07 de Maio de 2026

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Mulher em pauta - 15/08/2024

Mulheres grisalhas: liberdade ou novo aprisionamento de padrões estéticos?

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Foto: Reprodução/Google

?Como movimento social, nas comunidades e páginas nas redes sociais, percebemos que o movimento Revolução Grisalha é heterogêneo e abrangente, abarcando mulheres de todos os perfis e raças: brancas, negras, orientais, magras, gordas, homo e heterossexuai

“Que nada nos limite, que nada nos defina…Que a liberdade seja nossa própria substância, já que viver é ser livre.” A clássica frase de Simone de Beauvoir, filósofa francesa e ativista feminista que apregoa a liberdade de ser quem você quiser ser, abre uma dissertação de mestrado da USP que investiga como a moda se apropriou do movimento de resistência “Revolução Grisalha” como um produto fashion.

 

Em sua pesquisa etnográfica (estudo do comportamento, das crenças e costumes de uma comunidade), Bárbara Aires apontou que, nas últimas décadas, as mídias deram crescente espaço ao movimento, porém com conteúdos carregados de simbologias conflituosas, com embates entre os discursos de libertação dos padrões de beleza e a valorização de aparências femininas já tradicionalmente cultuadas, como a mulher magra, alta, branca e a “beleza juvenil”.

 

A pesquisa, apresentada ao Programa de Têxtil e Moda, da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP, se baseou na revisão de artigos científicos para identificar usos e significados dos termos “cabelo branco” e “grisalhos” em plataformas científicas; em discursos narrativos veiculados nas mídias televisivas e redes sociais; e na análise do conteúdo de 400 edições da revista Elle-Brasil, publicação internacional focada em moda, beleza, saúde, entretenimento. Elle é a maior publicação de moda de luxo do mundo e está presente em mais de 45 países. Temas como liberdades individuais, questões de gênero, feminismo e diversidade são frequentemente abordados em suas edições.

 

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Dos 26 artigos científicos encontrados, apenas um tratou do tema de forma positiva, associando os termos ao movimento identitário feminino que busca romper padrões estabelecidos e normativos. Os demais relacionaram cabelos brancos à negação, decadência, perdas e estereótipos, relata Bárbara Aires, autora do estudo.

 

Ao analisar os discursos midiáticos televisivos e redes sociais, Bárbara Aires identificou que eles foram fundamentais para a consolidação do movimento, principalmente com a criação de sites e grupos de apoio em redes sociais. Nesses grupos, mulheres de diversas idades narram que estão assumindo os cabelos brancos e grisalhos, em nome da defesa de uma noção libertária e naturalista do processo de envelhecimento humano.


“Como movimento social, nas comunidades e páginas nas redes sociais, percebemos que o movimento Revolução Grisalha é heterogêneo e abrangente, abarcando mulheres de todos os perfis e raças: brancas, negras, orientais, magras, gordas, homo e heterossexuais”, diz.

 

Homem grisalho é charmoso; mulher grisalha é desleixada

 

 


Parafraseando Simone de Beauvoir, Bárbara Aires relata que “os padrões de beleza são socialmente construídos e imperaram nos corpos femininos” e nesse contexto, “o cabelo branco e grisalho sempre esteve culturalmente associado a signos que remetem a velhice, decadência física e debilidade”. “O embranquecimento dos cabelos é uma prática quase que exclusivamente permitida aos homens que suscitam em sua aparência um charme ligado à maturidade, à experiência e à segurança afetiva. Já para as mulheres, os cabelos brancos e grisalhos são vistos como um sinal de desleixo, de uma velhice assexuada e desinteressante”, diz.

