Principal unidade pública funciona em tendas com estrutura de lona e acumula pior índice de mortes de bebês em 10 anos.
Mau atendimento, falta de insumos e de informação, episódios de xenofobia, e uma mulher que passou dois dias com o bebê morto na barriga. Esses são alguns dos relatos sobre a maternidade de "referência" em Roraima, que funciona há quase três anos em uma estrutura de lona alugada a um custo milionário com dinheiro público.
O hospital registrou 17 mortes a cada mil nascimentos em 2023, alta de 70% em relação ao ano anterior, conforme o Ministério Público de Roraima (MPRR). Em números absolutos, a quantidade de mortes de bebês é a pior dos últimos dez anos no estado. A média nacional é de 12,9 mortes para cada mil nascimentos, e no estado chega a 18,7, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
O g1 esteve na maternidade e verificou as condições da estrutura e os problemas enfrentados pelas pacientes, entre eles filas em corredores e até falta de cadeiras para os acompanhantes. Além disso, ouviu oito mães que denunciaram atendimentos inadequados durante a internação.
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Sheuly de Paula Araújo mostra a foto da filha, Zaira, que ficou dois dias morta dentro da barriga — Foto: Caíque Rodrigues/g1 RR
Neste período de temporada de chuva, que se iniciou neste mês, as preocupações com o local improvisado aumentam, por conta de casos de alagamentos e da fragilidade dos telhados, que já foram arrancados pelo vento em anos anteriores. Situações que, segundo a empresa responsável pela estrutura, foram resolvidas.
Nessa estrutura enfrentamos diversos problemas. Por exemplo, na época das chuvas, tem o vazamento de água, por cima ou por baixo, lixos, insetos, roedores, porque é uma estrutura bem mais suscetível a esse tipo de situação do que a de alvenaria.— promotor de defesa da Saúde, Igor Neves. Contexto: O Hospital Materno Infantil Nossa Senhora de Nazareth fica em Boa Vista e é conhecido como "maternidade de lona", pois há quase três anos utiliza as instalações das tendas do hospital de campanha feito durante a pandemia. Atualmente, a unidade é:
A única no estado com leito neonatal de Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) integrado ao Sistema Único de Saúde (SUS) para atender casos de complicações de mulheres ou recém-nascidos.Atende pacientes que vivem na região, comunidades indígenas (como do Território Yanomami), da rede privada, e até mesmo de outros países, como dos vizinhos Venezuela e Guiana.
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Professora que preferiu não se identificar ainda guarda os testes de gravidez da filha que perdeu na maternidade de lona — Foto: Caíque Rodrigues/g1 RR
O prédio original está em reforma desde 2021 e acumula uma série de atrasos para a entrega das obras. Embora o contrato de aluguel da estrutura de lona seja até agosto, o novo prazo para entrega das obras está previsto para junho deste ano (entenda abaixo).
O luto das mães que perdem seus bebês na maternidade
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Vanessa Pantoja e o marido que perderam a filha, Aysha, na maternidade em Roraima — Foto: Caíque Rodrigues/g1 RR
Em dezembro do ano passado, no oitavo mês de gestação, a dona de casa Sheuly de Paula Araújo notou que a bebê havia parado de mexer na barriga e começou a sentir fortes dores. Mãe de outros 5 filhos, ela sabia que aquilo não era comum e procurou a maternidade."Foi uma experiência muito difícil para mim. Tudo estava bem durante a gestação, mas de repente recebi a notícia devastadora de que minha bebê estava morta".
Sheuly conta que duas coisas foram muito dolorosas neste processo: passar dois dias com a filha morta na barriga e receber atendimento que considerou "ríspido", quando questionou os profissionais de saúde sobre o seu tratamento."Calma! Sua filha morreu, mas você não vai morrer", foram as palavras que ouviu na maternidade. A recém-nascida morreu por má formação na bolsa gestacional, segundo informou a mãe.
Daiane Campos teve seu bebê na maternidade e sonhava passar o Natal de 2023 com o pequeno. Mas o bebê morreu 12 dias depois do parto."A gente é muito maltratado ali dentro. Essa é a verdade. Você só é bem tratada se conhecer alguém. Se não tiver conhecimento de nada, nem de ninguém, você está ali à mercê da sorte".
