08 de Maio de 2026

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Inspiração Amazônica - 07/01/2024

Kátia Brasil: jornalista mostra ao mundo a realidade da Amazônia e dá voz á sua população

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Foto: Reprodução/Google

Desde 2013, está à frente da Amazônia Real, a primeira agência de jornalismo sem fins lucrativos e independente da região

Mulher negra, feminista e destemida, esta jornalista cearense-carioca-amazônida está há mais de 30 anos mostrando ao Brasil e ao mundo os conflitos, riquezas e contradições da maior e mais remota região do país que traz no nome. Kátia Brasil trabalhou em vários veículos regionais e foi correspondente de alguns dos principais jornais do país, para os quais fez inúmeras reportagens mostrando não apenas temas ambientais, como o desmatamento, como também problemas que envolvem narcotráfico, exploração de crianças e adolescentes e o tráfico de mulheres.

 

Desde 2013, está à frente da Amazônia Real, a primeira agência de jornalismo sem fins lucrativos e independente da região, cuja missão é dar voz à população que não tem acesso à mídia tradicional, defender os direitos humanos e lutar contra a desigualdade. A partir de Manaus, coordena uma equipe de 40 jornalistas que produzem conteúdo acessado e republicado gratuitamente em todo o mundo. Kátia também é ativista feminista e luta, principalmente, por maior participação da mulher na política.

 

Nesta conversa para o blog Mulheres Ativistas do Conexão Planeta conta, ainda, como a situação se agravou na região após o início do governo Bolsonaro, com risco iminente para as populações tradicionais, e com a pandemia da COVID-19. “A Amazônia Real entrou na cobertura para não deixar a história se apagar”, define.

 

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De onde vem seu ativismo como jornalista e como feminista?

 

 

 

Acredito que esse lado de mulher feminista vem da história da minha família, na qual muitas mulheres sofreram violência. Nasci em Fortaleza, de mãe nordestina e pai de Belém do Pará. Minha mãe se casou muito nova, com 19 anos, teve quatro filhos e se separou cedo. Meu pai bebia e a maltratava. Isso marcou minha vida. Minha avó assumiu a família, tinha uma casa grande, com muitos quartos, e fomos morar com ela.

 

Minha avó teve sete filhos e criou mais dois adotivos, ficou viúva e migrou do interior do Ceará para Fortaleza, onde começou vendendo tapioca na rua. Alugou casa, transformou em pensão, vendia comida, fez tudo para criar os filhos. Não sabia ler, mas colocou as filhas em escola particular. Sempre me disse para estudar e não depender de ninguém para sobreviver. No final dos anos 1960, quando eu tinha 7 anos, ela resolveu mudar para o Rio de Janeiro. Um dos meus tios, que era motorista de táxi, também bebia e era violento e ela quis se afastar. Fomos junto com ela.

 

Sou a única dos quatro irmãos que fez faculdade. Como não consegui passar em uma universidade pública, fui trabalhar muito cedo para pagar meus estudos. Sofri alguns casos de discriminação por ser negra. Na primeira loja em que trabalhei, em um shopping center, a dona me perguntou por que eu queria estudar em uma faculdade particular. Disse a ela que não queria ser vendedora de loja, mas jornalista. Em outra loja, o dono me disse que havia me contratado porque “pessoas da sua cor me dão sorte e sempre tenho uma em casa loja”. Guardei isso, não conseguia ainda ver que era racismo, mas percebia que era errado.

 

Por que saiu do Rio de Janeiro para ser jornalista na Amazônia?

 

 

Estudei na Faculdade de Comunicação e Turismo Hélio Alonso, em Botafogo, e tinha uma vida intensa, inclusive cultural. Frequentava cinema, galerias de arte, shows. Estagiei e trabalhei em diversas rádios durante a faculdade. Meu primeiro estágio foi na rádio Tupi, onde aprendi a apurar a pauta e cobri enchentes da cidade. Me apaixonei pelo rádio e achava que era o que faria a vida toda. Depois, fui repórter na rádio Tropical, na qual havia uma equipe de 20 mulheres e fiz a cobertura do desfile das escolas de samba de 1989.

 

Trabalhei também na revista Momentos, voltada para jovens, onde era repórter e editora, e no jornal da faculdade, Se Liga Botafogo, pelo qual também fiz coberturas de enchentes no Morro Chapéu Mangueira, no Leme, entrevistando moradores e até o prefeito. Saí de casa antes de me formar e fui morar com uma amiga em Santa Teresa. Na faculdade, conheci um colega, Luiz Marchesini, que me convidou para fundar um jornal para ouvir o bairro e as comunidades ao redor. Trabalhamos juntos na Folha de Santa Teresa de 1989 a 1990.

 

 

Antes de atuar com o jornal comunitário, me envolvi com teatro, no grupo Mergulho no Trágico, formado na faculdade por vários artistas, em 1986. Após três meses de estudos, fui trabalhar como produtora e comecei a fazer assessoria de imprensa para o grupo. Nosso primeiro espetáculo foi Édipo Rei e ganhamos o Prêmio Mambembe de revelação, em 1987. Até que uma colega da rádio Tropical disse que abririam um jornal em Roraima e havia vagas. Me inscrevi e passei. Aceitei a proposta porque era boa financeiramente e queria conhecer a Amazônia.

 

Tinha visto Chico Mendes durante um espetáculo com a Marcela Cartaxo – do qual eu era produtora – no Paço Imperial, no qual ele foi homenageado. Não cheguei perto, mas tinha fascinação por ele. Estava terminando a faculdade e meus professores me aconselharam a ir.

