13 de Maio de 2026

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Especial Mulher - 14/05/2026

Marilyn Monroe: entre a imagem pública e a dor que ninguém escutou

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Foto: Reprodução

Sob o nome do cuidado, sua dor foi traduzida, corrigida e normalizada, não por ausência de atenção clínica, mas porque não se deixava inscrever nos regimes dominantes de inteligibilidade do sofrimento.

Entre a lenda e a mulher, Marilyn Monroe foi amplamente interpretada, diagnosticada e admirada, mas raramente escutada. Sob o nome do cuidado, sua dor foi traduzida, corrigida e normalizada, não por ausência de atenção clínica, mas porque não se deixava inscrever nos regimes dominantes de inteligibilidade do sofrimento. Aquilo que escapava à norma diagnóstica foi convertido em excesso, ruído ou desvio. Sua imagem atravessou o século como ícone de beleza e tragédia, enquanto seu sofrimento permaneceu à margem da escuta.

 

Uma vida narrada, uma dor não ouvida

 

O ponto de partida é a obra Marilyn: últimas sessões, de Michel Schneider, que combina romance biográfico e ensaio psicanalítico ao reconstruir os últimos anos da atriz a partir de seus atendimentos com Ralph Greenson. A narrativa expõe, com precisão incômoda, os limites de uma clínica que tentou salvar sem sustentar a escuta e interpretar sem reconhecer o que não se organiza em discurso.


A hipótese que atravessa este debate é direta: Marilyn Monroe não foi apenas atravessada por uma tragédia pessoal, mas por uma falha institucional e simbólica de escuta. Sua dor não encontrou lugar porque aquilo que se expressava, inclusive fora das palavras, não era reconhecido como legítimo. A pergunta que emerge é inevitável: a clínica contemporânea está preparada para escutar o sofrimento feminino quando ele não cabe em diagnósticos?

 

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Quando o cuidado vira controle

 

 

O acompanhamento de Marilyn por Greenson, iniciado em 1960 por recomendação de Anna Freud, ocorreu no auge da psicanálise nos Estados Unidos. Nesse contexto, o método era visto como promessa de cura e prestígio. Admitir falhas não era apenas difícil. Era ameaçador.


Gradualmente, o papel do analista ultrapassou o espaço clínico. Greenson passou a interferir na rotina, nas decisões profissionais e até na vida pessoal da atriz. O cuidado deslocou-se da escuta para a administração da vida.

 

 


Como alertava Jacques Lacan, o analista não deve ocupar o lugar do saber absoluto, mas sustentar um vazio que permita a emergência do sujeito. Quando esse vazio é preenchido por direção, interpretação excessiva e vigilância, a escuta se perde.


No caso de Marilyn, o excesso de zelo — ligações constantes, interferência emocional, convivência íntima — ultrapassou o cuidado e instaurou um regime de captura. A escuta foi substituída pela regulação.

 

O feminino como aquilo que escapa

 

 

A dificuldade em escutar Marilyn não foi apenas clínica. Foi também estrutural.


A tradição clínica tende a privilegiar o que pode ser nomeado, classificado e estabilizado. O que escapa a essa lógica aparece como erro, excesso ou desvio. Nesse cenário, o feminino surge como aquilo que resiste à captura.

 


Lacan, ao formular o conceito de “não-todo”, aponta justamente para essa impossibilidade de reduzir o feminino a uma lógica única. O feminino não se organiza como categoria estável. Ele insiste na falha, na ambiguidade, no excesso.


Marilyn encarnava esse excesso. Chorava fora de hora, interrompia narrativas, desorganizava expectativas. Sua dor não era linear. E por isso mesmo, não foi legitimada.

 

Diagnosticar demais, escutar de menos

 

 

Ao longo de sua trajetória clínica, Marilyn recebeu múltiplos rótulos: histérica, borderline, paranoica, instável. A multiplicação de diagnósticos não ampliou a compreensão. Funcionou como contenção.


Nomear, nesse contexto, tornou-se uma forma de silenciar.


O diagnóstico deixou de ser ferramenta provisória e passou a operar como identidade. O sujeito foi reduzido ao sintoma. E o sintoma, tratado como algo a ser corrigido.

 


Como aponta Butler, o que não se encaixa nas normas de reconhecimento tende a ser excluído. Na clínica, isso significa algo simples e grave: o que não é reconhecido não é escutado.


Marilyn não precisava de mais nomes. Precisava de um lugar onde pudesse existir sem ser imediatamente traduzida.

 

O espetáculo da dor

 

 

Nos últimos meses de vida, Marilyn continuava sendo fotografada, filmada e exigida. Mesmo fragilizada, precisava performar.


O ensaio com Bert Stern, semanas antes de sua morte, evidencia esse paradoxo. Ao mesmo tempo em que se expunha, Marilyn tentava resistir. Ao revisar as fotos, riscou negativos com um grampo de cabelo. Pequenos gestos de recusa.

 


Seu corpo era imagem pública. Mas sua dor permanecia inaudível.


A cicatriz que deveria ser apagada, o choro que precisava ser controlado, o silêncio que era interpretado como falha. Tudo indicava a mesma lógica: manter a imagem, eliminar o real.

 

Uma falha que não é individual

 

 

O caso de Marilyn não revela apenas o fracasso de um analista. Expõe um modelo de cuidado que ainda persiste.

 

Uma clínica orientada pela normalização, pela produtividade e pela necessidade de resposta rápida. Um sistema que escuta apenas o que pode ser resolvido.


Nesse modelo, o sofrimento que não se organiza vira problema. E o problema, patologia.

 

Por uma escuta que sustenta, não corrige

 

 

A trajetória de Marilyn convoca outra possibilidade: uma clínica que não comece pela pergunta “o que você tem?”, mas pela disposição de permanecer diante do que não se compreende.


Uma escuta que não traduza imediatamente. Que não corrija. Que não normalize.


Há dores que não pedem solução. Pedem presença.

 

O que ainda grita no silêncio

 

 

Marilyn Monroe não morreu apenas de uma tragédia pessoal. Morreu também da impossibilidade de ser reconhecida como sujeito por uma estrutura que já chegava pronta para interpretá-la.


Seu corpo foi visto. Sua dor, não.


O que permanece não é apenas sua imagem, mas a pergunta que insiste: quantas mulheres ainda não são escutadas porque não cabem nas formas esperadas de sofrimento?

 

 


Quantas só são reconhecidas quando já se tornaram ruína ou espetáculo?


A história de Marilyn não é exceção. É sintoma.

 

Posicionamento do Portal Mulher Amazônica

 

Fotos: Reprodução

 

O Portal Mulher Amazônica entende que a trajetória de Marilyn Monroe revela uma dimensão estrutural ainda presente: o silenciamento do sofrimento feminino sob o disfarce de cuidado.


Defendemos uma escuta ética, comprometida com a singularidade das experiências das mulheres, especialmente aquelas que não se enquadram em padrões normativos de comportamento, linguagem ou sofrimento.


Reconhecer o excesso, a ambivalência e o não entendimento como parte legítima da experiência humana é um passo fundamental para romper com práticas que, ainda hoje, transformam dor em diagnóstico e subjetividade em desvio.

 

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Escutar mulheres não é interpretar rapidamente. É sustentar presença.

 

Fontes:
SCHNEIDER, Michel. Marilyn: últimas sessões. 2008.
LACAN, Jacques. A direção do tratamento e os princípios de seu poder. 1958/1998.
BUTLER, Judith. Quadros de guerra. 2015. 

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