 

Segundo a pesquisadora, o movimento Revolução Grisalha se apresenta como uma forma de resistência a um modelo de dominação social e envolve a construção e ressignificação da aparência de mulheres que utilizam em suas narrativas identitárias o verbo assumir (e não adotar) quando se referem à adoção natural dos cabelos brancos e grisalhos. Para a professora da EACH Andrea Lopes, orientadora da pesquisa, “trata-se de uma temática de pesquisa original no Brasil” Apesar de recente, as problemáticas sociais em que o grupo de pesquisa e extensão Envelhecimento, Aparência e Significado (EAPS), da EACH se debruça são antigas, recorrentes e encontram na cultura brasileira celeiro fértil de experiências, tensões e conflitos a serem investigados. O tema do movimento da Revolução Grisalha no âmbito da moda é um deles”, diz ao Jornal da USP.

 

Produto fashion: tensão de aceitação e negação

 

 

 

Sobre as tensões e contradições verificadas nos conteúdos veiculados pela publicação, o estudo encontrou em uma mesma edição da revista matérias contendo mulheres de cabelo branco e grisalho orgânico e anúncios de tinturas de cabelos, reforçando um discurso negacionista com relação ao ato de deixar o cabelo naturalmente branco e sugerindo a necessidade de eles serem tingidos. A pesquisadora também observou que a inclusão da diversidade, com a valorização da mulher experiente na indústria da moda, não foi efetiva, uma vez que as mulheres idosas e de cabelo branco identificadas na capa, editoriais e em campanhas de moda eram brancas e magras, mantendo assim o padrão social de beleza tradicional.

 

Para a orientadora do trabalho, Andrea Lopes, nessa dinâmica de contradições, observou-se que houve a presença do cabelo branco no âmbito da moda, inclusive enquanto produto fashion, como bandeira de inclusão do envelhecimento e da velhice como debate contemporâneo. Porém, em sua opinião, é uma pauta cuja forma mantém-se marcadamente elitizada e cujo perfil já se conhece bem: de mulheres brancas, magras e altas. “E ainda, se possível, famosas e não muito velhas. Fluxos e refluxos da construção do imaginário em torno do feminino em meio a mercantilização e capitalização das aparências”, relata a professora.

 

“A última vez que tingi os cabelos foi em março de 2020. Eu tinha acabado de romper um relacionamento de quase 11 anos e mudado de apartamento, quando veio a pandemia e o home office. Eu já achava lindas as mulheres grisalhas do Instagram e ficava pensando em como eu ficaria: bonita também ou ‘velha’, ‘feia’, ‘desleixada’? Com o isolamento social, eu comecei a repensar várias coisas da minha vida e fiz um mergulho interior profundo e difícil. Nesse processo, percebi que a opinião alheia não tinha a menor importância. A decisão de parar de pintar e deixar grisalho veio disso.

 

 

Fotos: Reprodução/Google

 

Os meses de transição, quando a raiz grisalha começa a ficar mais evidente, foram difíceis, porque o cabelo fica bem marcado. Mas eu sabia que seria complicado. Seguia no Instagram várias páginas e hashtags sobre o tema e isso me ajudou a enfrentar essa fase. Nesse período, nunca ouvi diretamente nenhum comentário maldoso. Já tinha pensado a respeito e, se ouvisse, a resposta seria: “Eu gosto assim, e isso não é da sua conta”. Meus pais, irmã e sobrinhos me apoiaram. Minha irmã, nove anos mais velha, decidiu deixar grisalho também. Mas meu principal suporte era eu mesma: eu me olhava no espelho e me apoiava, rs.

 

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Atualmente a transição está completa. O mais interessante é que, no início, a gente não tem a menor ideia de como vai ficar. Completamente branco? Ou apenas uma mecha, como a Vampira, de X-Men? Minha irmã tem menos brancos do que eu. Costumo dizer que meu cabelo tem ‘luzes naturais’, porque os meus grisalhos estão naturalmente misturados aos fios castanhos. Na parte de trás, há pouquíssimos brancos, mas ao redor do rosto e no topo da cabeça tem bastante. Me pergunto como estarão daqui a 10 anos. 

 

Fonte: com informações do Portal Uol

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