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Rutbeliz Vargas, migrante venezuelana de 20 anos, vive em uma com outras nove famílias em Boa Vista, Roraima — Foto: Caíque Rodrigues/g1 RR
Na certidão de óbito consta que o recém-nascido morreu por falta de oxigenação no parto, insuficiência renal aguda, encefalopatia -- quando uma doença altera o funcionamento do cérebro --, além de redução de oxigênio ao tecido.Daiane afirma que uma cesariana poderia ter salvado o filho e, decidiu processar o hospital por negligência.Grávida de 5 meses, uma professora, que preferiu não se identificar, percebeu que a bolsa havia rompido. Como morava em Rorainópolis (extremo sul do estado), imediatamente ela foi até a Maternidade Thereza Monay Montessi, que atende casos de baixa complexidade.
Ela foi encaminhada para Boa Vista, mas quando chegou à maternidade, a equipe médica optou por induzir o parto. A bebê não resistiu e a professora seguiu internada por mais cinco dias, segundo ela, sem informações sobre seu estado de saúde."Fiquei internada com uma infecção, mas eles não me disseram o que era. Para ser sincera, até hoje eu não sei. Depois, me colocaram junto com as mães que tiveram seus filhos. Achei uma falta de cuidado, vendo as mães com seus nenéns e eu sem o meu", explicou.
Casos de mortes envolvendo gestações de até 37 semanas são maioria na unidade de saúde. Ao todo, 298 bebês morreram só no ano passado, sendo 153 prematuros, de acordo com dados da Sesau.Em novembro de 2023, quando Vanessa Pantoja chegou à maternidade, a equipe não considerou seu caso como urgente, mesmo ela relatando que sentia fortes dores.Durante à espera por atendimento, ela acabou dando à luz na sala de espera, com ajuda de um médico de plantão e de seu marido.
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Maternidade de lona em Roraima recebe mães e bebês yanomamis — Foto: Reprodução/ TV Globo
Vanessa conta que a filha Aysha engoliu mecônio, como são chamadas as fezes produzidas pelo intestino antes do nascimento, e precisou ser levada para a UTI, o que preocupou a mãe."Quando ele [médico] percebeu o que aconteceu, entrou em desespero. A equipe médica chegou e ele entregou a bebê. Perguntei se estava tudo bem, a enfermeira disse que sim. Aí ela disse o peso e o tamanho dela. Tentei ficar calma, mas já haviam tirado ela de mim”.
Horas depois, a equipe médica avisou da gravidade da situação da recém-nascida. "Eles sugeriram que o erro poderia ter sido durante o pré-natal, mas eu insisti que tinha feito todos os exames e acompanhamentos".Aysha morreu após 5 dias, vítima de insuficiência respiratória aguda, hipertensão pulmonar grave e síndrome de aspiração meconial.Vanessa atribui a morte ao atendimento que recebeu na maternidade e está processando o estado por negligência médica durante o parto e ausência falta de informações precisas sobre o real estado da filha. Ela pede indenização por dano moral. O caso está em tramitação e ainda não houve decisão.
"A gente pede uma indenização e que o estado seja condenado, mas que isso não seja uma mera indenização, mas que tenha um caráter pedagógico e que não aconteça mais", explica o advogado Thiago Amorim, que atende a ao menos 10 mães que tiveram algum problema na "maternidade de lona".A falta de pré-natal está entre os fatores associados pelo secretário-adjunto de Saúde, Edson Castro, que contribuem com as mortes registradas na maternidade.
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Leyla Araujo beijando o filho Bernado, nascido prematuro na maternidade de lona — Foto: Caíque Rodrigues/g1 RR
"Muitas gestantes chegam já em trabalho de parto, tendo o bebê ou com algum problema, como sangramento, descolamento de placenta ou outras patologias. Às vezes, o bebê já tem uma má-formação fetal e a mãe nem sabia. É bom deixar claro que não estamos passando a responsabilidade para a mãe", explicou o secretário-adjunto da Sesau.Mães venezuelanas e os pequenos 'brasilanos'Em outubro de 2022, Rutzbeliz Vargas saiu da Venezuela com planos de conseguir um trabalho e ajudar a mãe que já tinha cruzado a fronteira.
