Pode ser uma missão, mas também é um ofício. Não existe um fim em ser mãe. Sempre é um começo.
Por Maria Santana Souza - A mulher se desdobra no dia a dia. Sua rotina é a não rotina. Sempre surge um desafio diário, seja no trabalho, em casa, com os filhos e filhas, na relação com a sociedade. Todo dia é dia de superação e autoafirmação como ser humano imprescindível no mundo das coisas e da natureza.
A mulher-mãe não é uma missão isolada da mulher-trabalhadora, mulher-doméstica, mulher-companheira, mulher-vizinha. Ser mãe é a representação do conjunto da sua vivência social. Ela é mãe toda hora e toda hora é hora de mãe, esteja onde estiver.
Pode ser uma missão, mas também é um ofício. Não existe um fim em ser mãe. Sempre é um começo. Os filhos crescem, se casam, têm outra família, mas o sentimento de mãe continua, se ressignificando diante da nova realidade dos filhos e filhas.
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Mãe não dorme. Ela dá um cochilo, como sempre dizia dona Veneranda, minha mãe, enquanto o último filho não chegava da rua Cecília Meirelles, em A Vigília das Mães, mergulha com ternura nesse sentimento.

"Nossos filhos viajam pelos caminhos da vida,
pelas águas salgadas de muito longe,
pelas florestas que escondem os dias,
pelo céu, pelas cidades, por dentro do mundo escuro
de seus próprios silêncios."

Mas a mãe está ali, firme, protetora, solidária, pronta para enfrentar o mundo para abraçar sua cria. Não recua, chora, sorri, sofre. É um turbilhão de emoções. E assim vai tocando a vida. Lá no fundo, sempre vive a alegria de ser mãe.

Ela virou poesia. Mexeu com a verve dos poetas do amor e da vida. Está nas tintas líricas de Carlos Drummond de Andrade, Adélia Prado, Cora Coralina, Mário Quintana, Cecília Meirelles e de tantas outras centenas de poetas que pintaram seu sentimento em letras de reconhecimento e carinho.

Na literatura, encontraremos todas as mães do mundo. De Máximo Gorki a Machado de Assis, com a forte dona Glória, mãe de Bentinho, em Dom Casmurro.

E como não se emocionar com Carolina Maria de Jesus, uma das primeiras escrituras negras do Brasil, ao ler um trecho do que escreveu na segunda década do século XX:

"Quando vejo meus filhos comendo arroz e feijão, o alimento que não está ao alcance do favelado, fico sorrindo à toa como se eu estivesse assistindo um espetáculo deslumbrante."

E assim vamos percorrendo essa estrada da maternidade, revelando nossas dificuldades, mas sobretudo nosso amor. A mãe está presente no mundo porque não haveria mundo sem mãe. O dom natural da vida está na mulher-mãe.

É dessa natureza de ser mãe que Carlos Drummond de Andrade lamenta sua não eternidade. Mãe não deveria morrer; e não morre mesmo. Ela sempre estará no nosso coração e na nossa alma.

Para Sempre
Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.
Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
— mistério profundo —
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.
Trecho do livro Lição de Coisas, de Carlos Drummond de Andrade


Fotos: Reprodução/Internet
Maria Santana Souza é Jornalista, sob o nº 001487/AM, diretora-presidente do Portal Mulher Amazônica e apresentadora do podcast Ela.
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