Cristo". A maior parte do público celebrou a fala, inclusive Hernandes. Mas a reportagem também viu um homem protestar contra a participação dele e de Flávio. Nunes falou a seguir, mantendo o protocolo e sem direcionamento político explícito.
Rejeitado a uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF) pelo Senado mesmo com apoio de líderes evangélicos, Messias comparece pelo quarto ano seguido no lugar de Lula, que encerra o terceiro mandato sem participar da caminhada. O presidente costuma enviar uma carta para ser lida no palco. É a primeira vez, por outro lado, que o ministro encontra o público depois de ter a nomeação ao STF barrada pelo Senado, em um revés para o governo com a digital do presidente da Casa, Davi Alcolumbre. Lula avalia reenviar a indicação, mas a estratégia gera debate interno do ponto de vista político e jurídico.
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Pela sua proximidade com o segmento — ele frequenta a Igreja Batista desde a infância —, o chefe da AGU recebeu o apoio na empreitada de bispos com milhares de fiéis em suas congregações. Parte deles reforçaram, inclusive, o corpo a corpo final com os senadores antes da derrota histórica. Outro entusiasta da entrada de Messias na Corte era André Mendonça, ministro do STF indicado por Bolsonaro sob a credencial de "terrivelmente evangélico". A edição marca ainda o reencontro entre Flávio e Tarcísio após a operação da Polícia Civil de São Paulo contra Karina Ferreira da Gama, sócia da produtora de "Dark Horse", filme que enaltece a trajetória política de Jair Bolsonaro misturando fatos com ficção. A corporação investiga se, no contrato de R$ 157 milhões da prefeitura de São Paulo com a ONG Instituto Conhecer Brasil, presidida por ela, para instalação de pontos de wi-fi na capital, houve direcionamento de licitação, sobrepreço e desvio de dinheiro público para a obra.
Segundo apurou o GLOBO, a operação provocou incômodo nos bastidores da direita. Além de trazer de volta à pauta as polêmicas sobre "Dark Horse", que envolvem ainda uma contribuição de R$ 61 milhões do dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, a pedido de Flávio Bolsonaro, a ação da polícia mirou a gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB), responsável pelo contrato com o ICB. Nunes também participa do evento desta quinta, como costuma ocorrer todos os anos. – A operação da polícia é uma coisa que a gente não interfere. A polícia tem autonomia para fazer as suas investigações e operações. Havia uma investigação em curso, uma demanda do Ministério Público, e a polícia cumpriu essa demanda. Sempre vai ser assim. A polícia vai ser e sempre será uma instituição de Estado — afirmou Tarcísio, depois do episódio.
Um dia antes, Flávio alegou que a investigação não diz respeito ao filme, o que ainda não foi descartado pela polícia: — Eu só não quero crer que a gente está sendo vítima, mais uma vez, de uma pescaria probatória, de uma perseguição, porque, se vão fazer uma operação para investigar irregularidades em um determinado contrato, que é de um ano e meio, dois anos para trás, tudo bem, as pessoas vão ter que explicar, o que não tem absolutamente nada a ver com o filme — declarou o filho de Bolsonaro. Até o fim da semana passada, o entorno de Flávio dava como certa a ausência do senador na Marcha para Jesus de São Paulo, assim como ocorreu na edição do Rio de Janeiro. A mudança nos planos ocorreu após o anúncio, pelos Estados Unidos, da classificação do PCC e Comando Vermelho como organização terrorista, uma das bandeiras de Flávio e uma das tentativas de sua campanha para "virar a chave" e mudar a agenda.

Fotos: Maria Isabel Oliveira / O Globo
Nas últimas semanas, após a divulgação da visita de Flávio a Vorcaro, ocorreu uma espécie de "guerra fria" entre os núcleos de Flávio e Tarcísio. De um lado, o governador reforçou o distanciamento estratégico da campanha do aliado com receio de se "contaminar" com "encrencas de terceiros", nas palavras de um aliado. A postura deu resultado perante a opinião pública, segundo avaliações internas, mas gerou novos focos de reclamação no grupo bolsonarista. Do outro lado, segundo um amigo do senador que também é próximo do governador, o entorno de Flávio ficou incomodado com a falta de apoio do Tarcísio no caso. Viram nas falas de Tarcísio, nas últimas semanas, um “zagueiro que chuta a bola para a torcida, em vez de tocá-la e segurar o jogo”.
Eles não vinham se falando desde o evento de lançamento da campanha ao Senado do deputado federal Guilherme Derrite (PP), no dia 15 de maio, por falta de iniciativa de ambos. A Marcha para Jesus chega à 34ª edição em São Paulo. Considerado o maior evento evangélico do país, adota um versículo bíblico como lema e projeta a participação de 2 milhões de pessoas na caminhada de três quilômetros entre o Metrô da Luz até a Praça Heróis da FEB, próxima do Campo de Marte, acompanhada por oito trios elétricos. Após os discursos de autoridades, uma série de shows de artistas gospel, como Aline Barros e Thalles Roberto, ocorrem até o anoitecer.
Fonte: com informações da Agência O Globo
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