Essas mulheres ainda lutam contra a pressão da sociedade e pelo direito de terem acesso a métodos contraceptivos mais definitivos, como a laqueadura
Há quem tenha o sonho de viver a experiência de engravidar, carregar um bebê no ventre, cuidar do recém-nascido e ser responsável por ele para sempre com todas as delícias e as dores do caminho. Mas há também quem não sinta essa vontade. E tudo bem ou assim deveria ser. Na prática, a mulher que diz que não quer ter filho é acusada de ser egoísta, de detestar crianças e, supõe-se, está destinada a ser solitária pelo resto da vida e nunca conhecer o verdadeiro amor. “Aquelas que optam por caminhos que desse divergem são frequentemente estigmatizadas”, completa Andressa.
Algumas se dizem tão certas de não quererem filhos que chegam a procurar métodos contraceptivos mais radicais e até irreversíveis, como a laqueadura, mesmo sem uma prole e ainda com muitos anos de fertilidade pela frente. Outras ainda reclamam do acesso à cirurgia, já que existem critérios estabelecidos em lei para realização dela. Embora o texto fale em idade mínima de 25 anos ou pelo menos dois filhos para estar apta ao procedimento, há médicos que interpretam a necessidade de ambas as exigências e se recusam a fazer a cirurgia quando a mulher não tem filhos.
Para a chefe do Serviço de Reprodução Humana e Endoscopia do Hospital Materno Infantil de Brasília (Hmib), Rosaly Rulli Costa, é realmente prematuro fazer uma esterilização irreversível em pessoas tão novas. “Há cinco anos, uma pesquisa do IBGE mostrou que 55% das mulheres com idade fértil tinham laqueadura. É um índice de fecundidade baixo quando se compara ao da França, só que em um país pobre, que ainda precisa de jovens”, completa.
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Ela explica que as mulheres têm o direito de desejar ou não se projetarem na sociedade com descendentes, mas explica que existem métodos contraceptivos tão eficientes quanto a laqueadura e que permitem que elas tenham a possibilidade de mudar de ideia ao longo da vida fértil, entre eles, o DIU. “Só não pode esperar demais, porque nós temos nosso relógio biológico”, recomenda.
Uma vida sem filho, sim
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A advogada Patrícia Marx, 33 anos, nunca gostou de brincar com bonecas bebês, fingir que era mãe delas, dar “papá”, “mamá”, fazê-las dormir. Gostava mais de brincar com Barbies adultas, que tinham profissões. Durante a adolescência, já dizia que não queria ser mãe. “A minha mãe dizia que eu tinha que ser, que eu ia mudar de ideia. Eu me questionava o porquê”, relembra. Ela também não negava a possibilidade de o que a mãe dizia acontecer.
Mas não foi. Patrícia se casou cedo, aos 19 anos, ainda cursando faculdade. Enquanto o marido queria muito um filho e escondia o anticoncepcional que ela tomava diariamente, ela queria terminar os estudos, ter uma carreira. Era o pai dela quem lhe providenciava pílulas para substituir as furtadas. “Diziam que, com a pressão, eu acabaria cedendo. Mas eu achava aquilo tão injusto. A gravidez e o puerpério eram tão difíceis para a mulher e, para o homem, tão fácil”, refletia.
Depois, ainda sem vontade de ser mãe, acabou se separando. Em seguida, fez redução de estômago, o que lhe impedia de ficar grávida por um tempo. Foi quando o medo de engravidar se tornou patológico e ela desenvolveu a tocofobia. “Eu achava que meu método ia falhar. Eu fazia exame Beta HCG (exame de sangue que detecta gravidez) toda semana. Fiquei vivendo de um modo que não era saudável. Depois, reduzi bastante as relações sexuais”, conta.
Tudo isso ainda aliado à culpa que sentia por não querer ter filho. Culpa que outras pessoas colocavam nela. Começou a fazer terapia e a elaborar que aquilo não era um problema. Depois, começou a conhecer outras mulheres que, como ela, também não pretendiam ser mães. “Eu fui vendo que era normal não querer ter filho: tinha tanto mulheres quanto homens que também não queriam. Eu não era uma pessoa amarga e sem coração por isso, como diziam”, alegra-se.
Apoio na escolha
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Fotos: Reprodução/Google
Patrícia também não odeia crianças, como já foi acusada. Tem uma irmã de 9 anos, a quem ajuda a cuidar em muitos momentos, e também um sobrinho. “Eu gosto de dizer que amo tanto meu filho que prefiro que ele não nasça. Mas eu respeito muito quem o tem. Eu quero ajudar os que já estão vivos, então também faço trabalho voluntário”, afirma.
A princípio, Patrícia achava que a solução para evitar em 100% uma gravidez indesejada seria a laqueadura, já que o medo afetava até mesmo a saúde mental dela. Depois, no entanto, descobriu que o método tem uma taxa de reversão espontânea que varia de 0,5% a 1%, ou seja, maior do que o uso do DIU, o qual, quando tentou pôr, sentiu dores terríveis. A opção pra ela seria algo mais drástico: a salpingectomia — a retirada das trompas de falópio.
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Aquilo lhe deu a liberdade que sempre quis. Tal decisão foi apoiada por seu segundo e atual marido. “Ele respeita completamente minha opção e não quer filhos também. As mulheres precisam saber que é possível encontrar uma pessoa assim”, afirma. Ela criou páginas em redes sociais com informações para quem passa pelas mesmas dificuldades que ela passou. Lá, dá dicas de como proceder em caso de negativa de médicos sobre fazer o procedimento, ainda que a mulher se encaixe nos pré-requisitos. E, acima de tudo, dá apoio moral para quem ainda se sente diferente só por não querer ser mãe.
Fonte: com informações Correio Braziliense
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