19 de Abril de 2026

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Política - 27/01/2026

Mulheres e financiamento de campanha: desigualdades que começam antes das urnas

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Foto: Reprodução/Google

Ampliar o acesso das mulheres aos recursos eleitorais é ampliar vozes, agendas e futuros possíveis. Uma democracia que não financia suas mulheres não pode se dizer plenamente democrática.

A desigualdade na política brasileira não se inicia no dia da eleição. Ela nasce antes, nos bastidores das campanhas, onde o acesso desigual a recursos financeiros define quem terá visibilidade, estrutura e chances reais de vitória. Para as mulheres, esse caminho segue sendo mais estreito, mais caro e mais solitário.

 

Apesar de serem maioria da população e do eleitorado, as mulheres continuam subfinanciadas, subvalorizadas e sub-representadas nos espaços de poder. O dinheiro — elemento central para qualquer campanha — ainda circula de forma profundamente desigual.

 

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Os números confirmam: menos dinheiro, menos chances

 

 

 

Dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostram que, mesmo após a obrigatoriedade de destinação mínima de 30% do Fundo Eleitoral e do Fundo Partidário para candidaturas femininas, os homens seguem concentrando a maior parte dos recursos.

 

Relatórios da Transparência Brasil indicam que:

 

 

 

• O valor médio investido em candidaturas masculinas é significativamente maior;


• Mulheres recebem recursos mais tarde, muitas vezes quando a campanha já está em curso;


• Há concentração de verbas em poucas candidatas, enquanto a maioria disputa com orçamentos mínimos.


Na prática, isso significa menos material de campanha, menos alcance nas redes sociais, menos equipes profissionais e menor capacidade de disputar narrativas públicas.

 

Quando o dinheiro não chega: histórias reais de candidatas

 

 


A deputada federal Benedita da Silva (PT-RJ), uma das parlamentares mais experientes do país, já denunciou publicamente as dificuldades enfrentadas por mulheres negras no acesso ao financiamento partidário.

 

“As mulheres, especialmente as negras, sempre precisam provar mais. O apoio financeiro nunca chega com a mesma facilidade”, afirmou em debates sobre reforma política e igualdade racial. Já a deputada federal Tabata Amaral (PSB-SP) relatou em entrevistas que enfrentou resistência interna e desconfiança de doadores por ser jovem e mulher, mesmo com forte engajamento popular.

 

No Norte do país, a desigualdade se acentua. A deputada federal Joenia Wapichana (Rede-RR), primeira mulher indígena eleita para o Congresso Nacional, disputou sua primeira eleição com recursos muito inferiores aos de seus adversários. Sua campanha foi sustentada por redes comunitárias, apoio de movimentos sociais e pequenas doações — um exemplo de como mulheres e candidaturas dissidentes precisam compensar a falta de financiamento com esforço coletivo. Em municípios amazônicos, candidatas a vereadora e prefeita relatam campanhas feitas “no braço”, com materiais caseiros e trabalho voluntário, enquanto adversários homens contam com estruturas profissionais financiadas por partidos e empresários locais.

 

Cotas existem, mas a desigualdade persiste

 

 

 


Desde 2018, a legislação eleitoral avançou ao garantir percentuais mínimos de recursos para mulheres. No entanto, especialistas alertam que o cumprimento formal da regra não garante igualdade real.

 

Segundo cientistas políticas, os principais problemas são:

 


• Falta de transparência na distribuição interna dos recursos;


• Uso estratégico das cotas apenas para cumprir exigências legais;


• Ausência de punições efetivas para partidos que burlam o espírito da lei.


“O financiamento revela quem os partidos realmente apostam para vencer. E, na maioria das vezes, essa aposta continua sendo masculina”, explica uma pesquisadora em gênero e democracia.

 

Machismo estrutural e redes de poder

 

 

 
Especialistas em gênero e direitos humanos destacam que o financiamento desigual está diretamente ligado ao machismo estrutural da política brasileira. Homens historicamente ocuparam os espaços de poder e construíram redes econômicas e partidárias que se retroalimentam. Mulheres, por outro lado, enfrentam:

 

• Menor acesso a grandes doadores;


• Violência política de gênero;


• Ataques à vida pessoal e à maternidade;


• Dificuldade de conciliar campanha com trabalho de cuidado não remunerado.


Esses fatores tornam o financiamento não apenas uma questão técnica, mas um reflexo das desigualdades sociais.

 

Impacto direto na democracia

 

  


Estudos da ONU Mulheres e de centros de pesquisa em ciência política mostram que parlamentos com maior presença feminina aprovam mais políticas voltadas à saúde, educação, combate à violência e proteção social. Quando mulheres não conseguem se eleger por falta de recursos, a democracia perde diversidade, sensibilidade social e capacidade de responder às desigualdades reais da população. “Não se trata de favorecer mulheres, mas de garantir que a política represente a sociedade como ela é”, apontam especialistas.

 

Resistência, criatividade e campanhas coletivas

 

Deputada estadual/AM, Alessandra Campelo


Mesmo diante das barreiras, mulheres seguem disputando eleições em todo o país. Muitas constroem campanhas baseadas em:

 

• Apoio comunitário;


• Redes de mulheres;


• Mobilização territorial;


• Financiamento coletivo.


Essas estratégias mostram que, quando recebem apoio institucional real, mulheres não apenas concorrem — elas vencem e transformam.

 

Posicionamento do Portal Mulher Amazônica

 

 

Jornalista Maria Santana Souza (Fotos: Arquivo pessoal /Reprodução/Google)

 


Para o Portal Mulher Amazônica, o financiamento desigual de campanhas é uma das formas mais silenciosas e perversas de exclusão política. Ele impede que mulheres cheguem ao poder antes mesmo de terem a chance de apresentar suas ideias à sociedade. Defender financiamento justo é defender democracia substantiva. É reconhecer que igualdade formal não basta quando as condições materiais seguem profundamente desiguais.
Ampliar o acesso das mulheres aos recursos eleitorais é ampliar vozes, agendas e futuros possíveis. Uma democracia que não financia suas mulheres não pode se dizer plenamente democrática.

 
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Fontes:Tribunal Superior Eleitoral (TSE) — Prestação de contas eleitorais
Transparência Brasil — Financiamento político e desigualdades
ONU Mulheres — Participação política feminina
Entrevistas públicas e debates parlamentares
Estudos acadêmicos em gênero e ciência política

 

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