No Dia da Consciência Negra, especialista alerta para desigualdades no atendimento ginecológico, riscos na gravidez e falta de acesso a direitos no parto
Em alusão ao Dia da Consciência Negra, celebrado nesta quinta-feira, 20/11, o programa CB.Saúde, parceria entre o Correio Braziliense e a TV Brasília, recebeu a médica ginecologista e obstetra Marcelle Thimot. Na entrevista às jornalistas Carmen Souza e Milla Ferreira, a especialista chamou atenção para as desigualdades no atendimento e as formas de violência obstétrica que atingem, de maneira desproporcional, mulheres negras.
Segundo a especialista, mulheres negras, em sua maioria, enfrentam maior dificuldade de acesso a informações, acompanhamento adequado e atendimento de qualidade ao longo da vida reprodutiva. Como resultado, muitas já iniciam a gravidez em condições de maior vulnerabilidade e risco. “Quando a paciente já tem alguma condição de saúde de base, como diabetes descontrolado ou hipertensão, ela já ingressa numa gestação de alto risco”, explica.
A situação tem raízes históricas. “Essa questão de a mulher negra ser mais resistente à dor é uma coisa histórica. O espéculo, chamado bico de pato, que é o aparelho usado no exame ginecológico, foi testado em mulheres negras, sem anestesia e sem nenhum cuidado”, explica. “As mulheres negras eram vistas como parideiras, muitas eram obrigadas, estupradas, engravidavam e se tornavam amas de leite, sem qualquer preocupação com a saúde delas. Elas eram apenas um produto usado para sustentar aquela sociedade”, afirma.
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Para a especialista, o histórico impacta diretamente a qualidade do atendimento oferecido a essas mulheres. “Temos estatísticas comprovando que a analgesia de parto, que reduz a dor durante o trabalho de parto, é menos oferecida às mulheres negras. Como a maior parte da população negra depende do SUS e muitos hospitais não oferecem analgesia como rotina, essa mulher provavelmente não vai ter direito a sentir menos dor”, afirma.
Essa realidade, segundo ela, contribui para o aumento do número de cesáreas entre mulheres negras. “É um parto operatório com riscos envolvidos, como risco de morte perinatal e hemorragia. Além disso, muitas vezes, não há diálogo, não se conversa com a mulher sobre a possibilidade de manobras, e ela não tem o direito de escolha, o que já caracteriza uma violência obstétrica”, alerta.

Foto: Marcelo Ferreira CB/DA Press
Na tentativa de evitar possíveis violências, a médica ressalta a importância de um acompanhante durante todo o atendimento ginecológico e obstétrico. “Existem leis garantindo que uma mulher tem que estar acompanhada 100% do tempo, não só no trabalho de parto, mas também em atendimentos ginecológicos. O acompanhante tem um papel importante, porque a mulher está em um momento de fragilidade física e emocional e, muitas vezes, não percebe o que está acontecendo”, afirmou.
Em casos em que seja identificada a violência obstétrica, Marcelle explica que ainda não há um canal específico para denúncias. “O ideal é que se converse com a equipe, primeiramente, ou com o hospital. Há também a possibilidade de judicialização. Hoje em dia, a gente tem muitos processos judiciais, mas aí a paciente vai pelos meios comuns. Inicialmente, é feita uma denúncia, e ali se avalia se houve algum dano ou não para prosseguir com o processo”, conclui.
Fonte: Com informações Correio Braziliense
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