Um ano após se mudar para Boa Vista e grávida do primeiro filho, ela relatou ter enfrentado um dos momentos mais difíceis até então, e descreveu a experiência na "maternidade de lona" como uma forma de violência.“As enfermeiras me maltratavam, gritavam, me chamavam de p*t* diziam que meu filho ia passar fome e que eu ia ficar pedindo comida de esquina em esquina, que eu era uma mãe má. Tudo isso só porque ele chorava. Me diziam coisas muito feias e não tratavam as brasileiras como me trataram”, lembrou.Com um volume crescente de imigrantes chegando, e abrigos quase sempre lotados, é comum encontrar venezuelanos em situação de rua em Boa Vista. A realidade também atinge mulheres que acabam pedindo ajuda em semáforos e nas portas de supermercados acompanhadas de seus filhos.
A estimativa é que 192 mil venezuelanos chegaram no Brasil em 2023. Principal porta de entrada para migrantes no país, Roraima tem 7,4 mil pessoas vivendo em 8 abrigos e 3 alojamentos.1,7 mil venezuelanos vivem em situação de rua ou fora dos abrigos do estado, conforme os dados de janeiro da OIM, agência da ONU para as Migrações.No auge da migração, em 2018, 403 filhos de pais venezuelanos nasceram no estado. Na época, a maternidade ainda funcionava no prédio original. Em 2023, foram registrados 137.Em setembro do ano passado, Yosvell Yeshua se juntou a uma nova (e crescente) geração, a dos “brasilanos”, os brasileiros filhos do êxodo venezuelano que nascem todos os dias em Roraima, em meio a uma cena que sua mãe Yutzmar Bravo descreveu como "caótica".
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A motorista Tatiane Silva, de 31 anos, passou por uma cirurgia de emergência após o parto, mas até hoje não sabe do que se tratou — Foto: Caíque Rodrigues/g1 RR
Chegando à maternidade com 9 meses de gestação, a venezuelana de Ciudad Bolivar (a 935 quilômetros de Boa Vista) ficou impressionada ao observar, já na recepção, outra grávida dando à luz sem o devido atendimento médico.Durante o parto do filho, ela lembra que, numa ação de impulso, agarrou a mão de uma enfermeira, que reagiu bruscamente e disse "sai daqui". Além disso, Yutzmar contou que foi ignorada por profissionais de saúde quando perguntava sobre os procedimentos.
"Me senti triste, pois é um momento que estamos nas mãos deles, dependendo da maternidade. Primeiro nas mãos de Deus, mas também ficamos nas mãos deles. A gente espera algo diferente, uma ajuda, um amor, mas não tinha nada disso para a gente", desabafou.Mulheres gestantes em situação de vulnerabilidade socioeconômica são as mais afetadas pela falta de acesso a uma assistência de saúde adequada, avalia Lidia Joy Pantoja, pesquisadora de Direitos Humanos e Direitos da Mulher na Amazônia, pela Universidade Federal de Roraima (UFRR).
Isso pode ter impactos negativos na saúde tanto da mãe, quanto do recém-nascido. As barreiras linguísticas e culturais dificultam ainda mais o acesso das migrantes à informação sobre cuidados pré-natais e durante o parto.— Lidia Joy Pantoja.O secretário-adjunto da Sesau, Edson Castro, disse que xenofobia não condiz com o comportamento esperado de um profissional da saúde, independentemente da nacionalidade.
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Entrada da UTI neonatal na maternidade Nossa Senhora de Nazareth — Foto: Raquel Maia/Rede Amazônica
“Precisamos que essas reclamações cheguem no serviço de ouvidoria para que a gente possa investigar a conduta do profissional. Independentemente de ser brasileira ou venezuelana, não interessa, o tratamento não se faz por nacionalidade, você faz para o paciente. Independentemente de onde nasceu ou de onde está vindo”, afirmou.As gestantes indígenas também enfrentam dificuldades em relação à comunicação, conforme mostrou o programa Profissão Repórter.
Aharon Abaete, que é coordenador de saúde indígena, e a equipe são acionados sempre que uma mulher Yanomami ou recém-nascidos dão entrada no hospital. Apesar de saber algumas frases, Aharon não é fluente na língua Yanomami e a maternidade não tem intérprete.
“É importante para poder se comunicar com a paciente, saber se ela está em condições realmente de ir embora, se ela está com dor ainda, se ela sente algum outro problema. Mas, a gente aqui na maternidade tem uma grande problemática porque quando elas não conseguem se comunicar com a gente", relatou Aharon.O governo federal instalou, em fevereiro, a "Casa de Governo", com foco em assistência aos Yanomami. O pacote envolve a ampliação de leitos em hospitais, contratação de médicos, além da construção e reformas de unidades básicas.
Fonte: com informações do Portal G1
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