 

Como foi sua primeira experiência profissional em Roraima?

 

 

Fui trabalhar em O Estado de Roraima, jornal do então senador Romero Jucá, criado para a campanha dele na disputa a governador, embora eu não soubesse disso quando aceitei o convite. Tinha 27 anos e foi um choque cultural muito grande. Boa Vista tinha energia elétrica apenas quatro horas por dia, das 18 às 22 horas. Fazia um calor pior do que no verão carioca. O jornal não tinha nem computador. Roraima só virou estado em 1988. Em 1990, Boa Vista era uma cidade em obras, a primeira universidade estava sendo criada e tinham acabado de fechar um garimpo com 40 mil pessoas na Terra Indígena Yanomami.

 

Foram nove meses de trabalho intenso, quando aprendi a cobrir política e também a ser correspondente. Fiz um trabalho como freelancer para O Globo sobre a primeira visita de Lula a Roraima, na eleição que ele perdeu para Collor. Depois disso, comecei a ser correspondente do jornal. Jucá perdeu as eleições e não pagou aos jornalistas. Voltei para o Rio de Janeiro. Fiquei uns dois nesses na casa de minha mãe e entrei na Justiça para receber a indenização trabalhista.

 

Um amigo jornalista, Plínio Vicente, me ligou falando de um projeto de reformulação da A Gazeta de Roraima, que seria a primeira redação informatizada de Boa Vista, e precisavam de repórteres com interesse pela pauta socioambiental. Já escrevia para O Globo. Em janeiro de 1991, voltei para a Amazônia.

 

Foi nessa época que começou a produzir grandes reportagens sobre conflitos na Amazônia?

 

 

Sim, fiquei na Gazeta de Roraima até 1992 e participei em Minas Gerais do evento Green Press, que formou a primeira rede de jornalistas ambientais do Brasil. Pelo jornal fiz muitas matérias sobre conflitos envolvendo a demarcação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol e os fazendeiros. Também operações de retiradas de garimpeiros do território Yanomami.

 

Nunca tive dificuldade de ouvir os indígenas, os fazendeiros, os garimpeiros e o bispo da Igreja Católica. Ganhei o Prêmio Esso com uma matéria sobre um conflito envolvendo garimpeiros e a Guarda Nacional da Venezuela na fronteira do Brasil, pelo jornal A Gazeta. Foi o primeiro e único Prêmio Esso do Estado de Roraima. Também trabalhei para a TV Educativa, onde cobria meio ambiente, mas lá sofria cerceamento.

 

Em 1993, era correspondente de O Globo e trabalhava na TV quando houve o massacre dos Yanomami. Estava de férias e tinha ido conhecer Manaus. O jornal me chamou para voltar à Boa Vista. Quando cheguei, a TV não quis que eu fizesse cobertura porque disseram que eu era muito indigenista. Mas fiz muitas matérias para O Globo, e fomos o primeiro veículo a noticiar o local onde os Yanomami que sobreviveram ao ataque se refugiaram.

 

Por que você trocou Boa Vista por Manaus?

 

 

Fiz a cobertura sobre o caso Paulo Coelho, conselheiro da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), assassinado na porta de casa depois de avisar que iria investigar casos de desvio de recursos no Tribunal de Justiça de Roraima. Fui a repórter que fez a primeira matéria na TV Educativa.

 

Em uma de minhas idas à delegacia, os suspeitos presos me chamaram para dizer que não eram culpados, que eram bodes expiatórios e que estavam com medo. Houve um movimento da OAB na mídia nacional, mas havia um movimento para encobrir um desembargador, que acabou descoberto e seus filhos presos. Quando fui ouvi-lo, ele disse que eu iria amanhecer com a boca cheia de formiga. Falei com a Polícia Federal, ganhei um segurança por algumas semanas, mas resolvi ir embora de Boa Vista.

 

Em dezembro de 1993, fui trabalhar no jornal Amazonas em Tempo, que era o segundo jornal do estado, como editora de economia. Fui aprender o que era a Zona Franca. Fiquei lá até 1995.Desde então, você tem mostrado uma Amazônia com problemas que vão muito além de desmatamento.Depois do Amazonas em Tempo, fui para a TV Cultura e me tornei correspondente de O Estado de S. Paulo, onde fiquei sete anos. Cobri o escândalo das compras de voto de FHC, quando o governador Amazonino não me deu entrevistas.

 

Fotos: Reprodução/Google

 

Foi uma época difícil e turbulenta para jornalistas. Pelo jornal, fui indicada novamente ao Prêmio Esso por uma matéria sobre desmatamento. Na TV, duas reportagens minhas, uma sobre prostituição de crianças e adolescentes e uma sobre crianças moradoras de rua, simplesmente sumiram. Matérias que fiz sobre desmatamento e madeireiras também não saíram. Discuti com o editor e acabei demitida. Decidi que nunca mais trabalharia para a imprensa local e fiquei apenas com o Estadão.

 
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Em 2000, fui para a Folha de S. Paulo, onde trabalhei até 2013. Sempre estive na linha de frente. Na Folha, viajei muito pela Amazônia, não apenas a brasileira. Cobri o tráfego de drogas, estive com as FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), sem que soubessem que eu era jornalista, para investigar o contrabando de alimentos e drogas. Cobri pautas sobre o tráfico de mulheres e a exploração sexual de crianças e adolescentes. Também percebi que temas como povos indígenas, ribeirinhos e quilombolas eram tratados com pouco interesse pelos editores, como “um Brasil profundo”, o que tornava invisíveis as histórias e questões da Amazônia.

 

Fonte: com informações do Portal Conexão Planeta

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