O pastor tem consciência de que está manipulando o sagrado para propósitos políticos nada santos
No culto do dia 3 de maio, Silas Malafaia mencionou que Flávio Bolsonaro estava presente na celebração e o chamou até o altar. Entretanto, a participação de Flávio na santa ceia e as imagens do senador ajoelhado durante a oração foram deliberadamente apagadas do vídeo oficial do culto disponível nas redes sociais da igreja. No altar, Flávio estava acompanhado pelo ex-governador Cláudio Castro, pelo deputado Marcelo Crivella e outros políticos fluminenses.
Ironicamente, o registro da oração, no qual o pastor pedia que Deus concedesse ao parlamentar "inteligência, sabedoria e revelação", sobreviveu apenas nas redes sociais do próprio Flávio. A "revelação" veio dez dias depois, quando o The Intercept Brasil expôs os diálogos nos quais o senador pedia dinheiro e jurava fidelidade ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro.
Diante do escândalo, Malafaia ensaiou uma defesa pública: passou metade do tempo atacando a esquerda e a outra metade esquivando-se de fazer um "juízo de valor" sobre os milhões recebidos por seu aliado. O pastor alegou que Flávio seria vítima de "vazamentos seletivos" e que não haveria provas de benefício próprio, fingindo que ignorava que o senador mentiu sistematicamente sobre seus contatos com Vorcaro e sobre o financiamento do filme "Dark Horse".
Veja também

Lula recusa tentativa de Motta de abrir canal para governo resgatar BRB
.jpg)
Embora uma auditoria possa demorar a rastrear o destino dos milhões, as mentiras de Flávio já estão documentadas. Não há qualquer dúvida a respeito disso. Cabe, então, questionar: será que Malafaia precisa que a Polícia Federal devolva seus cadernos teológicos para que ele se lembre de que a mentira é proibida pelo nono mandamento?
Na ausência dos cadernos, o pastor poderia aprender com a teledramaturgia nacional; como dizia a personagem Raquel Acioli em "Vale Tudo": "Quem mente, rouba; quem rouba, mata". Pode assisti-la na interpretação feita por Regina Duarte, a ex-secretária da Cultura de Jair Messias Bolsonaro.Malafaia, sob o pretexto de defender os valores cristãos por meio de bandeiras políticas, conseguiu exatamente o contrário. Ele passa longe de qualquer temor de profanação da santa ceia. Durante séculos, esse momento ritual nas igrejas evangélicas (equivalente à eucaristia no catolicismo) sempre foi precedido de silêncio e autoexame de consciência. Diante do autoexame, muitos crentes se privam de receber o pão e o cálice porque a própria consciência os acusa de algum pecado.

Fotos: Reprodução/Google
No culto em questão, Flávio Bolsonaro recebeu o pão e o cálice e participou sem qualquer gesto de autoexame ou arrependimento. Pastor algum pode adivinhar quem não está em condições espirituais de participar da santa ceia. No entanto, uma vez que foi revelada a mentira de Flávio Bolsonaro, o verborrágico Malafaia tinha o dever de lembrar ao pré-candidato que ele "comeu o pão e bebeu do cálice do Senhor indignamente e será réu do corpo e do sangue do Senhor" (1ª Co 11:27).O fato de o vídeo do culto ter sido editado com a exclusão dos trechos da oração por Flávio Bolsonaro e de sua participação na santa ceia testemunha que o pastor Silas Malafaia tem consciência de que está manipulando o sagrado para propósitos políticos nada santos.
"Um abismo chama outro abismo" (Salmo 42:7) é um versículo sempre lembrado no meio evangélico para alertar contra o perigo da insistência no erro. A bolsonarização das igrejas evangélicas no estilo promovido por Malafaia não elevou em um centímetro sequer a estatura moral da política nacional, mas está conseguindo levar para o fundo do poço a ética protestante.
Fonte: com informações Folha de São Paulo
Copyright © 2021-2026. Mulher Amazônica - Todos os direitos reservados.