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Meio Ambiente - 21/02/2023

Mudanças climáticas já estão presentes e eventos trágicos devem ocorrer com mais intensidade, diz Carlos Minc

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Foto: Reprodução

Ex-ministro do Meio Ambiente de Lula falou à Fórum sobre as relações entre as mudanças climáticas e as fortes tempestades que atingiram o litoral norte de São Paulo e resultaram, até o momento, em 37 mortes

Os temporais do último final de semana marcaram o carnaval 2023 como um momento de tragédia no litoral de São Paulo. Em São Sebastião, município do litoral norte, 35 pessoas morreram por conta das inundações e deslizamentos de terra, outras duas mortes foram confirmadas em outros municípios. Há ainda cerca de 40 pessoas desaparecidas.

 

No município de São Sebastião, em Vila do Sahy, comunidade localizada na encosta do morro de frente para a famosa praia da Barra do Sahy, um desabamento atingiu aproximadamente 50 casas e causou uma 31 mortes e uma série desaparecidos. O Instituto Verdescola, ONG que atua na região, improvisou um hospital para feridos e está guardando 24 corpos. Na praia de Juquehy há dois desaparecidos e em Camburi e Boiçucanga há uma pessoa desaparecida em cada praia. Na praia de Toque-Toque Pequeno e na comunidade de Topolândia, no centro de São Sebastião, houve alagamentos, desabamentos de casas e cortes de água e luz.

 

Em Ilhabela, logo ao lado, a famosa praia da Feiticeira está completamente revirada e, em Ubatuba, uma criança de 7 de anos morreu após um deslizamento. Ao todo, seis municípios tiveram decretado o Estado de calamidade pública: São Sebastião, Ubatuba, Ilhabela, Caraguatatuba, Bertioga e Guarujá. Este último registrou uma tempestade na quinta-feira (16) que se assemelha a um ciclone bomba. À Folha de S. Paulo, a meteorologista Ana Avila, do Centro de Pesquisas Meteorológicas da Unicamp, classificou as chuvas como um “evento climático extremo”, o que coloca a tragédia vivida por São Paulo no âmbito das consequências das mudanças climáticas. O litoral paulista já registrou 1730 desalojados e 766 desabrigados.

 

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A Revista Fórum conversou sobre o episódio com Carlos Minc, geógrafo, ambientalista, ex-ministro do Meio Ambiente de Lula (2008-10) e ex-secretário do Meio Ambiente do Rio de Janeiro (2006-08).

 

“95% dos cientistas sérios dizem que as mudanças climáticas já estão aí e vão se acirrar. Isso significa que os chamados eventos extremos, tanto de temperaturas elevadas, quanto de temperaturas muito baixas, assim como de ciclones e tempestades serão cada vez mais frequentes e mais intensos. Ou seja, a distância de tempo entre eles vai diminuir e a intensidade vai aumentar. Esse será o nosso ‘novo normal’, infelizmente. Todos os esforços que estamos tentando fazer - os países do mundo, as conferências mundiais do clima - são para impedir que isso se agrave mais ainda, uma vez que até o final desse século esse quadro não vai retroceder”, afirmou Minc.

 

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O meteorologista Franco Cassol, da Defesa Civil de Santos, concorda com o ex-ministro. “Em relação ao papel das mudanças climáticas no fenômeno que ocorreu, podemos traçar um link de relação entre uma coisa e outra, pois sabemos que, baseado nos estudos e nas projeções em termos de mudança climática, um dos principais efeitos é, justamente, o aumento da frequência desses eventos mais extremos, com chuvas que passam de um limiar histórico já observado. Então, podemos dizer que tem, sim, essa relação com as mudanças climáticas”, afirmou.

 

Cassol contou à Fórum que desde o início da semana anterior foram emitidos alertas sobre as chuvas pela Marinha, pelo Instituto Nacional de Meteorologia emitiu alerta e pela Defesa Civil do Estado. “Nós, da Defesa Civil de Santos, também formulamos nota de alerta, tanto para a imprensa quanto por SMS para munícipes cadastrados, alertando, principalmente, para o volume de chuva que estava previsto para o final de semana. Claro que, em alguns pontos, principalmente no Litoral Norte, a chuva acabou se intensificando ainda mais, mas aqui, no caso de Santos, apesar dos efeitos que observamos, conseguimos alertar a população”, declarou.

 

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Para além da questão climática, Minc chamou atenção para uma série de fatores que contribuem com a tragédia, que se repete ano após ano no Brasil. No começo de 2022, por exemplo, fortes chuvas causaram estragos e vítimas humanas no Rio de Janeiro, Minas Gerais e Bahia.

 

“As várias questões de desleixos anteriores, desde habitações nas encostas, desmatamento e não controle das redes de drenagem terão consequências cada vez piores uma vez que esses eventos devem se repetir mais vezes e com mais força. Isso coloca novas questões: precisamos acelerar programas como o Minha Casa Minha Vida para realocar as famílias que vivem em áreas de risco, além de desassorear os rios, limpar as redes pluviais, desobstruir as redes de drenagem e muito mais. Casas muito próximas, no litoral, de onde o mar avança, também têm de ser realocadas, e é preciso o reflorestamento de várias áreas para reduzir as chances de deslizamentos das encostas. No Brasil umas das áreas mais atingidas vai ser o Nordeste porque aí a vulnerabilidade hídrica se combina à vulnerabilidade social. No Sudeste, teremos uma série de áreas, entre o litoral e as serras, que vão ser muito vulneráveis”, explicou.

 

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Fotos: Reprodução

 

Minc defende que além da busca por fontes de energia limpa e das reduções de emissões de gases de efeito estufa e do desmatamento, é importante criar políticas de habitação e uma cultura política nova nesse sentido. Para exemplificar, contou um pouco sobre sua experiência na Secretária Estadual de Meio Ambiente do Rio de Janeiro.

 

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“Quando estivemos à frente da Secretaria Estadual do Meio Ambiente fizemos, com a Instituto de Geologia da UFRJ, o mapeamento de todas as áreas de risco. Mas os prefeitos não cumpriam. Então tivemos que fazer uma lei estadual dizendo que as diretrizes do mapeamento de risco deveriam ser incorporadas obrigatoriamente às leis de uso do solo e aos planos diretores. No passado, um prefeito menos consciente colocava o mapeamento sobre a mesa, um vaso de flores em cima, e continuava autorizando loteamentos, estradas e empreendimentos exatamente naquelas encostas com ângulo acentuado e terreno não firme. Isso precisa mudar radicalmente, tem que haver prevenção e as pessoas que infringirem essas diretrizes têm que ser severamente punidas pois são corresponsáveis por dramas humanos, ambientais e materiais de muita gravidade. Ao mesmo que a gente precisa combater o desmatamento, as emissões e apostar em energia limpa, também é preciso ver essa questão da habitação. Tudo isso precisa ser acelerado, e com forte cobrança da sociedade”, concluiu.

 

Fonte: Com informações da Revista Forum e colaboração de Lucas Vasques

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