Segundo a pesquisadora, o interesse é recente e significativo, sobretudo por parte de organizações internacionais.
A realização da COP30 no Brasil colocou os manguezais no centro de um renovado interesse internacional. Diferente de outros debates ambientais marcados pela irreversibilidade das perdas, o foco agora é a possibilidade concreta de frear a degradação e restaurar esses ecossistemas costeiros estratégicos, fundamentais para o enfrentamento das mudanças climáticas.
Quem acompanhou de perto essa movimentação foi a cientista Yara Schaeffer-Novelli, professora sênior do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (USP) e uma das maiores referências mundiais no estudo dos manguezais. Aos mais de 80 anos, ela passou as duas semanas da COP30 em Belém observando o surgimento desse novo cenário. Segundo a pesquisadora, o interesse é recente e significativo, sobretudo por parte de organizações internacionais.
Ela relata ter identificado um forte movimento de ONGs europeias interessadas em atuar nos manguezais brasileiros, especialmente em projetos de plantio e restauração. Para Yara, o momento é simbólico e estratégico para reposicionar esses ecossistemas como prioridade na agenda climática global.
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Compromissos e adesão brasileira
O interesse internacional dialoga diretamente com iniciativas como o Mangrove Breakthrough, programa global ao qual o Brasil aderiu oficialmente em 2025, durante encontro em Nice, na França. Atualmente, 44 governos fazem parte da iniciativa, representando cerca de 40% da cobertura mundial de manguezais.
Durante a COP30, os estados do Pará, Sergipe, Pernambuco, Maranhão e Amapá, além da cidade de Aracaju, anunciaram adesão ao compromisso, somando-se ao governo federal e ao estado do Rio de Janeiro. A proposta é colocar os manguezais no centro das estratégias de resiliência climática e proteção das comunidades costeiras.
Onde o investimento realmente importa
Apesar do entusiasmo com projetos de plantio, Yara Schaeffer-Novelli alerta que a conservação começa antes da semente. Segundo ela, o Brasil perde entre 1% e 2% da área de manguezais por ano, um índice que pode ser revertido com medidas eficazes de gestão pública e cumprimento da legislação ambiental. A pesquisadora aponta ameaças recorrentes, como dragagens, aterros, construção de marinas, resorts e condomínios, além do despejo de resíduos sólidos e esgoto, comuns em áreas urbanas costeiras. Para ela, o principal investimento precisa ser institucional.
A defesa dos manguezais, segundo Yara, depende da aplicação rigorosa da lei, do fortalecimento da fiscalização ambiental e da valorização dos servidores públicos. Ela destaca a necessidade de mais concursos para o Ibama e o ICMBio, além do reconhecimento do papel central das comunidades tradicionais. Para a cientista, quem de fato conserva são os moradores das reservas extrativistas, os técnicos e fiscais que vivem e trabalham nesses territórios.
Um patrimônio brasileiro sem fronteiras
Yara defende uma visão integrada do território nacional. Para ela, os manguezais não podem ser fragmentados por divisões regionais. No Amapá, Pará e Maranhão, está localizada a maior extensão contínua de manguezais do planeta, um patrimônio ambiental de valor global.
A presença crescente desse ecossistema na agenda climática reflete não apenas sua importância ambiental, mas também social, cultural e espiritual. Os manguezais sustentam modos de vida, práticas religiosas, festas populares, competições de jangadas e canoas, compondo uma sociobiodiversidade que não pode ser mensurada financeiramente. Para a pesquisadora, esse valor está ligado à soberania e à identidade dos povos costeiros.
Manguezal como floresta tropical
Fotos: Reprodução/Google
No pós-COP, o desafio é estratégico: reconhecer os manguezais como florestas tropicais e intertropicais e inseri-los nos grandes compromissos internacionais de proteção florestal. Yara defende que os manguezais integrem o programa Florestas Tropicais para Sempre (TFFF – Tropical Forest Forever Facility), ampliando o alcance das políticas de conservação.
Ela projeta um futuro em que o país seja rico em manguezais e em povos tradicionais, como caiçaras, marisqueiras e catadores de caranguejo, incluindo comunidades católicas e de religiões de matriz africana, cuja espiritualidade também se ancora nesses territórios. Para a cientista, preservar os manguezais é preservar o próprio Brasil. Ao final, deixa uma reflexão: a educação ambiental é parte essencial da conservação. Conhecer o valor dos recursos naturais é condição para protegê-los. Desmatamento zero e aplicação da lei, reforça, não são luxo, mas exigências básicas para a continuidade da vida.
Protagonismo feminino em evidência
Outro ponto destacado por Yara Schaeffer-Novelli durante a COP30 foi o protagonismo feminino nos territórios costeiros. Ela ressaltou a visibilidade crescente das mulheres pescadoras, historicamente invisibilizadas, apesar de desempenharem as mesmas funções que os homens e acumularem responsabilidades domésticas, educacionais e produtivas.
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